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Um filme de dança (2013), de Carmen Luz

Um filme de dança (2013), de Carmen Luz

Diretoras Negras do Cinema Brasileiro

Com curadoria de Kênia Freitas e Paulo Ricardo de Almeida, a mostra percorre trabalhos desde as pioneiras Adélia Sampaio e Danddara, até nomes contemporâneos, como Carol Rodrigues, Elen Linth, Juliana Vicente, Lilian Solá Santiago, Renata Martins, Sabrina Fidalgo, Viviane Ferreira, Yasmin Thayná, entre outras. Dentre os destaques selecionados, estão Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio; Gurufim na Mangueira (2000), de Danddara; Graffiti (2008), de Lilian Solá Santiago; Cores e Botas (2010), de Juliana Vicente; Um filme de Dança (2013), de Carmen Luz; O Dia de Jerusa (2014), de Viviane Ferreira; Kbela (2015), de Yasmin Thayná; Rainha (2016), de Sabrina Fidalgo; e Maria (2017), de Elen Linth e Riane Nascimento.  

 

Considerada pioneira, Adélia Sampaio começou no cinema em 1969. Filha de empregada doméstica, a cineasta dirigiu quatro curtas metragens: Denúncia VaziaUm Deus dança em MimAdulto não brinca e Na poeira das ruas. Em 1984, Adélia dirigiu o filme Amor Maldito, tornando-se a primeira diretora negra a dirigir um longa-metragem no Brasil. Além disso, a produção também é considerada a primeira com temática inteiramente lésbica no cinema nacional.

Nos anos 1990, a realidade do cinema feminino negro no Brasil pouco se alterou. Danddara, umas das resistências do período, ingressou no cinema profissional fazendo assistência para Paulo Rufino (Canto da Terra, 1991). No entanto, seu primeiro curta, Gurufim na Mangueira (2000), foi recusado três vezes pelo Ministério da Cultura antes de ser aprovado. Ainda assim, a diretora usou de diversos subterfúgios para driblar o racismo institucional, como assinar o projeto com um pseudônimo francês (Mônica Behague) e relevar para segundo plano a sua autoria do roteiro.

“Falar das trajetórias das mulheres negras no cinema brasileiro é remontar uma história de invisibilidade e apagamentos. Até por isso, o que é impactante na produção atual é a sua coletividade e a pluralidade de projetos e obras. Uma série de iniciativas das próprias cineastas marcam esse cenário de transformação e afirmação, propondo novas formas de viabilizar e divulgar o cinema feito pelas mulheres negras. Entre tantas, podemos destacar: a plataforma de exibição online Afroflix (www.afroflix.com.br/), criada por Yasmin Thayná, e a websérie Empoderadas, criada e dirigida por Renata Martins, que se desdobrou em encontro e festival de cinema feminino negro” destaca a curadora Kênia Freitas.

“Houve o barateamento dos equipamentos de produção, sobretudo com a entrada em cena do digital, que aumentou o acesso a uma arte (ainda cara) para um número maior e mais diverso de realizadores. O estabelecimento do sistema de cotas nas universidades públicas, assim como o ProUni e o Fies, trouxe para o ensino superior – incluindo os cursos cinema e audiovisual – alunos e alunas pobres e negros, antes excluídos. A abertura de uma linha de financiamento específica na Ancine para afrodescendentes significa o reconhecimento da falta de diversidade pela instância máxima de fomento do cinema brasileiro”, complementa o também curador Paulo Ricardo de Almeida.

Sessão inclusiva e debates:

No dia 09 de dezembro (sábado), às 17h30, haverá sessão inclusiva do filme Leva (2011), de Juliana Vicente e Luiza Marques, com audiodescrição e closed captions, para pessoas com necessidades especiais.

Fazem parte da programação, ainda, duas mesas de debates. No dia 07 de dezembro (quinta), às 19h, a mesa O percurso das diretoras negras no cinema brasileiro recebe as cineastas Adélia Sampaio e Sabrina Fidalgo, com mediação da curadora e doutora em Comunicação e Cultura, Kênia Freitas. Este debate terá tradução em Libras.

Já no dia 14 de dezembro (quinta), também às 19h, será realizada a mesa Perspectivas e transformações: a mulher negra no cinema nacional, da qual participam as cineastas Janaína Oliveira (Re.Fem) e Yasmin Thayná, com mediação do co-curador Paulo Ricardo.

A entrada para ambos os seminários é franca, com ingressos distribuídos 1h antes do início.

Programação:
5 de dezembro (terça-feira)
17h – Sandrine (2014), de Elen Linth e Leandro Rodrigues, Brasil, 12 min, DVD, 16 anos
Muros (2015), de Elen Linth, Brasil, 14 min, DVD, 16 anos
Entre Passos (2012), de Elen Linth, Brasil, 10 min, DVD, 16 anos
Pra se contar uma história (2013), de Elen Linth, Diego Jesus, Lucicleide Cruz e Leandro Rodrigues, Brasil, 25 min, DVD, livre
O filme que fiz para esquecer (2012), de Elen Linth, Brasil, 2 min, DVD, livre
Maria (2017), de Elen Linth e Riane Nascimento, Brasil, 17 min, DVD, 12 anos
19h – Um filme de dança (2013), de Carmen Luz, Brasil, 90 min, DVD, livre
6 de dezembro (quarta-feira)
17h – Lápis de Cor (2013), de Larissa Fulana de Tal, Brasil, 14 min, DVD, livre
Cinzas (2015), de Larissa Fulana de Tal, Brasil, 15 min, DVD, 12 anos
O tempo dos orixás (2014), de Eliciana Nascimento, Brasil, 20 min, DVD, livre
A Boneca e o Silêncio (2015), de Carol Rodrigues, Brasil, 19 min, DVD, 16 anos
Assim (2013), de Keila Serruya, Brasil, 14 min, DVD, 12 anos
19h – Das Raízes às Pontas (2016), de Flora Egécia, Brasil, 20 min, DVD, livre
Mucamas (2015), do Coletivo Nós, Madalenas, Brasil, 15 min, DVD, livre
Mulheres de Barro (2015), de Edileuza Penha de Souza, Brasil, 26 min, DVD, livre
Conflitos e Abismos, A Expressão da Condição Humana (2014), de Everlane Moraes, Brasil, 15 min, DVD, 14 anos
7 de dezembro (quinta-feira)
15h15 – Gurufim na Mangueira (2000), de Danddara, Brasil, 26 min, DVD, 12 anos
Amor maldito (1984), de Adélia Sampaio, Brasil, 76 min, DVD, 16 anos
17h30 – Cinema Mudo (2012), de Sabrina Fidalgo, Brasil, 15 min, DVD, 14 anos
Personal Vivator (2014), de Sabrina Fidalgo, Brasil, 22 min, DVD, 12 anos
Rainha (2016), de Sabrina Fidalgo, Brasil, 30 min, DVD, 12 anos
19h – Seminário O percurso das diretoras negras no cinema brasileiro, com Adélia Sampaio e Sabrina Fidalgo. Mediação de Kênia Freitas.
8 de dezembro (sexta-feira)
17h30 – Black Berlim (2009), de Sabrina Fidalgo, Brasil e Alemanha, 12 min, DVD, 12 anos
Rio Encantado (2014), de Sabrina Fidalgo, Brasil, 55 min, DVD, livre
19h – Balé de Pé no Chão – A Dança Afro de Mercedes Baptista (2005), de Lilian Solá Santiago e Marianna Monteiro, Brasil, 17 min, DVD, livre
Graffitti (2008), de Lilian Solá Santiago, Brasil, 10 min, DVD, 10 anos
Eu tenho a palavra (2010), de Lilian Solá Santiago, Brasil, 26 min, DVD, livre
Batuque de Graxa (2012), de Lilian Solá Santiago, Brasil, 5 min, DVD, livre
Mulheres Bordadas – Fios do Passado (2005), de Lilian Solá Santiago, Brasil, 10 min, DVD, livre

Heitor, Carioca dos Prazeres (2013), de Tatyana dos Prazeres.

Heitor, Carioca dos Prazeres (2013), de Tatyana dos Prazeres.
9 de dezembro (sábado)
15h45 – Aquém das Nuvens (2010), de Renata Martins, Brasil, 18 min, DVD, 12 anos
Heitor, Carioca dos Prazeres (2013), de Tatyana dos Prazeres, Brasil, 14 min, DVD, livre
Doido Lelé (2008), de Ceci Alves, Brasil, 17 min, DVD, livre
Rap de Saia (2006), de Janaína Oliveira Re.Fem e Queen, Brasil, 18 min, DVD, 14 anos
A Rua – O Corpo Urbano (2016), de Keila Serruya, Brasil, 10 min, DVD, livre
17h30 –  Sessão inclusiva (audiodescrição + closed captions)
Leva (2011), de Juliana Vicente e Luiza Marques, Brasil, 55 min, DVD, livre
19h – Cores e Botas (2010), de Juliana Vicente, Brasil, 16 min, DVD, livre
Tupã Baê (2011), de Juliana Vicente e Lucas Rached, Brasil, 11 min, DVD, livre
O Olho e o Zarolho (2013), de Juliana Vicente e René Guerra, Brasil, 17 min, DVD, livre
As Minas do Rap (2015), de Juliana Vicente, Brasil, 14 min, DVD, livre
10 de dezembro (domingo)
16h – Peregrinação (2014), de Viviane Ferreira, Brasil, 50 min, DVD, livre
17h30 – Mumbi 7 Cenas Pós Burkina (2010), de Viviane Ferreira, Brasil, 7 min, DVD, livre
Dê Sua Ideia, Debata (2008), de Viviane Ferreira, Brasil, 28 min, DVD, livre
O Dia de Jerusa (2014), de Viviane Ferreira, Brasil, 20 min, DVD, livre
19h – Kbela (2015), de Yasmin Thayná, 23 min, DVD, 12 anos
Sexy Trash (2014), de Tainá Rei, 2 min, DVD, 12 anos
Cinema de Preto (2004), de Danddara, 11 min, DVD, livre
Quijauá (2016), do Coletivo Revisitando Zózimo Bulbul + Mulheres de Pedra, 6 min, DVD, 14 anos
12 de dezembro (terça-feira)
17h – Black Berlim (2009), de Sabrina Fidalgo, Brasil e Alemanha, 12 min, DVD, 12 anos
Rio Encantado (2014), de Sabrina Fidalgo, Brasil, 55 min, DVD, livre
19h – Mumbi 7 Cenas Pós Burkina (2010), de Viviane Ferreira, Brasil, 7 min, DVD, livre
Dê Sua Ideia, Debata (2008), de Viviane Ferreira, Brasil, 28 min, DVD, livre
O Dia de Jerusa (2014), de Viviane Ferreira, Brasil, 20 min, DVD, livre
13 de dezembro (quarta-feira)
17h30 – Balé de Pé no Chão – A Dança Afro de Mercedes Baptista (2005), de Lilian Solá Santiago e Marianna Monteiro, Brasil, 17 min, DVD, livre
Graffitti (2008), de Lilian Solá Santiago, Brasil, 10 min, DVD, 10 anos
Eu tenho a palavra (2010), de Lilian Solá Santiago, Brasil, 26 min, DVD, livre
Batuque de Graxa (2012), de Lilian Solá Santiago, Brasil, 5 min, DVD, livre
Mulheres Bordadas – Fios do Passado (2005), de Lilian Solá Santiago, Brasil, 10 min, DVD, livre
19h – Leva (2011), de Juliana Vicente e Luiza Marques,  Brasil, 55 min, DVD, livre
14 de dezembro (quinta-feira)
16h15 – Aquém das Nuvens (2010), de Renata Martins, Brasil, 18 min, DVD, 12 anos
Heitor, Carioca dos Prazeres (2013), de Tatyana dos Prazeres, Brasil, 14 min, DVD, livre
Doido Lelé (2008), de Ceci Alves, Brasil, 17 min, DVD, livre
Rap de Saia (2006), de Janaína Oliveira Re.Fem e Queen, Brasil, 18 min, DVD, 14 anos
A Rua – O Corpo Urbano (2016), de Keila Serruya, Brasil, 10 min, DVD, livre
18h – Kbela (2015), de Yasmin Thayná, 23 min, DVD, 12 anos
Sexy Trash (2014), de Tainá Rei, 2 min, DVD, 12 anos
Cinema de Preto (2004), de Danddara, 11 min, DVD, livre
Quijauá (2016), do Coletivo Revisitando Zózimo Bulbul + Mulheres de Pedra, 6 min, DVD, 14 anos
19h – Seminário Perspectivas e transformações: a mulher negra no cinema nacional, com Yasmin Thayná, Janaína Oliveira, Re.Fem. Mediação: Paulo Ricardo Gonçalves de Almeida.
15 de dezembro (sexta-feira)
17h30 – Cores e Botas (2010), de Juliana Vicente, Brasil, 16 min, DVD, livre
Tupã Baê (2011), de Juliana Vicente e Lucas Rached, Brasil, 11 min, DVD, livre
O Olho e o Zarolho (2013), de Juliana Vicente e René Guerra, Brasil, 17 min, DVD, livre
As Minas do Rap (2015), de Juliana Vicente, Brasil, 14 min, DVD, livre
19h – Peregrinação (2014), de Viviane Ferreira, Brasil, 50 min, DVD, livre
16 de dezembro (sábado)
15h – Sandrine (2014), de Elen Linth e Leandro Rodrigues, Brasil, 12 min, DVD, 16 anos
Muros (2015), de Elen Linth, Brasil, 14 min, DVD, 16 anos
Entre Passos (2012), de Elen Linth, Brasil, 10 min, DVD, 16 anos
Pra se contar uma história (2013), de Elen Linth, Diego Jesus, Lucicleide Cruz e Leandro Rodrigues, Brasil, 25 min, DVD, livre
O filme que fiz para esquecer (2012), de Elen Linth, Brasil, 2 min, DVD, livre
Maria (2017), de Elen Linth e Riane Nascimento, Brasil, 17 min, DVD, 12 anos
17h – Um Filme de Dança (2013), de Carmen Luz, Brasil, 90 min, DVD, livre
19h – Lápis de Cor (2013), de Larissa Fulana de Tal, Brasil, 14 min, DVD, livre
Cinzas (2015), de Larissa Fulana de Tal, Brasil, 15 min, DVD, 12 anos
O tempo dos orixás (2014), de Eliciana Nascimento, Brasil, 20 min, DVD, livre
A Boneca e o Silêncio (2015), de Carol Rodrigues, Brasil, 19 min, DVD, 16 anos
Assim (2013), de Keila Serruya, Brasil, 14 min, DVD, 12 anos

 

17 de dezembro (domingo)
15h – Das Raízes às Pontas (2016), de Flora Egécia, Brasil, 20 min, DVD, livre
Mucamas (2015), do Coletivo Nós, Madalenas, Brasil, 15 min, DVD, livre
Mulheres de Barro (2015), de Edileuza Penha de Souza, Brasil, 26 min, DVD, livre
Conflitos e Abismos, A Expressão da Condição Humana (2014), de Everlane Moraes, Brasil, 15 min, DVD, 14 anos
17h – Gurufim na Mangueira (2000), de Danddara, Brasil, 26 min, DVD, 12 anos
Amor maldito (1984), de Adélia Sampaio, Brasil, 76 min, DVD, 16 anos
19h – Cinema Mudo (2012), de Sabrina Fidalgo, Brasil, 15 min, DVD, 14 anos
Personal Vivator (2014), de Sabrina Fidalgo, Brasil, 22 min, DVD, 12 anos
Rainha (2016), de Sabrina Fidalgo, Brasil, 30 min, DVD, 12 anos
Serviço:
Mostra Diretoras Negras do Cinema Brasileiro 
Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Cinema 2
EndereçoAv. Almirante Barroso, 25, Centro (Metrô e VLT: Estação Carioca)
Telefone: (21) 3980-3815
Data: de 5 a 17 de dezembro de 2017 (terça-feira a domingo)
Horários: Consultar programação
Ingressos: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia). Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia.
Lotação: 80 lugares (mais dois para cadeirantes)
Bilheteria: de terça-feira a domingo, das 13h às 20h
Classificação Indicativa: Consultar programação
Acesso para pessoas com deficiência
Patrocínio: Caixa Econômica Federal e Governo Federal
Assessoria de Imprensa:
Roberta Mattoso – imprensa@romainpress.com.br
Cel: (21) 99769-7920 | (Whastapp) (21) 98108-9896

Fonte: http://www.buala.org/pt/afroscreen/diretoras-negras-do-cinema-brasileiro

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O QUE A POLÊMICA SOBRE O FILME “VAZANTE”

NOS ENSINA SOBRE FRAGILIDADE BRANCA

Por Ana Maria Gonçalves*

Primeiro trabalho solo de Daniela Thomas, “Vazante”, que entrou em cartaz há uma semana, no dia 9 de novembro, foi vendido pela imprensa como um retrato da escravidão no país — mas não é o que entrega. O filme tem o mérito de provocar a conversa sobre a representação histórica da escravidão e de povos escravizados no cinema, mas também é uma obra de brancos para brancos, que está longe de se inserir na cinematografia brasileira como algo que vá muito além disso ao tratar do assunto em questão.

Assisti a “Vazante” para participar do programa da TV Globo “Conversa com Pedro Bial” junto  com a diretora do filme e o cineasta Joel Zito Araújo. Durante o programa, Daniela explica que o filme nasceu a partir de uma história que vem sendo contada há décadas em sua família: a de um parente de 50 anos que se casou com uma menina de doze. O episódio, bem retratado em “Vazante”, aconteceu no início do século XX, mas Daniela escolheu recuar 100 anos e contá-la como se tivesse se passado em 1821.

 A escravidão vira mera moldura, plano de fundo, com personagens negros sem voz, sem nome.

E é aí que, para mim, começa o grande problema: no filme, a escravidão vira mera moldura, plano de fundo, com personagens negros sem voz, sem nome, sem profundidade, sem desenvolvimento, servindo de escadas para os personagens brancos.

Durante a preparação para a conversa na televisão, li muita coisa que já foi publicada sobre o filme e assisti aos vídeos do polêmico debate no Festival de Cinema de Brasília.

Durante o evento no Distrito Federal, Daniela se assustou com os questionamentos – porque julgava ter feito o dever de casa para tratar de tema ainda tão distante da realidade e do cotidiano da maioria da população branca do país.

É interessante comparar o que realmente aconteceu com a percepção e a reação de Daniela, expostas em artigo escrito por ela alguns dias após ao debate. Citado no texto da diretora, o crítico de cinema Juliano Gomes escreveu em resposta um excelente e preciso texto, no qual define como “fragilidade branca” o comportamento de pessoas brancas quando confrontadas com suas ideias em relação à escravidão negra e ao racismo.

Cena do filme "Vazante", de Daniela Thomas

Cena do filme “Vazante”, de Daniela Thomas (Distribuição: Europa Filmes).

 

Reprodução: Youtube

O conceito foi cunhado pela professora estadunidense Robin DiAngelo,que nasceu branca e pobre e cresceu consciente de como a opressão de classe influenciava sua vida, mas sem muita noção de seu privilégio de cor. Na vida acadêmica, DiAngelo resolveu analisar a própria experiência nos grupos com os quais conviveu e como essa vivência contribuía para perpetuar o racismo.

O resultado é um trabalho interessante, que DiAngelo aprimorou durante os cursos em que fala de racismo e branquitude para plateias majoritariamente brancas. Vale a pena acompanhar também o caso da estudante canadense que está sendo acusada de “racismo reverso” e sofrendo um processo disciplinar em sua universidade por ter usado a expressão “fragilidade branca” em um post de Facebook.

Achei oportuno escrever sobre esse conceito porque também tenho pensado bastante nele ultimamente. Tenho feito palestras e ministrado cursos sobre racismo para plateias majoritariamente – e, às vezes, exclusivamente – brancas, e detectado comportamentos que se encaixam perfeitamente em sua descrição.

As consequências de um ambiente isolado de estresse racial

Segundo DiAngelo, “pessoas brancas vivem em um ambiente social que as protege e isola do estresse racial”. Este ambiente isolado (mediado por classe, instituições, representação cultural, mídia, livros, propaganda, discursos dominantes etc…) constrói a expectativa dos brancos de se manterem dentro de uma zona de conforto racial, ao mesmo tempo em que diminui a capacidade de tolerância ao estresse causado pelo assunto, levando à fragilidade branca.

Nesse estado, a mínima quantidade de estresse se torna intolerável, provocando uma série de atitudes defensivas, que incluem demonstrações de raiva, medo e culpa, e comportamentos como silenciamento e afastamento da situação que causou o estresse. Isto funciona para restabelecer o equilíbrio racial branco que, por sua vez, pode levar a um isolamento e uma proteção ainda maiores, que voltam a provocar o estresse quando acontece um novo confronto com o tema. Ou seja, um ciclo vicioso que impossibilita o diálogo aberto e honesto e mantém o status quo.

DiAngelo cita algumas situações que costumam provocar reações típicas dessa fragilidade branca:

Quando se sugere que o ponto de vista de uma pessoa branca também é moldado por referências racializadas – ou seja, quando alguém lembra de mencionar que branco também é raça, e não um padrão a partir do qual apenas as pessoas não brancas são racializadas.

Quando pessoas negras não querem compartilhar suas histórias ou responder questões sobre suas experiências raciais – pessoas brancas muitas vezes esperam que pessoas negras estejam sempre dispostas a educá-las em relação a assuntos raciais, sentindo-se frustradas ou “desobedecidas” quando isso não acontece.

Quando pessoas negras afirmam a importância de fazerem parte de um grupo – ao se negarem a abrir mão de uma identidade negra que as insere em um determinado grupo, em nome de demandas que lhe são caras e específicas, pessoas negras desafiam o individualismo liberal.

Quando pessoas negras salientam o acesso desigual a oportunidades, desafiando o conceito de meritocracia tão caro a pessoas brancas que acreditam que todos podem conseguir o que quiserem, desde que se esforcem.

Quando pessoas negras estão em posição de liderança ou de destaque — tanto no ambiente profissional quanto social ou cultural (em papéis centrais e não estereotipados em filmes, por exemplo) –, desafiando a ideia de centralidade e/ou liderança brancas.

O conceito de fragilidade branca também pode ser aplicado a outras questões, como fragilidade hétero ou masculinidade frágil, por exemplo.

DiAngelo enumera ainda outras situações em seu artigo, sendo que muitas podem ser facilmente observadas e identificadas em experiências cotidianas. É interessante observar que o conceito de fragilidade branca também pode ser aplicado a outras questões, como fragilidade hétero ou masculinidade frágil, por exemplo.

Ao mesmo tempo em que a reação conservadora é cada vez mais violenta ao avanço e ao não silenciamento das minorias, consigo ver o cenário atual com um pouco de otimismo: há rachaduras nas bolhas que envolvem as zonas de conforto, e o que antes parecia rigidamente estabelecido está sendo exposto com todas as suas fragilidades. O que agora pode ser apenas rachadura há de se tornar ruptura, porque nada volta a se recompor do jeito que era antes. Aos que estão atentos e dispostos a fazer o movimento: o desconforto é bom. É o que nos faz avançar.

https://theintercept.com/2017/11/16/o-que-a-polemica-sobre-o-filme-vazante-nos-ensina-sobre-fragilidade-branca/

O que tu indica? | Afroflix, uma plataforma de vídeos onde a gente negra se vê

No Afroflix, pode-se encontrar conteúdos audiovisuais com participação de gente negra

Mariana Reis*, no Brasil de Fato | Recife (PE), 03 de Agosto de 2017

Quantos filmes, séries, programas de televisão ou novelas você conhece com participação de negras e negros, seja como atrizes, atores… diretores, então, nem se fala!

Por isso, se você, além de ver TV, costuma assistir vídeos também pela Internet – como, por exemplo, via Youtube, ou serviços pagos como o Netflix –, uma dica interessante é conhecer o Afroflix, uma plataforma digital, colaborativa e gratuita criada pela cineasta baiana Yasmin Thayná, diretora de KBELA, O Filme (2015).

No Afroflix, pode-se encontrar conteúdos audiovisuais com participação de gente negra, seja no trabalho técnico ou artístico.

Isso quer dizer que, para a indicação de materiais, basta que a produção tenha a participação de, pelo menos, uma pessoa negra escrevendo o roteiro, protagonizando as histórias ou assinando a direção.

Além disso, qualquer pessoa pode se inscrever para participar ou indicar conteúdos para circulação online na plataforma, exclusiva para produções nacionais.

Hoje, estão disponíveis para assistir cerca de 100 materiais, entre documentários, ficções, webséries, vlogs, vídeoclipes, vídeos experimentais, entre outros produtos.

O objetivo do Afroflix é contribuir para que esses trabalhos circulem mais, sejam mais conhecidos, e também para que o povo afrobrasileiro – cerca de 53% da população, segundo dados do IBGE de 2016 – se sinta um bocadinho mais representado.

A ideia é fugir do óbvio, dando vez e voz pra quem faz cinema de uma forma diferente.

Assim, certamente você não vai encontrar lá os mesmos filmes que encontraria, por exemplo, numa sala de cinema de shopping ou numa TV comercial.

A perspectiva é justamente visibilizar o que a gente tem pouco acesso, rompendo com o lugar comum, que é o de perpetuar o imaginário sobre o povo negro sempre em segundo plano (quando aparecem, muitas vezes são representados como escravos, criminosos, etc).

E você, já conhecia o Afroflix? Tem algum filme da/do vizinha/o, amiga/o, namorada/o, pra indicar? E que tal fazer seu próprio filme? Acessa aí: http://www.afroflix.com.br e prepara a pipoca!

* Mariana Reis é jornalista e doutoranda na UFPE

Edição: Monyse Ravena

http://www.viomundo.com.br/politica/no-ar-o-afroflix-plataforma-onde-a-gente-negra-brasileira-se-ve.html

moonlight 1

Racistas reagem a Oscar para “negro, gay e maconheiro”

Por Eduardo Guimarães

 

Um dos blogueiros da Veja postou no Twitter um comentário sobre o vencedor do Oscar em 2017 – Moonlight: sob a luz do luar – que muitos estão considerando racista, por razões óbvias.

O comentário infeliz desse indivíduo se conecta a uma questão que muitos desconhecem…

Havia uma disputa maior na entrega do Oscar deste ano. Uma das produções candidatas a melhor filme era sobre um “gay, negro e maconheiro” arrastado para o lado errado pelas vicissitudes da vida; o adversário era um romance hiper açucarado protagonizado por uma bela loirinha de olhos claros.

Na segunda-feira, a Folha de São Paulo destacava o que chamou de “Oscar negro”. Foi ridículo. Se uma produção de brancos ganhasse o Oscar de melhor filme haveria matéria chamando a premiação em 2017 de “Oscar branco”?

Esse tipo de diferenciação é uma forma de preconceito e de desqualificação de uma etnia.

Em sete minutos, porém, os dois longas ganharam o Oscar de melhor filme. E esse episódio bizarro, que empanou a vitória de Moonlight sobre La la land, pode até não ter nada que ver com a disputa, mas nunca antes na história da Academia norte-americana de cinema ocorrera coisa igual.

Eis o que houve.

Fred Berger era o terceiro produtor de La la land a discursar quando a confusão começou. A estatueta não pertencia a ele e à sua equipe, como os atores Faye Dunaway e Warren Beatty haviam anunciado. O melhor longa-metragem da edição 2017 do Oscar, na noite de domingo, era Moonlight: sob a luz do luar, de Barry Jenkins.

A empresa PricewaterhouseCoopers (PwC), que audita a cerimônia do Oscar, assumiu a culpa, por meio de um comunicado. “Os apresentadores receberam o envelope da categoria errada. Quando descobrimos, isso foi imediatamente corrigido”, dizia o texto.

A atriz Jessica Chastain escreveu no Twitter, imediatamente: “Por que os produtores do show não correram para o palco quando o vencedor errado foi anunciado? Estou muito triste pela equipe de Moonlight. Gostaria que eles tivessem a experiência completa de ganhar o prêmio de melhor filme sem tanto constrangimento”.

Essa discussão sobre os méritos de Moonlight se espalhou ao menos pela elite de São Paulo. A turma do andar de cima fica enraivecida quando negros sobressaem e não engoliu a supremacia de um negro sobre a loirinha ideal.

O blogueiro da Veja apenas vocalizou discussão que vinha se dando nos salões dos ricaços paulistanos, enojados com a vitória da história de um “negro, gay e maconheiro” sobre o romance da personagem da estonteante Emma Stone”.

A forma calhorda desse sujeito de se referir a negros e homossexuais é um dos sintomas da ascensão do fascismo no Brasil.

Essa vergonha vai perdurar até que alguém mostre a essa gente que desqualificar o mérito de negros vencedores é incompatível com um país no qual negros e descendentes de negros são maioria.

http://www.blogdacidadania.com.br/2017/03/racistas-reagem-a-oscar-para-negro-gay-e-maconheiro/

Moonlight cast backstage during the 89th Annual Academy Awards at
Hollywood & Highland Center on February 26, 2017 in Hollywood, California.

Samuel L. Jackson gets emotional after Moonlight was revealed the Best Picture winner at the Oscars 2017.

“A Negra de…”, visões anticolonialistas

Por Cloves Geraldo

 

Em filme em que jovem vê seu sonho de viver na França se tornar pesadelo, cineasta senegalês Ousmane Sembène discute o colonialismo.

Na idílica sequência deste “A Negra de…” em que a jovem senegalesa Diouana (Mbissine Thérèse Diop) caminha sobre a mureta diante de sofisticado prédio em bairro nobre de Dacar, capital do Senegal, seu namorado (Momar Nar Seme), temendo que ela se machuque, se apressa em fazê-la descer. Porém, o espectador logo percebe que a intenção do cineasta Ousmane Sembène (1923/2007) é chamar atenção para o risco de eles serem expulsos da área reservada apenas às famílias francesas.

Este risco demarca toda a narrativa, seja na amarga lembrança do colonizador francês no país (1638/1960), seja na própria França, onde Diouana, incentivada pela patroa (Anne-Marie Jelinek) e o companheiro desta (Robert Fontaine), aceita viver no balneário Antibes, na Côte d´Azur. O acordo era para, em vez de doméstica, ser babá dos três filhos pequenos do casal. O que supostamente lhe permitiria levar uma boa vida.

A visão deste paraíso foi construída pelas fotografias de Paris e leituras da revista de moda Elle, com suas criações e modelos deslumbrantes. E ela, mesmo em Dacar, já usava vestido branco com estampas pretas, sapatos altos, colar e enorme brinco em formato de flor, também brancos. Estar em Antibes era o coroamento deste fugaz estilo e modo de vida.

Diouana se torna escrava na França

Ela se encanta no início ao deixar o aeroporto no carro do patrão e ter um quarto só para ela num prédio de alta classe média, mas logo se vê presa ao cotidiano de faz tudo. Não à toa o colonialismo, e hoje o imperialismo, atraiu milhões de jovens (e não só eles), para seu estilo de vida e sua suposta equidade econômico-financeira de “oportunidade para todos” para, depois, torná-los mão-de-obra barata.

Para Diouana, a França se torna o quadrilátero da janela, de onde avista a praia cheia de banhistas e a rica cordilheira de prédios. Não tem folga, não sai à noite, não recebe salário e, além disso, a patroa a atormenta com seguidas tarefas e quando recebe visitas para jantar, lhe faz soporíferos elogios. Enquanto o patrão se mostra compreensível, cita seus direitos, paga-lhe o salário, mas não a libera para “interagir” com o povo francês.

Sembène não se furta em desbastar o modo como o colonialismo francês fez o colonizado africano sofrer sua dupla exploração: 1) Ao se apropriar do território dele, de suas riquezas e de sua mão de obra barata; 2) De valer-se da propaganda de seu estilo de vida para continuar a explorá-lo na própria França. Crias deste sistema, os patrões não dão a Diouana a chance de enviar sequer míseros francos a Dacar para sustentar a mãe e o irmão pequeno.

Diouana responde com a maldição

Os momentos de troca entre eles são raros. Salvo ao presentear os patrões com uma máscara africana. Tanto que sua reação à dupla exploração se dá através do silêncio, da negativa de atender a patroa, no que redunda em tragédia. Neste entreato, Sembène se vale de síntese para ligar a sequência da máscara ao desfecho do filme. É quando o Patrão tenta indenizar a mãe de Diouana, que se recusa a receber, e ele, ao ser cercado pelo namorado dela e seus vizinhos no aglomerado, foge.

Segue-se então o brilhante e longo plano sequência em que o irmão de Diouana (Ibrahima Boy), usando a máscara africana, o persegue pelas ruelas e a passarela do aglomerado. E o marxista Sembène transforma a morte dela na danação do patrão, demarcada pelas batidas de percussão acelerada, em meio à multidão, utilizando recurso estético-dramático noir (Casa de Bambu, 1955), de Samuel Fuller (1912/1997), para, num contexto político-ideológico, denunciar o duplo horror colonialista.

Sua estreia em longa-metragem, o filme foi exibido na França em plena ebulição da Nouvelle Vague, tendo o mesmo frescor de “Acossado” (1960), de Jean Luc Goddard (1930). Em preto e branco, ele contrasta as atitudes dos patrões e os ambientes em que vivem com a leveza e o equilíbrio da africana Diouana, mostrando-a serena, ainda que fragilizada. Contudo, ela é duplamente vítima, por não ter sido alfabetizada e depender do casal.

Filme de estreia mostra seu vigor

Diretor de 13 filmes e escritor de 10 livros, Sembène fez sua estreia, em 1963, com o curta-metragem “O Carroceiro”, em que trata dos temas que seriam desenvolvidos em sua carreira. Em estilo neorrealista, ele expõe a vida do carroceiro que circula por Dacar transportando passageiros e cargas, até cair na armadilha de um usuário. E vai parar numa área só permitida a franceses. E o policial, além de multá-lo, confisca sua carroça e ele fica sem dinheiro para sustentar o filho e a mulher.

Ambos integraram a Mostra Clássicos Africanos, que exibiu 23 filmes de 16 cineastas africanos, de 8 a 22/09/2016, no Palácio das Artes de Belo Horizonte. São filmes terceiro-mundistas, que exerceram forte influência nos debates político-ideológicos dos anos 60/70 sobre a luta contra os imperialismos europeu e estadunidense. E cineastas como Sembène e o brasileiro Glauber Rocha (1938/1981), de Leão de Sete Cabeças (1970). integravam o grupo cujos filmes ajudaram a refletir sobre aquela época.

Negra de… (La noire de…), Drama. Senegal/França. 1966, 60 minutos. Montagem: André Gaudier. Fotografia: Christian Lacoste. Roteiro/direção: Ousmane Sembène. Elenco: Mbissine Thérèse Diop, Anne-Marie Jelinek, Robert Fontaine.

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