[P de Política]

Brasil, Estados Unidos e o Hemisfério Ocidental

Por José Luis Fiori*

 

“A new form of nationalism may emerge, seeking national or regional identity by confronting the United States. In its deepest sense, the challenge of texto_detalhe Hemisphere policy for the United States is whether it can help bring about the world envisioned by Free Trade Area of the Americas, or whether the texto_detalhe Hemisphere, for the first time in its history, will break up into competing blocs; whether democracy and free markets will remain the dominant institutions or whether there is a gradual relapse into populist authoritarianism.” 

H. Kissinger, 2001, Does America Need a Foreign Policy,  Simon&Schuster, New York, p: 84

Em grandes linhas, foi a visão estratégica de Nicholas Spykman [1], formulada na década de 1940, que orientou a política externa dos EUA, para a América do Sul – democrata e republicana –  durante toda a segunda metade do século XX. Nesse período, só Henry Kissinger teve –  dentro dos EUA –  uma visão geopolítica do mundo tão ampla e inovadora, mas apesar disso, ele não mudou uma vírgula, com relação à visão hemisférica de Spykman. Com a diferença, que Kissinger foi também um executivo,  e ocupou cargos de importância crescente, dentro das administrações republicanas, a partir do primeiro governo de Dwight Eisenhower, em 1953,  até o final das administrações de Richard Nixon e  Gerald Ford, de quem foi Conselheiro de Segurança, e Secretario de Estado, respectivamente.

Nesse tempo, participou de conjunturas e decisões  internacionais que o transformaram numa das figuras mais importantes da política externa norte-americana,  da segunda metade do século XX.  Sobretudo durante as administrações de Nixon e Ford, quando deu uma contribuição decisiva para a  formulação da nova estratégia dos EUA, de resposta à crise econômica mundial dos anos 70,  e à derrota americana no Vietnã, em 1973.  Ele  participou diretamente das negociações de paz, no Vietnã, que levaram à assinatura dos Acordos de Paris, em 1973; e das negociações secretas com Chou en Lai e Mão Tse Tung , em 1971 e 1972, que levaram à reaproximação dos Estados Unidos com a China, e a reconfiguração completa da geopolítica mundial, antes e depois do fim da Guerra Fria.

Mas ao mesmo tempo, Kissinger tomou várias decisões “sangrentas”, que também foram cruciais, como foi o caso da ordem de bombardeio aéreo do Camboja e do Laos, sem a autorização do Congresso Americano, em 1969;  do apoio à guerra do Paquistão com a Índia, no território atual de Bangladeshi, em 1971; do apoio e financiamento ilegal da invasão do Chipre, pela Turquia, em 1974;  do apoio à invasão sul-africana de Angola, em 1975; e finalmente, também em 1975, do apoio à invasão do Timor Leste, pela Indonésia,  que se transformou numa ocupação de 24 anos, e custou 200 mil vidas.

Sobre a América do Sul, entretanto, Henry Kissinger inovou muito pouco, com relação à visão de Spykman, sobre o potencial de ameaça para os EUA,  dos países do Cone Sul. Já haviam passado três décadas da publicação da sua obra clássica, “America´s Strategy in World Politics”, em 1942,  mas Kissinger seguia considerando inaceitável o surgimento de um poder hemisférico alternativo nessa região, e ainda mais, se fosse da parte de um governo de esquerda, ou comunista. Razão pela qual, apoiou e sustentou os violentos golpes militares [2] que derrubaram os governos eleitos da Bolívia, em 1971, do Uruguai e do Chile, em 1973, e da Argentina, em 1976. E existem evidencias inapeláveis de que também teve injunção na  Operação Condor [3], que integrou os serviços de inteligência das Forças Armadas da Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, para seqüestrar, torturar e assassinar personalidades políticas de oposição, nesses países.

Nas décadas de 80 e 90, Henry Kissinger afastou-se da diplomacia direta, mas manteve uma influência pessoal e intelectual muito grande dentro do establishment  americano,  e entre as elites conservadoras sul-americanas. Em  2001 – uma década depois do fim da Guerra Fria e da “ameaça comunista” –  Kissinger publicou um livro [4] que marcou época, discutindo  o futuro geopolítico do mundo, e sintetizando os novos consensos da politica externa dos EUA, para o século XXI.  Chama atenção, de novo, nesse livro, sua posição com relação à América do Sul: para Kissinger, o continente sul-americano  segue sendo –  no novo século –  uma “zona de influência”  onde os EUA não podem admitir nenhum tipo de contestação à sua supremacia estratégica e econômica. Da mesma forma que no século anterior,  só que agora, a grande ameaça à supremacia americana já não vem  do comunismo, vem do “populismo autoritário”,  e do “nacionalismo” dos governos que rejeitam as propostas  norte-americanas de integração econômica,  do tipo ALCA, na década de 90, e do tipo Aliança do Pacífico, nos anos mais recentes.  Ou seja, desse ponto de vista dominante nos EUA, nesse momento, todos os governos da América do Sul representariam uma ameaça aos interesses norte-americanos, que deve ser contida e derrotada, com exceção da  Colômbia,  do Peru, e do Chile.

NOTAS

[1] J.L.Fiori, “Brasil, EUA e o Hemisfério Ocidental ” (1), Valor Econômico, 29/01/2014

[2] Na França, Henry Kissinger foi chamado a depor, pelo juiz Roger Lê Loire, no processo sobre a morte de cidadão franceses na Operação Condor, e sob a ditadura militar chilena. O mesmo ocorrendo na Espanha, com a investigação do juiz Juan Guzman, sobre a morte do jornalista americano Charles Horman, sob a ditadura chilena. E também na Argentina, onde Kissinger foi investigado  pelo juiz Rodolfo Canicoba, por envolvimento na Operação Condor, assim como em Washington , onde existe um processo na corte federal com acusação, contra Kissinger, de haver dado a ordem  para o assassinato do Gal Schneider, Comandante em Chefa das Forças Armadas Chilenas, em 1970.

[3] Vide Chistopher Hitchens, The Trial of Henry Kissinger(2003);  e também a resenha de Kenneth Maxwelll, do livro de Peter Kornbluh,  The Pinochet file: a Desclassified Dossier on Atrocity and Accountability, publicado na Revista Foreign Affairs, de Dezembro de 2003, sobre as relações de Kissinger com o regime de Augusto Pinochet, em particular com o assassinato do diplomata chileno Orlando Letelier, em Washington, 1976.

[4] H. Kissinger, 2001, Does America Need a Foreign Policy,  Simon&Schuster, New York

 

*http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Brasil-Estados-Unidos-e-o-hemisferio-ocidental-2-/30360

 

[P de Política]

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Os Críticos do Socialismo Olham Para a Venezuela e Dizem: “Nós Avisamos”. Mas Eles Estão Errados

Por Owen Jones*

Aqui está a narrativa da direita: o povo venezuelano saiu às ruas contra um regime que abusa dos direitos humanos. A resposta tem sido a repressão assassina, sendo cada morte uma prova contundente de uma autocracia monstruosa. As políticas econômicas do governo não serviram para nada além de ruína para a população, o que demonstra mais uma vez que o “socialismo” é um fracasso abjeto. Aqueles que desafiam esta narrativa, como eu, não são nada além de ingênuos, idiotas úteis, os equivalentes modernos dos fabianos que foram para a União Soviética de Stalin louvá-la como uma nova civilização.

Vamos dar algum contexto. Antes de Hugo Chávez ser eleito presidente em 1998, a Venezuela foi governada por várias administrações neoliberais. Em 1975, 15% dos venezuelanos viviam na pobreza. Duas décadas mais tarde, o número subiu para 45%. Quando venezuelanos protestaram contra o então presidente Pérez – que abandonou o neoliberalismo em 1989 -, todo o poder do estado foi jogada sobre eles no chamado “Caracazo”, um massacre da Praça de Tiananmen em que centenas de manifestantes foram abatidos.

Repelido pela elite política tradicional, os venezuelanos deram a Chávez uma vitória esmagadora em 1998. Na época, ele defendia a abordagem da Terceira Via defendida por Tony Blair, mas sua principal estratégia era usar a riqueza do petróleo para financiar programas sociais. As taxas de pobreza despencaram de 50% para cerca de 25%; a extrema pobreza foi reduzida em dois terços. Segundo a ONU, o que representa a segunda maior queda percentual de pobreza na América Latina.

O bastião tradicional do dogma neoliberal, o Banco Mundial, revela que, enquanto a renda per capita da Venezuela definhava abaixo da média do continente antes de Chávez chegar ao poder, ela é agora de US$13 120, mais alta do que Brasil ou Argentina, contra uma média de US$ 8 981. Apesar dos problemas econômicos recentes, a ONU revelou que a Venezuela teve a maior queda no número de pessoas em situação de pobreza na região em 2012.

Isso quer dizer que a Venezuela é uma espécie de paraíso? Não. A inflação está em mais de 50%. Sob o antecessor neoliberal de Chávez, Rafael Caldear, na década de 1990, ela superou os 100%. E, no entanto isso não foi apresentado como um fracasso do capitalismo de livre mercado.

A situação da lei e da ordem é simplesmente inaceitável, agravada por vários fatores: vizinhos em guerra civil na Colômbia; uma sociedade que está repleta de armas; e uma força policial ineficaz e corrupta. O apoio do governo a tiranias como a da Síria e a da Líbia não deve ser esquecido, mas dado o apoio ocidental a ditaduras infames como a da Arábia Saudita – e emprego lucrativo de Tony Blair na ditadura do Cazaquistão -, não vamos exagerar na dose de hipocrisia.

Mas dê uma olhada no comportamento da oposição. Em 2002, Chávez foi derrubado por um golpe apoiado pelo Ocidente, vigorosamente incitado por uma mídia privada que faz Fox News parecer liberal. E no entanto um levante popular devolveu o governo eleito ao poder. Imagine se o nosso governo eleito fosse derrubado por uma junta, matando muitas pessoas inocentes no processo, e a coisa toda fosse aplaudida por ITN e Sky News. Qual seria o resultado?

Quanto às credenciais democráticas do governo, quando Chávez foi eleito, em 1998, recebeu 3,7 milhões de votos contra 2,6 milhões da oposição. Em 2013, seu sucessor, Nicolás Maduro, recebeu 7,6 milhões de votos, contra 7,4 milhões da oposição. Os observadores internacionais têm repetidamente declarado que as eleições são livres. Em 2012, o ex- presidente dos EUA Jimmy Carter elogiou o processo eleitoral da Venezuela, dizendo ser “o melhor do mundo”. Quando Chávez perdeu um referendo constitucional em 2007, ele aceitou.

A Venezuela é um dos países mais polarizados do mundo. Negociações devem acontecer, os mortos precisam de justiça, o governo deve garantir as liberdades e a desordem violenta precisa acabar. Mas uma coisa é clara. Aqueles que usam os problemas da Venezuela para ganhar pontos políticos não têm nenhum interesse na verdade.

* Independent

Via: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/os-criticos-do-socialismo-olham-para-a-venezuela-e-dizem-nos-avisamos-mas-eles-estao-errados/

 

[P de Política]

Charge de Carlos Latuff

Charge de Vicman

Fonte: http://fuckyeahmarxismleninism.tumblr.com/

[P de Política]

A Guerra Suja da Syngenta

Contra o Cientista Tyrone Hayes

Por Heloisa Vilela*

O trabalho de pesquisa do cientista Tyrone Hayes mais parece um roteiro pronto para um diretor como Martin Scorsese.

A jornalista Rachel Aviv, da revista New Yorker, contou a saga de Hayes em nome da Ciência.

Uma pesquisa que bateu de frente com a Syngenta, a gigante suíça que fabrica pesticidas e vende sementes.

Em 1998 Tyrone Hayes já trabalhava no laboratório de biologia da Universidade da Califórnia em Berkeley quando foi convidado, pela Syngenta, para fazer uma pesquisa a respeito do herbicida atrazina, fabricado pela Syngenta. Hayes topou. Ele tinha trinta e um anos e já havia publicado vários trabalhos sobre o sistema endocrinológico dos anfíbios.

Os dois lados, com certeza, se arrependeram da parceria. Hayes descobriu que o atrazina atrapalhava, ou até impedia o desenvolvimento sexual dos sapos. A empresa não gostou do resultado, tentou impedir a publicação do estudo, tentou comprar os dados para mantê-los em segredo e as relações da empresa com o cientista foram rompidas, definitivamente, no ano 2000.

Mas Hayes não é do tipo que trabalha apenas pelo dinheiro. O que ele percebeu na pesquisa atiçou a curiosidade do cientista e ele continuou estudando os efeitos do atrazina sobre os anfíbios por conta própria.

O artigo de dez páginas da revista New Yorker conta como a empresa estruturou e levou a cabo uma ampla campanha de difamação de Hayes com o objetivo de destruir a reputação do cientista.

Estudou todos os aspectos profissionais e pessoais da vida dele para melhor explorar qualquer ponto fraco. Lembra demais a descrição de táticas descritas em detalhes pelo jornalista Rubens Valente no livro Operação Banqueiro.

Como já se desconfiava por aqui, as grandes empresas farmacêuticas e do agronegócio contratam cientistas e pesquisadores para que repitam informações que interessam às empresas. E muitos se prestam, sem pudor, a esse papel.

Pior: o artigo da New Yorker relata as manobras adotadas pela empresa para comprar, também, o apoio dos responsáveis pela aprovação de drogas no mercado norte-americano.

Os riscos que o herbicida atrazina oferece à saúde foram considerados sérios o suficiente para que o produto fosse banido na Europa. Nos Estados Unidos, continua sendo usado em cerca de metade da produção de milho do país.

No Brasil, também é aplicado à vontade nas plantações.

A perseguição a Tyrone Hayes foi tão intensa que ele passou a ser visto, pelos colegas, como um paranoico. Achava que tinha a conta de e-mail monitorada, que era perseguido, que não podia fazer palestras sem a presença de agentes da Syngenta que tentavam intimidá-lo e criar dúvidas a respeito das conclusões que ele apresentava.

Para se prevenir, ele passou a copiar os dados da pesquisa e enviar para a casa dos pais. Usou o e-mail como forma de confundir o adversário, com a ajuda dos alunos que trabalhavam no laboratório com ele. Recentemente, ficou provado que Hayes não era nada paranoico e que a conspiração existia de fato.

Um dos únicos biólogos afro-americanos de destaque do país, Tyrone Hayes era considerado um dos melhores professores de Berkeley e uma das grandes promessas do meio acadêmico e científico.

Ao longo dos últimos 14 anos de guerra aberta contra a Syngenta, ele acabou perdendo o laboratório em Berkeley. Mas de certa forma, foi vingado.

A Syngenta foi processada em uma ação coletiva por 23 municípios do meio-oeste dos Estados Unidos. Eles acusaram a empresa de esconder o perigos reais do atrazina para a saúde.

Por conta do processo, jornalistas norte-americanos tiveram acesso a documentos internos, memorandos e e-mails da empresa. O trabalho de Tyrone Hayes foi a base científica usada pelos advogados dos municípios.

Desde que passou a se dedicar ao estudo dos efeitos do atrazina sobre animais e até sobre humanos, Hayes angariou seguidores.

Outros cientistas seguiram a mesma linha e ampliaram as descobertas do pioneiro na área. E hoje já existem resultados que falam em defeitos de nascimento em humanos. Enquanto os pesquisadores acumularam dados contra o herbicida, a empresa se ocupou em colher informações sobre Hayes.

Em entrevista ao programa DemocracyNow! da jornalista Amy Goodman, Tyrone Hayes contou que as ameaças não paravam na esfera científica.

Ele disse que um representante da empresa o abordou antes de uma palestra e sussurrou que ele podia ser linchado, que ía mandar uns rapazes para mostrar a Hayes como é ser gay e chegaram até a ameaçar a segurança da mulher e da filha dele.

Enquanto isso, vários trabalhos foram apresentados à EPA (Agência de Proteção Ambiental) a respeito dos perigos do atrazina para a saúde e da contaminação do solo e da água nos locais onde ele é usado.

Dados científicos que as autoridades norte-americanas refutaram duas vezes: mantiveram a licença do produto, sem restrições.

Depois também veio à tona que alguns membros do comitê da EPA, que tomou a decisão favorável ao atrazina, tinham relações com a Syngenta.

Este ano, o herbicida, o segundo mais usado nos Estados Unidos, será avaliado novamente. Quem sabe qual será o resultado da análise desta vez…

PS do Viomundo: A pesquisa do cientista demonstrou que o herbicida provoca a mudança de sexo em sapos; na excelente entrevista que deu ao DemocracyNow!, ele estranha que os conglomerados produzam tanto substâncias cancerígenas quanto contra o câncer. Por que $erá?

*http://www.viomundo.com.br/denuncias/a-guerra-suja-da-syngenta-contra-o-cientista-tyrone-hayes.html

[P de Política]

7 perguntas e respostas sobre o golpe de estado na Ucrânia 
Desde sábado a polícia e o governo de Yanukovich desapareceram de Kiev e a cidade ficou controlada pelos chamados “Comités Populares de Autodefesa”. O blogger do publico.es Alberto Sicilia continua a relatar o que vê na capital ucraniana.

Espera lá, podes lembrar-me qual era a situação em Kiev antes da fuga de Yanukovich?

Resumindo bastante, foi isto que se passou em Kiev:

1) Em novembro, dezenas de milhares de manifestantes tomam o centro de Kiev e instalam um acampamento rodeado com uma fortificação de barricadas.

2) Entre 18 e 20 de fevereiro ocorrem enfrentamentos duríssimos entre polícia e manifestantes. Pelo menos 86 pessoas morrem na praça da Independência e nas ruas adjacentes.

3) A 21 de fevereiro é anunciado um acordo entre o governo e a oposição para acabar com o protesto.

Se quiserem compreender este processo mais em pormenor, podem ler o post “¿Qué pasa en Ucrania?” e as “6 notas para compreender o que acontece na Ucrânia” (que escrevi após os confrontos de 20 de fevereiro).

Se havia um acordo entre governo e oposição, porque desapareceu Yanukovich?

Porque os manifestantes da praça não aceitaram o acordo.

Deixem-me contar-vos uma cena que testemunhámos. Na noite de 21 de fevereiro, os representantes da oposição vieram à praça explicar aos manifestantes o acordo a que tinham chegado com Yanukovich. Quando subiram ao palco e tomaram o microfone, as dezenas de milhares de pessoas que abarrotavam a praça explodiram num grito: “traidores, traidores, traidores”.

Todos os manifestantes com que falámos naquele dia diziam o mesmo: “Yanukovich tem as mãos manchadas com o sangue dos nossos irmãos. Já é demasiado tarde para negociar. Tem de ir embora”.

No dia seguinte a polícia tinha desaparecido de Kiev e Yanukovich estava com paradeiro desconhecido.

E como pode o Parlamento continuar a funcionar? 

O perímetro exterior do Parlamento está controlado pelos Comités Populares de Autodefesa (tal como o Palácio Presidencial, o Banco Central e todos os ministérios e edifícios oficiais), mas continua em funcionamento.

O Parlamento aprovou no sábado – por 328 votos contra zero – a destituição de Yanukovich, que já não estava em Kiev. (Nota: o parlamento tem 450 deputados).

Mas a legitimidade dessa votação parece bastante duvidosa. Muitos parlamentares do partido de Yanukovich fugiram de Kiev e não estavam presentes. Os que ficaram votaram contra o presidente, mas mudaram as suas convicções tão de repente? Mais parece que toda a gente queria salvar o seu rabo.

Yanukovich era um presidente eleito democraticamente?

Sim, Yanukovich foi eleito democraticamente.

A Ucrânia tem um regime presidencialista: há eleições para eleger o presidente do governo e outras para eleger o parlamento.

Yanukovich ganhou as últimas eleições presidenciais em 2010. Obteve um milhão de votos a mais que Iulia Timochenko.

E nas últimas eleições para o parlamento em 2012, o partido de Yanukovich obteve 210 deputados. Junto com os 32 deputados do Partido Comunista e 10 independentes tinha a maioria absoluta.

Yanukovich era um presidente legítimo?

Os manifestantes não discutem que Yanukovich foi eleito democraticamente. O que discutem é a sua legitimidade.

Alguns exemplos que argumentam: Yanukovich assinou leis contra as manifestações e concentrações de rua, os casos de corrupção no seu governo eram numerosos e o poder judicial estava sob o seu controlo.

Olha lá, e é mesmo verdade que os manifestantes são todos nazis?

Há muitos grupos de ultradireita radical entre os manifestantes. (Podem ver aqui as fotos que lhes tirei). São eles que tratam da organização da “segurança” do acampamento e dos edifícios ocupados.

O seu ideário político contém unicamente dois conceitos: Deus e Pátria.

Estes grupos são também os que recebem maior atenção mediática. A razão é simples: nos confrontos com a polícia são eles que estão na primeira linha. Na maior parte das fotografias que terão visto sobre a batalha na praça, eles são a parte visível dos manifestantes.

Mas, depois de aqui passar uma semana, posso confirmar que estes neonazis não constituem a maioria dos manifestantes.

Aqui há muita gente cansada da corrupção, da falta de oportunidades profissionais, etc. e que não confiam em nenhum político, nem nos da oposição.

Interessa-lhes bastante pouco que lhes falem de geopolítica, a União Europeia, EUA ou Rússia. O que querem é um país onde possam ter um trabalho e um salário digno.

E agora o que vai acontecer?

Como vos contava neste post, a Ucrânia é um país profundamente dividido entre o oeste (mais nacionalista) e o leste e a Crimeia (onde grande parte da população fala russo).

Neste mapa estão os resultados das últimas eleições para o parlamento em 2012. As regiões onde ganhou Yanukovich estão a azul e a rosa as que ganhou Timochenko. A divisão é incrivelmente nítida.

Ontem o Parlamento Regional da Crimeia aprovou uma lei para deixar de pagar impostos a Kiev.

Conseguirá alguém manter o país unido? Caminha a Ucrânia para a secessão? As próximas horas serão decisivas.

Nota: continuo por Kiev e durante todo o dia vou pondo no Twitter as situações que vou encontrando. 


Artigo publicado no blogue Principia Marsupia. Tradução de Luís Branco. 

Via: http://www.esquerda.net/artigo/7-perguntas-e-respostas-sobre-o-golpe-de-estado-na-ucr%C3%A2nia/31488

[P de Política]

Arquivo

Venezuela: um golpe lento em andamento

A facção mais direitista da oposição venezuelana, ligada aos EUA e liderada pelo ex-golpista Leopoldo López, aposta agora em um golpe de Estado lento.

Por Ignacio Ramonet

Nos últimos meses houve, na Venezuela, quatro eleições decisivas: duas presidenciais, para governadores e municipais. Todas vencidas pelo bloco da Revolução Bolivariana. Nenhum resultado foi impugnado pelas missões internacional de observação eleitoral. A votação mais recente aconteceu há apenas dois meses. E terminou com uma clara vitória – 11,5% de diferença – dos chavistas. Desde que Hugo Chávez assumiu a presidência em 1999, todos os resultados mostram que, sociologicamente, o apoio à Revolução Bolivariana é majoritário.

Na América Latina, Chávez foi o primeiro líder progressista – desde Salvador Allende – a apostar na via democrática para chegar ao poder. Não é possível compreender o que é o chavismo se não se considerar seu caráter profundamente democrático. A aposta de Chávez, ontem, e a de Nicolás Maduro, hoje, é o “socialismo democrático”. Uma democracia não só eleitoral. Também econômica, social, cultural… Em 15 anos, o chavismo conferiu a milhões de pessoas que, por serem pobres, não tinham documentos de identidade, o status de cidadão e permitiu que votassem. Dedicou mais de 42% do orçamento do Estado aos investimentos sociais. Tirou cinco milhões de pessoas da pobreza. Reduziu a mortalidade infantil. Erradicou o analfabetismo. Multiplicou por cinco o número de professores nas escolas públicas (de 65 mil a 350 mil). Criou 11 novas universidades. Concedeu aposentadorias a todos os trabalhadores (mesmo os informais). Isso explica o apoio popular que Chávez sempre teve e as recentes vitórias eleitorais de Nicolás Maduro.

Por que, então, os protestos? Não nos esqueçamos de que a Venezuela chavista –por possuir as maiores reservas mundiais de hidrocarbonetos– sempre foi (e será) objeto de tentativas de desestabilização e de campanhas midiáticas sistematicamente hostis.

Apesar de ter se unido sob a liderança de Henrique Capriles, a oposição perdeu quatro eleições consecutivas. Diante desse fracasso, sua facção mais direitista, ligada aos Estados Unidos e liderada pelo ex-golpista Leopoldo López, aposta agora em um “golpe de Estado lento”. E aplica as técnicas do manual de Gene Sharp  [1].

Na primeira fase: 1) Criar descontentamento ao tirar massivamente produtos de primeira necessidade do mercado; 2) Tornar crédula a “incompetência” do governo; 3) Fomentar manifestações de descontentamento; e 4) Intensificar a perseguição midiática.

Desde 12 de fevereiro, os extremistas entraram na segunda fase, insurrecional: 1) Utilizar o descontentamento de um grupo social (uma minoria de estudantes  [2]) para provocar protestos violentos e prisões; 2) Montar “manifestações de solidariedade” aos detidos; 3) Introduzir atiradores entre os manifestantes com a missão de provocar vítimas de ambos os lados (a análise balística determinou que os disparos que mataram, em 12 de fevereiro, em Caracas, o estudante Bassil Alejandro Dacosta e o chavista Juan Montoya, foram feitos com a mesma arma, uma Glock calibre 9 mm). 4. Intensificar os protestos e seu nível de violência; 5) Aumentar a ofensiva da mídia, com apoio das redes sociais, contra a “repressão” do governo; 6) Conseguir que as ‘grandes instituições humanitárias’ condenem o governo pelo “uso desmedido da violência”; 7. Conseguir que “governos amigos” façam “advertências” às autoridades locais.

E é nesta etapa que estamos.

A democracia venezuelana está, então, ameaçada? Sim, ameaçada, uma vez mais, pelos golpistas de sempre.

(*) Diretor do “Le Monde diplomatique” em espanhol. Recentemente publicou “Hugo Chávez, Mi primera vida”.

NOTAS

[1] Gene Sharp, From Dictatorship to Democracy : Conceptual Framework for Liberation, Albert Einstein Institution, Boston, 1993. 

 [2] A uma pesquisa recente, dez mil estudantes entre 15 e 29 anos se declararam satisfeitos com seus estudos (Segunda Pesquisa Nacional da Juventudade, Caracas, 13 de novembro de 2013).

Tradução: Daniella Cambaúva

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Venezuela-um-golpe-lento-em-andamento/6/30337

[ P de Política ]
Robert Mugabe
Robert Mugabe, 90 Anos

Milhares de pessoas compareceram no domingo para desejar feliz aniversário ao presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, que jogou 90 balões no ar para marcar seu 90 º ano.

“Eu me sinto jovem e enérgico como um menino de nove anos”, disse Mugabe, antes de cortar o bolo.

Em um discurso que durou mais de uma hora, Mugabe disse à multidão que a vitória eleitoral de seu partido Zanu-PF no ano passado tinha confundido seus críticos no Ocidente. “Esses nossos adversários, que nos impõem sanções estão confusos”, disse.

“A verdade é que o Zanu-PF ganhou, o Zanu-PF teve apoio. O Zanu-PF tinha a mensagem, teve a história, e tem eleitores.”

“Às vezes eu penso como tenho sobrevivido ao longo dos anos, escapado da morte, e visto muitos dos meus amigos e parentes morrerem. Entristece-me às vezes, mas ao mesmo tempo fico feliz por estar com 90, disse Mugabe à multidão.

[ P de Política ]
Thomas Naylor Wrapped in Flag
Thomas Naylor com a bandeira de sua sonhada república
“Os EUA tem que se desintegrar como a União Soviética”
Thomas Naylor pregou apaixonadamente
a independência do Estado de Vermont.

Morto aos 76 anos no final do ano passado, Thomas Naylor foi um dos mais originais e provocativos intelectuais americanos de seu tempo. Professor emérito de economia da Universidade Duke, autor de trinta livros e libertário por inteiro, Naylor dedicou seus últimos anos à causa da separação do estado em que vivia, Vermont, da federação americana. Ele via nos Estados Unidos semelhanças notáveis com a tirania soviética, encerrada com a desintegração do império russo

A causa de Naylor foi brilhantemente defendida no Manifesto Vermont, que o Diário se orgulha em compartilhar com o público.

Um espectro ronda os Estados Unidos,  o tecnofascismo , um sistema em que indivíduos livres permitem ao governo e às grandes empresas controlar  suas vidas através do dinheiro, dos mercados, da mídia e da  tecnologia. O resultado disso tudo é a perda de vontade política, de liberdades civis e da cultura tradicional.

Nós, o povo de Vermont,  acreditamos  que os Estados Unidos da América se tornaram muito grandes, muito poderosos, muito intrusivos, muito materialistas, muito high tech, muito globalizados, muito imperialistas, muito violentos, muito antidemocráticos e muito ineficazes no atendimento às necessidades dos cidadãos e das pequenas comunidades. Eleições presidenciais e parlamentares são compradas e vendidas pelo maior lance. Governos estaduais e municipais também assumem pouca responsabilidade para a solução de seus problemas  sociais, econômicos e políticos, de bom grado abdicando de suas tarefas vitais.

Nossa nação sofre de megalomania – uma obsessão com poder pessoal, nfluência,  grandeza, riqueza.  Vivemos sob o culto obsessivo-compulsivo de tudo o que é grande – grande governo,  grandes cidades,  grandes negócios,  grandes escolas, grandes armas,  grandes redes de computadores, grande ciência e grandes, grandes partidos políticos.

Megaempresas, que não prestam contas a ninguém, nos dizem o que comprar, quanto pagar e quando devemos substituir o que compramos.Também nos dizem onde trabalhar, quanto receberemos, e quais serão nossas condições de trabalho .

O World Trade Center foi o santuário da globalização, onde os fiéis prestaram homenagem ao sistema internacional de produção em massa, marketing  de massa, distribuição de massa, consumo de massa, megainstituições financeiras e sistema global de telecomunicações — um universo que funcionaria melhor se todos nós fôssemos o mesmo. Mas muitas vezes a globalização foi conseguida através de coerção, do coletivismo, da exploração, do monopólio e do poderio militar americano.

A política externa americana é baseada na premissa da infabilidade do poder político, econômico, tecnológico  e militar. Nossa história difere pouco da de qualquer outro império. Ela está enraizada no imperialismo diante dos nativos americanos, dos afroamericanos e das nações que se colocam em nosso caminho. Desde o fim da II Guerra Mundial, os EUA intervieram nos assuntos de 22 países, e nenhuma destas intervenções  foi precedida por uma declaração de guerra.

Como a guerra contra o terrorismo niilista se expande, é apenas uma questão de tempo antes de o Pentágono restabelecer o serviço militar obrigatório. Quantos habitantes de Vermont estão preparados para morrer ou sacrificar suas crianças para fazer o  mundo seguro para o McDonalds, a Wal-Mart, os  automóveis beberrões de gasolina, Bill Gates  e o resto dos 400 americanos mais ricos da Forbes?

Os EUA correm o risco de exaustão imperial, em que a soma das nossas interferências globais  excede o poder de defendê-las  todas simultaneamente.   Como outros impérios – o romano, o otomano, o espanhol, o napoleônico, o britânico e o soviético –, o império americano pode vir abaixo por uma doença interna e não por uma ameaça externa.

Naylor

Pequenos ajustes pouco servirão para nosso país aleijado. Há apenas uma solução: a dissolução pacífica dos Estados Unidos. Muitos habitantes de Vermond vêem o American Way of Life com um olhar de desprezo —  afluência, tecnomania, culto corporativo, a militarização do espaço, bajulação  dos ricos e poderosos. Eles estão desiludidos com a arrogância e a concupiscência do país, e anseiam por uma vida mais simples, menos materialista,  mais gratificante.

Vermont pode cuidar de si mesmo. O estado não tem bases militares, nem grandes cidades,  nem grandes instalações governamentais,  e praticamente não tem indústrias estratégicas.  Como Noruega, Dinamarca, Suécia e Suíça, Vermont  não é uma ameaça a ninguém. Por que alguém iria invadir Vermont? O que fariam com Vermont ?

Vermont tem pouco em comum com Boston, Nova York, Houston,  Los Angeles ou Chicago. Por que os moradores do estado deveriam ser taxados para pagar a proteção militar de Nova York, o epicentro do capitalismo global e ganância corporativa, ou Washington, a insípida capital do Império ? Como é que Vermondt pode evitar uma guerra global  entre os que têm e os que não têm?

Não há soluções rápidas para os nossos problemas de grandeza e de falta de conexão.  Capacitar, alimentar e apoiar pequenas comunidades é um processo lento e árduo.

Thomas Jefferson disse na Declaração de Independência: “Sempre quequalquer  forma de governo se tornar destrutiva, é direito do povo alterá-lo ou aboli-lo, e instituir um novo governo.”

Chegou a hora de todos os cidadãos de Vermont pacificamente se rebelarem  contra o Império  para (1) recuperar o controle de suas vidas que foi tomado pelo grande governo,  pelos grandes negócios, pelas grandes cidades,  pelas grandes escolas e pelas  grandes redes de computadores; (2) reaprender a cuidar de si mesmos num ambiente descentralizado, menor, desmilitarizado e humanizado;  e (3) aprender a ajudar os outros a cuidar de si para que todos nós nos tornemos menos dependente de um grande negócio, de um grande governo e de uma grande  tecnologia.

Jefferson

Nós, os cidadãos de Vermont,  pacificamente e respeitosamente pedimos aos  deputados estaduais democraticamente eleitos para considerar uma e apenas uma questão – a retirada de Vermont dos Estados Unidos da América e o retorno a sua condição de república independente como foi até1791. Uma vez que a declaração de secessão seja aprovada por uma maioria de dois terços dos deputados, o governador de Vermont terá poderes para negociar um acordo de separação com o secretário de Estado.

No mundo do terrorismo global,  qualquer estado pertencente aos EUA está exposto aorisco de ataque terrorista, bem como ao recrutamento militar de sua juventude. Secessão já não é apenas uma causa abstrata libertária, mas um caminho para a sobrevivência. Chegou a hora de enfrentar a realidade de desunir ou morrer.

Fonte: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/os-estados-unidos-tem-que-se-desintegrar-como-a-uniao-sovietica/

[ P de Política ]

Caracas, Venezuela: Trabalhadores marcham em massa contra o fascismo, em defesa da revolução bolivariana e do Presidente legitimamente eleito Nicolas Maduro, no último dia 18 de fevereiro de 2014.

Fotos de Tim Anderson

[ P de Política ]
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Por Que a Globo é Contra o Governo Venezuelano
Por Paulo Nogueira 

Noto, nas redes sociais, revolta contra a maneira como a Globo vem cobrindo a crise na Venezuela.

A Globo ataca, ataca e ainda ataca o governo eleito.

Não existe razão para surpresa. Inimaginável seria a Globo apoiar qualquer tipo de causa popular.

O problema começou com Chávez.

Chávez e Globo tinham um história de beligerância explícita. Ambos defendem interesses antagônicos.

Se estivéssemos na França de 1789, a Globo defenderia a Bastilha e Chávez seria um jacobino. Em vez de recitar Bolívar, ele repetiria Rousseau.

Chávez cometeu um crime mortal para a Globo: não renovou a concessão de uma emissora que tramara sua queda. Veja: um grupo empresarial usara algo que ganhara do Estado — a concessão para um canal de tevê — para tentar derrubar o presidente que o povo elegera. Chávez fez o que tinha que fazer. E o que ele fez é o maior pesadelo das Organizações Globo: a ruptura da concessão.

Há uma cena clássica que registra a hostilidade entre Chávez e a Globo. Foi, felizmente, registrada pelas câmaras. É um documento histórico. Você pode ver em:

 http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=JUsVSargH-Y

Chávez está dando uma coletiva, e um repórter ganha a palavra para uma pergunta. É um brasileiro, e trabalha na Globo. Fala num espanhol decente, e depois de se apresentar interroga Chávez sobre supostas agressões à liberdade de expressão.

Toca, especificamente, numa multa aplicada a um jornalista pela justiça venezuelana.

Chávez ouve pacientemente. No meio da longa questão, ele indaga se o jornalista já concluiu a pergunta. E depois diz: “Sei que você veio aqui com uma missão e, se não a cumprir, vai ser demitido. Não adianta eu sugerir a você que visite determinados lugares ou fale com certas pessoas, porque você vai ter que fazer o que esperam que você faça.”

Quem conhece os bastidores do jornalismo sabe que quando um repórter da Globo vai para a Venezuela a pauta já está pronta. É só preencher os brancos. Não existe uma genuína investigação. A condenação da reportagem já está estabelecida antes que a pauta seja passada ao repórter.

Lamento se isso desilude os ingênuos que acreditam em objetividade jornalística brasileira, mas a vida é o que é. Na BBC, o repórter poderia de fato narrar o que viu. Na Globo, vai confirmar o que o seu chefe lhe disse. É uma viagem, a rigor, inútil: serve apenas para chancelar, aspas, a paulada que será dada.

“Como cidadão latino-americano, você é bem-vindo”, diz Chávez ao repórter da Globo. “Como representante da Globo, não.”

Chávez lembrou coisas óbvias: o quanto a Globo esteve envolvida em coisas nocivas ao povo brasileiro, como a derrubada de João Goulart e a instalação de uma ditadura militar em 1964.

Essa ditadura, patrocinada pela Globo, tornou o Brasil um dos campeões mundiais em iniquidade social. Conquistas trabalhistas foram pilhadas, como a estabilidade no emprego, e os trabalhadores ficaram impedidos de reagir porque foi proibida pelos ditadores sua única arma – a greve.

Não vou falar na destruição do ensino público de qualidade pela ditadura, uma obra que ceifou uma das mais eficientes escadas de mobilidade social. Também não vou falar nas torturas e assassinatos dos que se insurgiram contra o golpe.

Chávez, na coletiva, acusou a Globo de servir aos interesses americanos.

Aí tenho para mim que ele errou parcialmente.

A Globo, ao longo de sua história, colocou sempre à frente não os interesses americanos – mas os seus próprios, confundidos, na retórica, com o interesse público, aspas.

Tem sido bem sucedida nisso.

O Brasil tem milhões de favelados, milhões de pessoas atiradas na pobreza porque lhes foi negado ensino digno, milhões de crianças nascidas e crescidas sem coisas como água encanada.

Mas a família Marinho, antes com Roberto Marinho e agora com seus três filhos, está no topo da lista de bilionários do Brasil.

Roberto Marinho se dizia “condenado ao sucesso”. O que ele não disse é que para que isso ocorresse uma quantidade vergonhosa de brasileiros seria condenada à miséria.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-a-globo-e-contra-o-governo-venezuelano/

[ P de Política ]

MALCOLM X PRESENTE

May 19, 1925 – February 21, 1965

[ P de Política ]

Aqui se inicia nova seção no blog Vinte Cultura & Sociedade, dedicada à difusão de textos relacionados ao fazer político na sociedade brasileira e global, e suas implicações no cotidiano.

Ilustra imagem de garota em roupas tradicionais attire. Krobo, Ghana

O Reacionário Está Na Moda

Por Marcelo Semer*

Não foi surpresa que logo após o comentário em que deu status de legítima defesa a justiceiros, a jornalista Rachel Sheherazade tenha tido a oportunidade de escrever artigo no espaço mais nobre de um grande jornal.

Foi vociferando a altos brados, contra todas as formas de ‘esquerdismo’, sem sutilezas nem decoros, que Reinaldo Azevedo ganhou o status de colunista nesse mesmo diário.

Lobão foi guindado a uma revista semanal depois que minimizou a tortura dos anos de chumbo, desprezando quem se disse vítima por ter tido “umas unhazinhas arrancadas”.

Diogo Mainardi pulou da revista para a TV a cabo, apelidando semanalmente o presidente de anta.

Até humoristas que se orgulham de ser politicamente incorretos, sobretudo com o mais vulnerável, vêm emplacando programas próprios na telinha.

Se alguém ainda tinha dúvidas, elas estão sendo dissipadas: o reacionário está definitivamente na moda.

Não há veículo da grande imprensa que não tenha hoje um ou mais comentaristas dispostos a tirar o expectador da ‘zona de conforto’, e destilar o mais profundo catastrofismo, enquanto estimulam a ira e desprezam a dignidade humana em nome de uma hipotética Constituição de um único artigo: a liberdade de expressão absoluta.

Tamanha reação do conservadorismo extremo, pelos novos ícones da classe média, poderia indicar que, de alguma forma, o país anda no caminho certo.

Nenhuma redução de desigualdade, seja ela econômica, social, racial, de gênero ou orientação sexual, passa incólume à reação. Tradição e privilégios jamais se rendem sem resistência.

Mas há dois componentes neste jogo que complicam a equação e nos aproximam da intolerância.

Primeiro, o fato de que o catastrofismo sem limites, o derrotismo por princípio e o esforço de detonar o Estado de todas as formas e sob todas as forças, produz uma inequívoca sensação de que estamos sempre à beira do abismo. Mesmo quando evoluímos.

A estabilidade política é desprezada, sufocada pela ideia que resume toda política em corrupção – mas que, inexplicavelmente, considera o corruptor apenas uma vítima do sistema que patrocina.

Todo mal reside nos políticos, nos partidos, enfim no Estado – nunca no mercado ou nos mercadores.

A maior autonomia dos órgãos de investigação e a independência dos operadores do direito, somadas ao fim da censura, têm ligação direta com esse mal-estar da liberdade: a democracia não é pior porque produz mais monstros, apenas mais incômoda porque é impossível escondê-los.

O derrotismo desproporcional, que remete toda e qualquer política à vala comum, acaba por conferir a violência foros de alternativa.

A criminalização da política é, assim, uma poderosa vitamina da intolerância. E seus responsáveis são justamente aqueles que mais bradam contra a violência que ao mesmo tempo estimulam.

Mas não é só.

A política também tem perdido seu prestígio por estar sendo sepultada pelo fator eleitoral.

O pragmatismo sem freios destroça ideologias, pensamentos e valores e é um consistente obstáculo ao avanço civilizatório. Quando o poder é mais relevante que a política, os fins sempre servem para justificar meios.

A rendição à pauta religiosa, de governos e oposições, é um sintomático reflexo desse excesso de pragmatismo que comprime o espaço republicano.

A submissão rala à pauta punitiva, que ameaça inserir o país na lógica de um Estado policial, é outro indício. Como o instrumento penal é sempre seletivo, mais repressão significará mais desigualdade.

Esvaziar a política nunca é uma tarefa prudente, menos ainda quando o canto da sereia do reacionarismo está cada vez mais afinado.

Há 50 anos, nossa democracia foi estuprada por militares que deram um golpe, civis que o financiaram e reacionários que o justificaram, inclusive e fortemente na imprensa.

Que a efeméride, ao menos, nos mantenha vigilantes.

PS do Viomundo: Na verdade, é muito mais grave que uma simples “moda”. Trata-se da expressão de um salvacionismo diretamente ligado à ameaça da perda de status provocada pela ascensão social no Brasil, que ameaça a tradicional hierarquia; as elites controladoras da economia, incapazes de traduzir seus desejos em políticas públicas por falta de votos, insuflam o discurso contra “tudo o que está aí” pelo mesmo motivo. A propaganda também serve aos desejos dos Estados Unidos de retomarem o controle da América Latina, para o que contam com seus laços políticos, econômicos e midiáticos com a elite brasileira. É sobre este tripé que se espalha nas redes sociais um anticomunismo tosco, completamente dissociado da realidade, que acredita em espiões cubanos no Mais Médicos e condena o Bolsa Família como compra de votos. Ouçam o comentário de Arnaldo Jabor em rede nacional de rádio (no topo) como exemplo do “vale tudo”.

*em seu blog

Ilustra o texto imagem do reacionário elevado à décima potência, o “pastor” Marcus Feliciano, em corpo e feições do brasileiro médio que, no entender deste blog, é sim reacionário por formação e fé.

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