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Caó se vai, sua lei e sua luta ficam
Por Fernando Brito

Outro dia, lembrei dele aqui, ao falar da reconquista do Sindicato dos Jornalistas, em 1978, aos pelegos que dele tomaram conta durante a ditadura. Hoje, o tempo nos levou, aos 76 anos, Carlos Alberto de Oliveira Santos, para sempre Caó, como através dos anos seguirá sendo o nome da Lei que elaborou e fez aprovar, tornando o racismo crime – crime tão praticado! – em nosso país.

É, jovens, não era não, e não faz tanto tempo assim, apenas o tempo de uma geração. Antes, por três décadas, havia apenas a Lei Afonso Arinos, que proibia a discriminação, no comércio, por preconceito racial. Que, ao que eu me lembre, nunca levou ninguém à cadeia por isso. A lei Caó foi o que deu efetividade, e ampliou muito, aquele texto vindo do segundo governo Vargas.

Antes, na Constituinte, tinha feito do racismo um crime inafiançável e imprescritível.

Das agitadas assembleias do Teatro Casa Grande, onde se organizava – mas nem tanto – a oposição sindical, voltei a conviver com ele no milagre de 82, onde a campanha de Leonel Brizola ao governo do Estado fez o milagre de eleger jornalistas, com ideias e sem dinheiro, como ele e Maurício Azêdo contra os afilhados da máquina de Chagas Freitas, que dominava o MDB-PMDB.

Baiano, atrevido, empertigado, até fisicamente Caó era o contrário do estereótipo do negro submisso. Por incrível que pareça hoje, “movimento negro” era algo ainda maldito nos anos 70 e 80, e só o PDT tinha, então, um espaço para ele em sua estrutura. Caó sempre foi um de seus líderes, e, duas vezes Secretário do Trabalho dos governos de Leonel Brizola, seguiu dando sua contribuição à luta dos trabalhadores.

Há muitos anos não o via, mas a notícia de sua morte é um atropelamento emocional. Mas é dor que se cura, assim que saír à rua e olhar homens e mulheres negras andando de cabeça erguida, como ele andava.

Os jornais trarão notinhas falando se seus 76 anos, de sua trajetória profissional brilhante nas redaçoes, das perseguições que o trouxeram da Bahia ao Rio. Eu prefiro ficar no significado das lutas que os tempos difíceis e a dignidade dos negros e negras brasileiros o obrigaram a ter e transformaram o Betinho, seu apelido de boa-praça que era nos seus tempos de UNE, no Caó altivo que precisou ser.

http://www.tijolaco.com.br/blog/cao-se-vai-sua-lei-e-sua-luta-ficam/

 

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Morre Alberto Caó, autor da lei que tornou o racismo crime inafiançável

Faleceu no domingo 4, aos 76 anos, o jornalista, advogado, militante do Movimento Negro e ex-deputado Carlos Alberto Caó de Oliveira, autor da chamada Lei Caó, que transformou o preconceito de raça, cor, sexo e estado civil em contravenção penal, e a emenda constitucional que tornou o racismo crime inafiançável e imprescritível.

Nascido em 1941, em Salvador (BA), Caó foi deputado federal pelo PDT por dois mandatos, entre 1983 e 1991. Em seu segundo mandato, participou da Assembleia Nacional Constituinte. Caó foi autor na Lei 7.437/1985, que mudou o texto da Lei Afonso Arinos, de 1951, tornando contravenção penal o preconceito de raça, cor, sexo e estado civil. O texto ficou conhecido como Lei Caó. 

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/morre-alberto-cao-autor-da-lei-que-tornou-o-racismo-crime-inafiancavel

O Tempo de Mateus Aleluia

Por Laura Maria*

 

Mateus Aleluia, 73, prefere enxergar sua obra como uma rede de conexões que se completam com o passar do tempo ao vislumbrar a carreira como um ponto de partida que se estende por uma linha reta. “Fogueira Doce” (2017), segundo álbum solo de Aleluia, portanto, poderia ter saído tanto agora como há 20 anos.

“Vamos seguindo de acordo com o tempo. Assim como o ano tem quatro estações, e o mês tem quatro fases da lua, o ‘Fogueira Doce’ também obedece a um cronograma natural”, comenta o baiano, que participará de um bate-papo nesta quinta-feira (30), na Funarte MG, encerrando o projeto “Retratos de Artista”.

Visto dessa maneira, o hiato de sete anos entre “Cinco Sentidos” (2010) e “Fogueira Doce” é compreensível e, para Aleluia, quase que imperceptível. “O ‘Fogueira Doce’ é tudo o que foi o ‘Cinco Sentidos’. Cada dia é um hoje, um presente. Não se fala nem de ontem, nem de amanhã”, filosofa ao dispensar tecer comentários sobre o amadurecimento do álbum. “Mais maduro, menos maduro… Não sabemos. A vida é uma caixinha de surpresas, e o que eu fiz foi retratá-la no disco como uma fogueira que aquece, mas não queima”, diz.

Candomblé. A possibilidade de ouvir as canções de Aleluia e não aquecer os corações, aliás, é quase remota. Tanto em “Cinco Sentidos” como em “Fogueira Doce”, o artista conserva uma voz que faz casamento perfeito entre o lirismo do piano e os batuques do candomblé. Assim, Aleluia traz para os álbuns, desde quando participava do grupo Os Tincoãs, o estilo que denomina “afro-barroco”, em que mistura a cultura portuguesa à africana.

“A vinda do povo africano para cá coincidiu com o movimento do barroco em todo o mundo. A Igreja se sentia ameaçada e já catequizava as pessoas escravizadas ainda no Congo”, comenta ao analisar que o contexto foi fundamental para a construção do estilo. “O barroco brasileiro é diferente de qualquer outro no mundo, pois se assemelha muito ao que aconteceu com o sincretismo religioso. Basta observar as obras de Aleijadinho, que não encontram outras parecidas. Já no que diz respeito à música, ela tem um contato imediato, não pede respeito nem licença”, afirma.

Memórias. Natural de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, Aleluia começou sua carreira com o grupo Os Tincoãs, ativo entre as décadas de 60 e 70. Ao lado de Heraldo, Dadinho e Badu, Aleluia produziu quatro discos que exaltavam a cultura africana expressa, por exemplo, no candomblé.

“Os Tincoãs falavam do cotidiano. Não fizemos mais do que retratar a influência espontânea de onde vivíamos. Em Cachoeira, estava tudo o que precisávamos para o afro-barroco. A cidade foi muito sensível ao sincretismo e às influências das tribos indígenas também”, comenta.

Mas Aleluia sentiu que poderia aprofundar-se ainda mais na cultura africana, motivo pelo qual o artista passou 20 anos morando em Angola. Nem os mais de 7 mil quilômetros que separam o Brasil do país africano, porém, fizeram com que ele perdesse o sentido de que tudo está conectado.

“A minha vida lá foi e é igual à que tenho aqui. Construí laços de amizades, vivi momentos de alegria e de tristeza. Todo mundo que tem fé sente uma centelha divina dentro de si em qualquer lugar do mundo”, filosofa. E comenta: “A vida para mim é música. Não tem como dissociar”.

 

*http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/o-tempo-de-mateus-aleluia-1.1453969

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http://www.buala.org/en/afroscreen/black-archetypes-and-stereotypes-in-brazilian-films

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Maya Angelou e James Baldwin

 

Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola

  • titulo original I Know Why The Caged Bird Sings
  • tradução Tânia Ganho
  • páginas 304
  • ano 2017
  • edição 1.ª
  • preço 17,50 €
  • isbn 978-972-608-307-8

Maya Angelou enfrenta a sua vida com uma admiração tocante e com uma dignidade luminosa. –James Baldwin.

Grandioso livro de memórias, Sei porque Canta o Pássaro na Gaiola (1969) é uma poética viagem de libertação e um glorioso bater de asas num mundo opressivo. Este relato inspirador da infância e da juventude da autora, nos anos 30 e 40, devolve-nos o olhar de uma extraordinária criança sobre a violência inexplicável do mundo dos adultos e a crueldade do racismo, na procura da dignidade em tempos adversos. Do Arkansas rural às cidades da Califórnia, Maya Angelou traça neste livro um tocante retrato da comunidade negra dos Estados Unidos, durante a segregação, e de uma consciência que, incapaz de se resignar, desperta rumo à emancipação. Um clássico americano que marcou gerações e que conserva toda a sua atualidade.

http://www.antigona.pt/catalogo/sei-porque-canta-o-passaro-na-gaiola-298/

Símbolo do Quilombhoje Literatura. Apareceu nos Cadernos Negros 5, de 1982. Desenho de Márcio Barbosa - Créditos: Quilombhoje LiteraturaSímbolo do Quilombhoje Literatura. Apareceu nos Cadernos Negros 5, de 1982. Desenho de Márcio Barbosa / Quilombhoje Literatura

Cadernos Negros:

40 anos de luta por narrativas negras

Por Débora Garcia

(…)

A primeira edição, em formato de bolso, reuniu oito poetas. Vendida de mão em mão, a publicação obteve um retorno expressivo daqueles que a acessaram, agregando cada vez mais pessoas que queriam se aquilombar em Cadernos Negros. Desde então, anualmente, foram lançadas outras edições alternado poemas e contos escritos por autores autodeclarados negros. Através de um chamamento público, os autores interessados em publicar enviam seus textos. Esses são avaliados por uma criteriosa banca, que seleciona os trabalhos aptos à publicação. Esse processo é de fundamental importância para manter a qualidade literária da série. Os autores selecionados participam do financiamento coletivo para a publicação e lançamento da obra. 

A grande repercussão e ampliação da série Cadernos Negros conduziram Cuti, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina e Abelardo Rodrigues, escritores precursores da série, ao aprimoramento da organização coletiva, tendo em vista, viabilizar a publicação anual da série, bem como, visibilizar e qualificar a discussão sobre a produção literária afro-brasileira. Desse processo, no ano de 1980 fundaram o Quilombhoje Literatura.

Passados 37 anos desde a sua fundação, o Quilombhoje Literatura atua como um importante coletivo literário e como a editora responsável pela publicação anual da série Cadernos Negros, trabalho coordenado pelos escritores e ativistas Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, com uma equipe de colaboradores voluntários. 

Ao longo dessas quatro décadas, Cadernos Negros se firmou como um espaço de resistência literária, social e política, agregando autores e autoras negras em âmbito nacional, afirmando o volume e a qualidade da produção literária afro-brasileira, constituindo-se em uma possibilidade para que escritores negros possam publicar suas narrativas, relevando grandes talentos, como a escritora Conceição Evaristo, que publicou pela primeira vez na edição número 12, no ano de 1990. Assim como eu, que publique a primeira vez na edição número 34 no ano de 2010, e muitos escritores e escritoras que tem em comum sua iniciação literária publicando em Cadernos Negros. 

Literatura e raça

A questão racial no Brasil se manifesta inclusive no campo literário. Essa perspectiva elucidou-se para mim quando me tornei escritora e leitora da chamada “literatura afro-brasileira”. Antes desses processos, não percebia a sutileza com a qual a literatura brasileira, ao longo da história, perpetua o legado de pobreza e estigmas que contribuem com os processos de marginalização da população negra. 

Regina Dalcastagnè, doutora em teoria literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), destaca-se por avaliar, em suas pesquisas, aspectos de desigualdade social na literatura brasileira. Em “A personagem do romance brasileiro contemporâneo:1990-2004“,sua mais expressiva pesquisa, analisou 258 obras publicadas pelas grandes editoras do país entre 1990 e 2004, traçando um importante perfil acerca do gênero, etnia e classe social, tanto dos autores quanto das personagens.

Algumas importantes constatações da pesquisa: 

Representatividade: As personagens brancas totalizam 92%. A pesquisa aponta também que em 56,6% dos romances levantados, não há nenhuma personagem negra, enquanto em somente 1,6% não há personagens brancas.

Intelectualidade: Os personagens brancos representados nos livros costumam ser os sujeitos mais intelectuais dos romances. Entre os negros, somente 17,3% pertencem à elite intelectual.

Perfil econômico: Foi verificado que 73,5% dos personagens negros são retratados como pobres e 12,2% como miseráveis.

Criminalidade: Dentre as personagens, 33,3% das crianças negras e 56,3% dos adolescentes negros eram dependentes químicos.

Etnia e gênero: Dos autores 93,9% eram brancos e 72,7% eram homens. 

Esses dados evidenciam que, na literatura brasileira, há a hegemonia histórica de uma narrativa branca, masculina, elitizada e estereotipada. Essa predominância pejorativa da forma de se representar pessoas negras solidificam no imaginário social coletivo estigmas sobre quem são essas pessoas, os espaços socais que devem ocupar e como devem ser tratadas. O que, grosso modo, caracterizam o racismo estrutural.

O panorama traçado por Regina Dalcastagnè já era perceptível para escritores e escritoras negros que, dentro e fora do ambiente acadêmico, questionavam os estigmas e a ausência de representação e representatividade negra na literatura brasileira. 

Foi nesse contexto de resistência e empreita pela construção de um espaço legítimo para as narrativas afro-brasileiras que, em 1978, foi criada a série Cadernos Negros, que  completa 40 anos de existência. 

O resgate desse processo histórico da Cadernos Negros em paralelo aos dados da pesquisa tem por objetivo responder uma pergunta com a qual, nós escritores negros, sempre nos deparamos: “É necessário rotular a sua literatura como negra, ou afro-brasileira, ou feminina?”. E com base nesses dados digo que sim, pois a literatura “universal” produzida até os dias atuais, não representa a diversidade de gênero e étnica de um país majoritariamente formado por mulheres e negros. Por isso não se trata de rótulo, trata-se de posicionamento político, da demarcação do lugar de fala desses autores, autoras e de suas personagens. 

Serviço:

Lançamento Cadernos Negros Volume 40 – Contos Afro-Brasileiros

Data: 16/12/2017 (sábado)  Horário: 17h30

Local: Academia Paulista de Letras – Largo do Arouche, 324  

Entrada gratuita

 

*Débora Garcia é poetisa, gestora cultural, idealizadora e artista no coletivo Sarau das Pretas.

Extraído de: https://www.brasildefato.com.br/2017/12/15/cadernos-negros-40-anos-de-luta-por-narrativas-negras/

Teju Cole © Tim Knox / eyevine

Um corpo negro

Por Teju Cole

Em 1951, James Baldwin foi o primeiro negro a botar os pés em Leukerbad. No vilarejo suíço, que vivia alheio à luta pelos direitos civis, encontrou um espelho do racismo disseminado pelo mundo e, sobretudo, do combate contra o preconceito travado nos Estados Unidos. Sua passagem pelo balneário dos Alpes resultou em “O estranho no vilarejo”, ensaio hoje clássico que a serrote 26 publicou pela primeira vez no Brasil. O texto serviu de bússola a Teju Cole, que refez a viagem decisiva de Baldwin para escrever “Um corpo negro”, incluído na mesma edição. Seis décadas depois, o mundo, como constatara o autor de Notas de um filho desta terra, jamais voltaria a ser branco.

Então o ônibus começou a passar por dentro de nuvens, e entre uma nuvem e outra vislumbramos a cidadezinha lá embaixo. Estava na hora do jantar, e ela era uma constelação de pontos amarelos. Chegamos 30 minutos depois de sair da outra cidadezinha, que se chamava Leuk. O trem para Leuk viera de Visp, o trem de Visp viera de Berna, e o trem anterior era de Zurique, de onde eu havia saído à tarde. Três trens, um ônibus, uma breve caminhada, tudo isso atravessando uma bela região, e então chegamos a Leukerbad quando estava escuro. Afinal, Leukerbad, que não era longe em termos de distância abso­luta, não era tão acessível assim. Dois de agosto de 2014: era aniversário de James Baldwin. Se ele estivesse vivo, estaria completando 90 anos. Ele é uma daquelas pessoas que estão no limite do contemporâneo, deslizando para o histórico − John Coltrane estaria fazendo 88 neste ano; Martin Luther King Jr. faria 85 −, pessoas que ainda poderiam estar conosco, mas que, às vezes, pare­cem muito distantes, como se tivessem vivido há séculos.

James Baldwin saiu de Paris e veio a Leukerbad pela primeira vez em 1951. A família de seu namorado, Lucien Happersberger, tinha um chalé em um vilarejo no alto das montanhas. E então lá foi Baldwin, que na época estava deprimido e disperso, e o vilarejo (que também tem o nome de Loèche-les­-Bains) acabou sendo um refúgio para ele. Essa primeira viagem aconteceu no verão e durou duas semanas. Depois, para sua surpresa, ele voltou em outros dois invernos. Seu primeiro romance, Go Tell It on the Moun­tain, encontrou sua forma final aqui. Ele vinha lutando com o livro havia oito anos e, finalmente, o concluiu nesse retiro improvável. Também escreveu outra coisa, um ensaio cha­mado “O estranho no vilarejo”; foi esse ensaio, até mais do que o romance, que me trouxe a Leukerbad.

“O estranho no vilarejo” foi publicado pela primeira vez na Harper’s Magazine em 1953, e depois na coletânea Notes of a Native Son, em 1955. O texto relata a experiência de ser negro em um vilarejo só de brancos. Começa com a atmosfera de uma viagem radical, como a de Charles Darwin a Galápagos ou a de Tété-Michel Kpomassie à Groenlândia. Mas então se abre para outras preocupações e para uma voz diferente, passando a olhar a situação racial americana nos anos 195 0. A parte do ensaio que trata do vilarejo suíço é tão confusa quanto triste. Baldwin atenta para o absurdo de ser um escritor nova-iorquino que, de alguma maneira, é considerado inferior pelos suíços daquele vilarejo, muitos dos quais jamais saíram dali. Porém, adiante no ensaio, quando escreve sobre raça nos Estados Unidos, ele não é nem um pouco confuso. É iracundo e profético, escreve com clareza dura, conduzido por uma eloquência vertiginosa.

Hospedei-me no Hotel Mercure Bristol na noite em que cheguei. Abri as janelas para a escuridão, mas eu sabia que nela se escondia a montanha Daubenhorn. Abri a torneira da banheira e afundei até o pescoço na água quente, com meu velho exemplar barato de Notes of a Native Son. O som baixo do meu laptop era Bessie Smith cantando “I’m Wild about That Thing”, um blues picante e uma obra-prima da dissimulação: “Don’t hold it baby when I cry/ Give me every bit of it, else I’d die/ I’m wild about that thing”. A letra que ela canta poderia se referir a um trombone. E foi ali, na banheira, com as pala­vras dele e a voz dela, que tive meu momento dublê de corpo: ali estava eu em Leukerbad, com o canto de Bessie Smith vindo de 1929, atravessando os anos; e sou negro como ele; e sou magro; e também tenho os dentes da frente espaçados; e não sou especialmente alto (não, escreve: baixo); e sou frio no papel e caloroso pessoalmente, a não ser quando sou jus­tamente o contrário; e fui também um fervoroso pastor na adolescência (Baldwin: “Nada que já me aconteceu a partir de então iguala o poder e a glória que eu às vezes sentia quando, no meio de um sermão, sabia que era, de alguma maneira, por algum milagre, realmente o portador, como eles dizem, da ‘Palavra’ − quando a igreja e eu éramos um só”); e também eu abandonei a igreja; e considero Nova York meu lar, mesmo quando não estou morando lá; e me sinto em toda parte, da cidade de Nova York à Suíça rural, o guardião de um corpo negro, e preciso encontrar a linguagem para tudo o que isso signi­fica para mim e para as pessoas que olham para mim. O ancestral brevemente tomou posse do descendente. Foi um momento de identificação e, nos dias seguintes, esse momento foi um guia.

“A julgar por todas as evidências disponíveis, jamais um homem negro pôs os pés neste minúsculo vilarejo suíço antes de mim”, Baldwin escreveu. Mas o vila­rejo cresceu razoavelmente desde a sua visita, mais de 60 anos atrás. Agora eles já tinham visto negros; eu não era uma atração. Notei alguns olhares discretos no hotel, quando me registrei, e no restaurante elegante da mesma rua, mas as pessoas sempre olham. As pessoas olham em Zurique, onde estou passando o verão, assim como olham em Nova York, onde moro há 14 anos. Há olhares por toda a Europa e na Índia, e em qualquer outro lugar fora da África. O teste é ver quanto duram esses olhares, se eles se tornam olhares fixos, com que intenção ocorrem, se contêm algum grau de hostilidade ou zombaria, e até que ponto meus contatos, meu dinheiro ou modo de vestir me protegem nessas situações. Ser um estranho é ser olhado, mas ser negro é ser olhado de uma forma espe­cial. (“As crianças gritam Neger! Neger! quando passo na rua.”) Leukerbad mudou, mas de que maneira? Não havia, de fato, bandos de crianças na rua, havia poucas crianças em geral. Provavelmente as crianças de Leukerbad, como as crianças do mundo todo, estavam dentro de casa, vidradas em jogos de computador, che­cando o Facebook ou assistindo a vídeos de música. Talvez alguns dos velhos que vi na rua fossem as mesmas crianças que haviam ficado tão surpresas ao verem Baldwin, e sobre quem, no ensaio, ele se esforça para falar em um tom sensato: “Em tudo isso, ainda que seja preciso reconhecer o encanto de um genuíno des­lumbramento, sem qualquer crueldade intencional, nada sugeria que eu fosse humano: eu era apenas uma curiosidade ambulante”. Agora, porém, os filhos ou netos daquelas crianças estão conectados ao mundo de um modo diferente. Tal­vez certa xenofobia ou certo racismo façam parte da vida deles, como também o fazem Beyoncé, Drake e Meek Mill, a música que ouço pulsar nas boates suíças nas noites de sexta-feira.

Nos anos 1950, Baldwin teve que trazer seus discos, como se fossem remé­dios escondidos, e precisou subir com seu toca-discos até Leukerbad, para que o som do blues americano pudesse mantê-lo em contato com um Harlem espiritual. Ouvi algumas dessas músicas enquanto estive lá, como um modo de estar com ele: Bessie Smith cantando “I Need a Little Sugar in My Bowl” (“I need a little sugar in my bowl/ I need a little hot dog on my roll”), Fats Waller cantando “Your Feet’s Too Big”. Ouvi também minha própria seleção: Bettye Swann, Billie Holiday, Jean Wells, Coltrane Plays the Blues, The Physics, Childish Gambino. A música que ouvimos durante uma viagem nos ajuda a criar nosso clima interior. Mas o mundo também participa: quando almocei no restau­rante Römerhof certa tarde − naquele dia, todos os fregueses e funcionários eram brancos −, a música tocando acima de nossas cabeças era “I Wanna Dance with Somebody”, de Whitney Houston. A história é hoje, e a América é negra.

Na hora do jantar, em uma pizzaria, mais olhares. Uma mesa de turistas ingle­ses ficou me encarando. Mas a garçonete era de origem negra, e um dos funcioná­rios do spa do hotel era um senhor negro. “As pessoas estão presas na história, e a história está presa dentro delas”, Baldwin escreveu. Porém, também é verdade que pequenos pedaços de história se movem pelo mundo a uma velocidade tre­menda, validando uma lógica nem sempre clara, e raramente válida por muito tempo. E talvez mais interessante do que eu não ser a única pessoa negra no vila­rejo seja o simples fato de muitas outras pessoas que vi também serem estran­geiras. Essa foi a maior mudança de todas. Se, na época, o vilarejo tinha um ar piedoso e convalescente, uma espécie de “pequena Lourdes”, hoje é muito mais próspero, cheio de visitantes de outras partes da Suíça, Alemanha, França, Itália e de toda a Europa, da Ásia e das Américas. Tornou-se o maior balneário termal dos Alpes. Os banhos municipais estavam cheios. Há hotéis em todas as ruas, de todos os preços, e há restaurantes e lojas de luxo. Hoje, quem quiser pode com­prar um relógio pelos olhos da cara a 1.400 metros acima do nível do mar.

Os melhores hotéis possuem suas próprias piscinas termais. No Mercure Bristol, peguei um elevador, desci até o spa e entrei na sauna seca. Minutos depois, entrei na piscina e boiei sobre a água quente. Havia outros hóspedes, mas não muitos. Caía uma chuva fina. Estávamos cercados por montanhas e suspensos naquele azul imortal.

*

 

James Baldwin

Em seu brilhante romance Harlem Is Nowhere, Sharifa Rhodes-Pitts escreve:

Em quase todos os ensaios que James Baldwin escreveu sobre o Harlem, há um mo­mento em que ele faz um truque literário tão peculiar que, se ele fosse um atleta, os locutores acabariam codificando a manobra e diriam que ele “fez o Jimmy”. Penso nisso em termos cinematográficos, porque seu efeito me faz lembrar de uma técnica em que a câmera se afasta de um detalhe para uma panorâmica enquanto a lente permanece com o foco em um determinado ponto distante.

Esse movimento, essa súbita abertura do foco, está presente até mesmo em seus ensaios que não tratam do Harlem. No ensaio “O estranho no vilarejo”, há um trecho de umas sete páginas em que se pode sentir a retórica se avolumar, enquanto Baldwin se prepara para deixar para trás a atmosfera calma, fabular, da abertura. Sobre os moradores do vilarejo, ele escreve:

Essas pessoas não poderiam ser, do ponto de vista do poder, estranhos em nenhum lugar do mundo; na verdade, elas fizeram o mundo moderno, mesmo que não sai­bam disso. O mais iletrado deles é próximo, de uma maneira que eu não sou, de Dante, Shakespeare, Michelangelo, Ésquilo, Da Vinci, Rembrandt e Racine; a cate­dral de Chartres lhes diz alguma coisa que não diz a mim, como também diria o Empire State de Nova York, se alguém aqui um dia o visse. De seus hinos e danças, saíram Beethoven e Bach. Volte alguns séculos, e eles estão em plena glória − mas eu estou na África, assistindo à chegada dos conquistadores.

O que essa lista quer dizer? Será que Baldwin realmente se incomoda que as pessoas de Leukerbad estejam familiarizadas, ainda que difusamente, com Chartres? Que uma linhagem genética remota as associe aos quartetos de Beethoven? Afinal, como ele defende adiante no ensaio, ninguém pode negar o impacto da “presença do negro no caráter americano”. Ele entende a ver­dade e a arte no trabalho de Bessie Smith. Ele não considera, e não poderia considerar − quero crer −, o blues inferior a Bach. Mas havia certa limitação na recepção das ideias sobre a cultura negra nos anos 1950. A partir de então, houve uma quantidade suficiente de realizações culturais para se compilar uma seleção de astros negros: houve Coltrane e Monk e Miles, e Ella e Billie e Aretha. Toni Morrison, Wole Soyinka e Derek Walcott aconteceram, assim como Audre Lorde e Chinua Achebe e Bob Marley. O corpo não foi abandonado em detrimento do espírito: Alvin Ailey, Arthur Ashe e Michael Jordan aconte­ceram também. A fonte do jazz e do blues também deu ao mundo o hip-hop, o afrobeat, o dancehall e o house. E, sim, quando James Baldwin morreu, em 1987, ele também foi reconhecido como um astro.

Pensando ainda na catedral de Chartres, na grandeza daquela realização e em como, para ele, ela incluía negros apenas no negativo, como demônios, Baldwin escreve que “o negro americano chegou à sua identidade graças à absoluta alienação de seu passado”. Mas o remoto passado africano se tornou muito mais acessível do que era em 1953. A mim não teria ocorrido pensar que, séculos atrás, eu estaria “na África, assistindo à chegada dos conquistadores”. Mas desconfio de que, para Baldwin, isso seja, em parte, uma jogada retórica, uma cadência severa para terminar um parágrafo. Em “A Question of Identity” (outro ensaio incluído em Notes of a Native Son), ele escreve: “A verdade sobre o passado não é que ele seja recente demais, ou superficial demais, mas apenas que nós, tendo desviado os olhos tão decididamente para longe dele, jamais exigimos dele o que tem para dar”. Os artistas da corte de Ifé, no século 14, fizeram esculturas de bronze usando um complicado método de moldes per­dido na Europa desde a Antiguidade, só redescoberto no Renascimento. As esculturas de Ifé se igualam a obras de Ghiberti ou Donatello. Por sua precisão e suntuosidade formal, podemos extrapolar traços de uma grande monar­quia, uma rede de ateliês sofisticados e um mundo cosmopolita de comércio e conhecimento. E não era só em Ifé. Toda a África Ocidental era uma efervescên­cia cultural. Do governo igualitário dos Ibos à ourivesaria das cortes de Ashanti, das esculturas em latão do Benin às conquistas militares do império Mandinka e aos músicos que louvaram esses heróis guerreiros, essa foi uma região do mundo que investiu profundamente na arte e na vida para ser reduzida à cari­catura de “assistir à chegada dos conquistadores”. Hoje sabemos mais do que isso. Sabemos pelas pilhas de trabalhos acadêmicos que corroboram tal pen­samento e sabemos implicitamente, de modo que a própria ideia de fazer uma lista de realizações parece um tanto entediante, servindo apenas como forma de se contrapor ao eurocentrismo.

Eu jamais trocaria, sob nenhuma condição, a intimidante beleza da poesia iorubá por, digamos, sonetos de Shakespeare, ou as koras do Mali pelas orques­tras de câmara de Brandemburgo. Sou feliz por dispor de tudo isso. Essa con­fiança despreocupada é, em parte, uma dádiva do tempo. É um dividendo da luta de pessoas das gerações anteriores. Eu não me sinto excluído nos museus. Mas essa questão da filiação atormentava bastante Baldwin. Ele era sensível ao que havia de grande no mundo da arte e sensível à sua própria sensação de exclusão daquele mundo. Ele fez uma lista parecida em Notes of a Native Son (aqui começamos a achar que esse tipo de lista lhe ocorria em meio a discussões): “Em certo sentido sutil, de maneira realmente profunda, tratei Shakespeare, Bach, Rembrandt, as pedras de Paris, a catedral de Chartres e o edifício Empire State com uma atitude especial. Não são criações minhas na verdade, não contêm minha história; posso procurar para sempre e não encon­trarei nelas nenhum reflexo meu. Eu era um intruso; aquele não era meu patri­mônio.” As linhas latejam de tristeza. Aquilo que ele ama não o ama de volta.

É aí que me distancio de Baldwin. Não discordo da sua tristeza particular, mas da abnegação que o levou a ela. Bach, tão profundamente humano, é meu patrimônio. Não sou um intruso olhando um retrato de Rembrandt. Eu me importo com essas coisas mais do que algumas pessoas brancas, assim como algumas pessoas brancas se importam mais com alguns aspectos da arte afri­cana do que eu. Posso me opor à supremacia branca e, ainda assim, adorar arquitetura gótica. Nisso, estou com Ralph Ellison: “Os valores do meu povo não são ‘brancos’ nem ‘negros’, são americanos. Nem posso ver como poderiam ser outra coisa, uma vez que somos um povo envolvido na textura da experiên­cia americana.” E, no entanto, eu (nascido nos Estados Unidos mais de meio século depois de Baldwin) continuo a entendê-lo, porque experimentei no meu corpo a fúria incontida que ele sentia do racismo que lhe impunha limi­tes por todos os lados. Em seus escritos, há uma fome de viver, uma fome de tudo o que existe, e um forte desejo de não ser considerado um nada (um mero crioulo, um mero neger), logo ele, que sabia tão bem o próprio valor. E esse tão bem não tem a ver com egocentrismo no que escreve nem com algum tipo de ansiedade em relação à sua fama em Nova York ou Paris. São os princípios incontestáveis de uma pessoa: prazer, tristeza, amor, humor, luto e a complexi­dade da paisagem interior que sustenta esses sentimentos. Baldwin ficava per­plexo que alguém, em algum lugar, questionasse esses princípios, oprimindo-o assim com a suprema perda de tempo que é o racismo, e oprimindo em tantas outras pessoas em tantos outros lugares. Essa capacidade incansável de se cho­car exala como fumaça de suas páginas. “A fúria do menosprezado é pessoal­mente infrutífera”, ele escreve, “mas é absolutamente inevitável”.

Leukerbad deu a Baldwin um modo de pensar sobre a supremacia branca a partir de seus princípios originais. Era como se ali ele os encontrasse em sua forma mais simples. Os homens que sugeriram que ele aprendesse a esquiar para que pudessem zombar dele, os moradores que o acusaram pelas costas de ser ladrão de lenha, aqueles que quiseram tocar seu cabelo e sugeriram que o deixasse crescer para fazer um casaco pesado, e as crianças que, tendo aprendido “que o diabo é um homem negro, gritam com uma angústia genuína” quando ele se aproximava: Baldwin viu neles protótipos (preservados como celacantos) de atitudes que evoluiriam para as formas mais íntimas, intrincadas, familiares e obscenas de supremacia branca americana que ele conhecia tão bem.

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É um belo vilarejo. Gostei do ar da montanha. Mas quando voltei dos banhos termais para o meu quarto, depois de um passeio pelas ruas com a minha câ­mera, li as notícias na internet. Encontrei uma sequência infindável de crises: no Oriente Médio, na África, na Rússia e em toda parte, realmente. Era uma dor geral. Mas naquela aflição maior havia um conjunto de histórias interliga­das, e pensar sobre “O estranho no vilarejo”, pensar com sua ajuda, foi como injetar um contraste em meu encontro com o noticiário. A polícia americana continuava atirando em homens negros desarmados ou matando-os de outras maneiras. Os protestos que se seguiam, nas comunidades negras, eram enfren­tados com violência por uma força policial que vem se tornando praticamente a mesma coisa que um exército invasor. As pessoas começavam a ver a conexão entre os vários acontecimentos: os tiros, os estrangulamentos fatais, as histó­rias de quem não recebeu o remédio que salvaria uma vida. E as comunidades negras transbordavam de indignação e luto.

Em tudo isso, uma história menor, menos significativa (mas que ao mesmo tempo significa muito), chamou minha atenção. O prefeito de Nova York e seu chefe de polícia têm uma obsessão por políticas públicas de limpeza, por higie­nizar a cidade, e decidiram que prender integrantes de companhias de dança que se apresentam em vagões do metrô em movimento é uma maneira de lim­par a cidade. Li as desculpas para que isso se tornasse uma prioridade: algumas pessoas têm medo de se machucar com algum chute imprevisto (ainda não aconteceu, mas elas já estão com medo), algumas pessoas consideram aquilo um incômodo, alguns políticos acham que perseguir essas pequenas infra­ções é uma maneira de prevenir crimes mais graves. E assim, para combater a ameaça dos dançarinos, a polícia interveio. Ela começou a perseguir, a assediar, a algemar. O “problema” eram os dançarinos, e os dançarinos eram, em sua maioria, meninos negros. Os jornais adotaram o mesmo tom do governo: total desdém pelos dançarinos. E, no entanto, esses mesmos dançarinos são um raio de luz em pleno dia, um momento de beleza sem controle, artistas com talentos inimagináveis para aquele público. Que tipo de pensamento conside­raria que bani-los é uma melhoria para a vida da cidade? Ninguém considera o doces ou travessuras do Dia das Bruxas uma ameaça pública. A lei não interfere com as bandeirantes que vendem seus biscoitos ou com as testemunhas de Jeová. Mas o corpo negro vem prejulgado e, como resultado, é tratado com pre­conceitos desnecessários. Ser negro é enfrentar o peso seletivo dos agentes da lei e viver na instabilidade psíquica de não ter garantia nenhuma da segurança pessoal. Antes de mais nada, você é um corpo negro, antes de ser um menino andando na rua ou um professor de Harvard que não encontra as chaves.

William Hazlitt, em ensaio de 1821 intitulado “The Indian Jugglers”, escreveu palavras que me ocorrem quando vejo um grande atleta ou dançarino: “Homem, és um animal maravilhoso, e teus modos estão além do entendimento! Fazes coi­sas grandiosas, mas como se não fossem grandes coisas! – Conceber o esforço de tal extraordinária destreza distrai a imaginação e deixa sem fôlego a admiração.” Na presença do admirável, há quem fique sem fôlego não de admiração, mas de fúria. Fazem-se objeções à presença do corpo negro (um menino desarmado na rua, um homem comprando um brinquedo, um dançarino no metrô, um pas­sante) tanto quanto à presença do intelecto negro. E simultaneamente a esses apagamentos ocorre a infindável coleta dos lucros obtidos do trabalho negro. Em toda nossa cultura, existem imitações dos passos, do porte e dos trajes do corpo negro, uma cooptação vampiresca de “tudo menos o fardo” da vida negra.

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Leukerbad é rodeada de montanhas: a Daubenhorn, a Torrenthorn, a Rinderhorn. Um passo de montanha chamado Gemmi, 850 metros acima do vilarejo, conecta o cantão de Valais com o Oberland Bernês. Por essa paisagem − escarpada, nua em alguns lugares, verdejante em outros, um caso exemplar do sublime −, movemo-nos como por um sonho. O passo de Gemmi é famoso por bons motivos, e Goethe esteve lá, assim como Byron, Twain e Picasso. O passo é mencionado em uma aventura de Sherlock Holmes, quando ele o atravessa para o fatídico encontro com o professor Moriarty nas cataratas de Reichenbach. O tempo estava ruim no dia em que subi até lá, com chuva e neblina, mas foi uma sorte, porque assim pude ir sozinho pela trilha. Enquanto estava lá, lembrei­-me de uma história que Lucien Happersberger contou de quando Baldwin saiu para caminhar por essas montanhas. Na subida, ele se desequilibrou, e por um instante a situação ficou tensa. Mas Happersberger, que era um alpinista tarim­bado, estendeu a mão, e Baldwin se safou. Foi desse momento de pavor, desse mo­mento de apelo bíblico, que Baldwin tirou o título para o livro que vinha tentando escrever: Go Tell It on the Mountain.

Se Leukerbad foi seu púlpito na montanha, os Estados Unidos eram seu público. O vilarejo remoto lhe deu uma visão mais precisa de como as coisas estavam em casa. Ele era um estranho em Leukerbad, Baldwin escreveu, mas não era possível para os negros serem estranhos nos Estados Unidos, nem para os brancos realizarem a fantasia de um país totalmente branco, expurgado dos negros. Essa fantasia da vida negra como algo descartável é uma constante na história americana. As pessoas ainda custam a entender que essa descartabili­dade permanece. Os brancos custam a entender; pessoas não negras de cor cus­tam a entender; e alguns negros, seja porque sempre viveram nos Estados Uni­dos, seja porque são retardatários como eu, nutridos em outras fontes de outras lutas, custam a entender. O racismo americano possui muitas engrenagens e já teve séculos suficientes para desenvolver uma impressionante camuflagem. É capaz de acumular sua maldade por muito tempo quase sem se mover, o tempo todo fingindo olhar para o outro lado. Como a misoginia, é atmosférico. A prin­cípio, você não o vê. Mas depois você entende.

“As pessoas que fecham os olhos para a realidade simplesmente estão pedindo pela própria destruição, e qualquer um que insista em permanecer em estado de inocência tanto tempo depois da morte da inocência acaba sendo um monstro.” As notícias do dia (notícias velhas, mas sangrentas como uma ferida recente) dizem que a vida negra americana é descartável do ponto de vista da polícia, da Justiça, da política econômica e de inúmeras formas terríveis de desprezo. Há uma animada encenação de inocência, mas não sobrou mais nenhuma inocên­cia de fato. A conta moral continua tão no negativo que ainda nem conseguimos começar a tratar da questão das reparações. Baldwin escreveu “O estranho no vilarejo” há mais de 60 anos. E agora?

 

Romancista e fotógrafo, Teju Cole (1975) nasceu nos Estados Unidos e foi criado na Nigéria. É escritor residente do Bard College e crítico de fotografia da New York Times Magazine. É autor do celebrado ro­mance Cidade aberta(Companhia das Letras, 2012) e de Known and Strange Things, coletânea de ensaios de 2016 que inclui “Um corpo negro”, publicado originalmente na New Yorker.
Tradução de Alexandre Barbosa de Souza

https://www.revistaserrote.com.br/2017/08/um-corpo-negro-por-teju-cole/