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EUA: Polícia californiana acusada de colaborar com militantes neo-nazis

Agentes terão pedido a elementos da extrema-direita para identificar activistas anti-racistas durante um protesto que degenerou em violência.

A polícia do estado norte-americano da Califórnia é suspeita de ter colaborado com elementos de um grupo neo-nazi, o Partido Tradicionalista dos Trabalhadores, para identificar e levar a tribunal activistas anti-racistas, noticia o jornal Sacramento Bee e Guardian. A acusação é sustentada por documentos da defesa de três activistas anti-fascistas que estão a ser julgados por distúrbios ocorridos numa manifestação em Sacramento, em Junho de 2016. Durante o protesto, pelo menos um dos arguidos sofreu ferimentos de arma branca.

Os documentos que integram o processo indicam a colaboração entre agentes da brigada de trânsito da polícia da Califórnia e vários membros do referido partido neo-nazi, e que estes foram encarados como vítimas pelas autoridades. É referido, por exemplo, o pedido de auxílio feito a um dos dirigentes da organização racista, Derik Punneo, para que este identificasse elementos anti-fascistas presentes no protesto em Sacramento. 

Punneo, segundo consta de relatórios judiciais, foi visitado por agentes na prisão, onde estava por crimes de violência doméstica, e terá identificado alvos através de fotografias. Registos áudio revelam que, em troca, a polícia ofereceu protecção  ao neo-nazi. “Vamos atrás deles. Olhamos para ti como uma vítima”, cita o Guardian.

A outro dirigente neo-nazi, Doug McCormack, organizador da marcha em Sacramento que motivou o protesto dos anti-racistas, não só foi prometida protecção como anonimato. Ao pedir autorização para o acto político, um responsável policial a cargo da investigação, Donovan Ayres, advertiu McCormack que, por lei, o seu nome seria listado publicamente. Ayres acabaria por solicitar que o nome não fosse divulgado. E segundo os documentos, o oficial tinha ainda conhecimento que o neo-nazi estaria na posse de uma arma branca durante a manifestação.

Tanto Punneo como McCormack não foram acusados de qualquer crime na sequência dos distúrbios que acabariam por ocorrer no evento.

Os relatórios de Ayres são exaustivos nas informações sobre os activistas anti-racistas, reiteradamente tratados como suspeitos na investigação aos distúrbios. Em relação a um destes, um cidadão afro-americano que foi esfaqueado durante os protestos, Ayres recomenda que seja acusado de 11 crimes. Do ficheiro do potencial suspeito, e como indício de uma suposta intenção criminosa, fazia parte uma fotografia retirada do Facebook, onde este aparecia com o punho cerrado e erguido, um dos símbolos da resistência negra. Sobre essa fotografia, o agente da polícia escreveu que mostrava a sua “intenção e motivação para violar os direitos civis” do grupo neo-nazi. O suspeito acabou por não ser acusado, mas o episódio é agora recuperado pela defesa dos arguidos levados a tribunal como exemplo da ausência de imparcialidade da polícia californiana. 

Leia o artigo completo em:

https://www.publico.pt/2018/02/10/mundo/noticia/policia-californiana-acusada-de-colaborar-com-militantes-neonazis-1802707?

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COMO MANTER UMA COLÔNIA

OU ELIMINAR UM CONCORRENTE

Por Mauro Santayana*

 

Inspirados pelo livro de 1937, de Dale Carnegie, “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, e por personagens recentes de nossa história, subitamente elevados à condição de celebridades, ousamos, como no caso do Pequeno Manual do Grande Manuel, nos aventurar no atrativo mercado das obras de auto-ajuda, em 15 passos (três a mais que os alcoólatras anônimos) com o tema “Como manter uma colônia ou eliminar um concorrente”.

Sem mais preâmbulos, vamos à receita:

1 – Comece por cortar a sua possibilidade de financiamento, apoiando a criação de leis que impeçam o seu endividamento, mesmo que ele tenha uma das menores dívidas públicas entre as 10 maiores economias do mundo e centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais, que você esteja devendo muito mais do que ele com relação ao PIB, e que ele seja o seu quarto maior credor individual externo.

2 – Apoie, por meio de uma mídia comprada cooptada ideologicamente e também de entrevistas de “analistas” do “mercado”, estudos e “relatórios” de “consultorias de investimento” controladas a partir de seu país e da pressão de agências de classificação de risco, às quais você não daria a menor bola, um discurso austericida, privatista e antiestatal para a economia do seu concorrente.
3 – Com isso, você poderá retirar das mãos dele empresas e negócios que possam servir de instrumento para o seu desenvolvimento econômico e social, inviabilizar o seu controle sobre o orçamento público, e eliminar a sua liberdade de investimento em ações estratégicas que possam assegurar um mínimo de independência e soberania em médio e longo prazo.
Companhias estatais são perigosas e devem ser eliminadas, adquiridas ou controladas indiretamente.

 

Elas podem ser usadas por governos nacionalistas e desenvolvimentistas (que você considera naturalmente hostis) para fortalecer seus próprios povos e países contra os seus interesses.
4 – Aproveite o discurso austericida do governo fantoche local para destruir o seu maior banco de fomento à exportação e ao desenvolvimento, aumentando suas taxas de juro e obrigando-o a devolver ao Tesouro, antecipadamente, centenas de bilhões em dívidas que poderiam ser pagas, como estava estabelecido antes, em 30 anos, impedindo que ele possa irrigar com crédito a sua economia e apoiar o capital nacional, com a desculpa de diminuir – simbólica e imperceptivelmente – a dívida pública.
5 – Estrangule a capacidade de ação internacional de seu adversário, eliminando, pela diminuição da oferta de financiamento, o corte de investimentos e a colocação sob suspeita de ações de desenvolvimento em terceiros países, qualquer veleidade de influência global ou regional.
Com isso, você poderá minar a força e a permanência de seu concorrente em acordos e instituições que possam ameaçar a sua própria hegemonia e posição como potência global, como o é o caso, por exemplo, da UNASUL, do Conselho de Defesa da América do Sul, do BRICS ou da Organização Mundial do Comércio.
6 – Induza, politicamente, as forças que lhe são simpáticas a paralisar, judicialmente – no lugar de exigir que se finalizem as obras, serviços e produtos em andamento – todos os projetos, ações e programas que puderem ser interrompidos e sucateados, provocando a eliminação de milhões de empregos diretos e indiretos e a quebra de milhares de acionistas, investidores, fornecedores, destruindo a engenharia, a capacidade produtiva, a pesquisa tecnológica, a infraestrutura e a defesa do país que você quer enfraquecer, gerando um prejuízo de dezenas, centenas de bilhões de dólares em navios, refinarias, oleodutos, plataformas de petróleo, sistemas de irrigação, submarinos, mísseis, tanques, aviões, rifles de assalto, cuja produção será interrompida, desacelerada ou inviabilizada, com a limitação, por lei, de recursos para investimentos, além de sucessivos bloqueios e ações e processos judiciais.
7- Faça a sua justiça impor, implacavelmente, indenizações a grandes empresas locais, para compensar acionistas residentes em seu território.
Se as ações caírem, quem as comprou deve ser bilionariamente compensado, com base em estórias da carochinha montadas com a cumplicidade de “relatórios” “produzidos” por empresas de “auditoria” oriundas do seu próprio país-matriz, mesmo aquelas conhecidas por terem estado envolvidas com numerosos escândalos e irregularidades.
Afinal, no trato com suas colônias, o capitalismo de bolsa, tipicamente de risco, não pode assumir nada mais, nada menos, do que risco zero.
8 – Concomitantemente, faça com que a abjeta turma de sabujos – alguns oriundos de bancos particulares – que está no governo, sabote bancos públicos que não estão dando prejuízo, fechando centenas de agências e demitindo milhares de funcionários, para diminuir a qualidade e a oferta de seus serviços, tornando as empresas nativas e o próprio governo cada vez mais dependentes de instituições bancárias – que objetivam primeiramente o lucro e cobram juros mais altos – privadas e internacionais.
9 – Levante suspeitas, com a ajuda de parte da imprensa e da mídia locais, sobre programas e empresas relacionadas à área de defesa, como no caso do enriquecimento de urânio, da construção de submarinos, também nucleares, e do desenvolvimento conjunto com outros países – que não são o seu – de caças-bombardeios.
Abra no território do seu pseudo concorrente escritórios de forças “policiais” e de “justiça” do seu país, para oferecer ações conjuntas de “cooperação” com as forças policiais e judiciais locais.
Você pode fazer isso tranquilamente – oferecendo até mesmo financiamento de “programas” conjuntos – passando por cima do Ministério das Relações Exteriores ou do Ministério da Justiça, por exemplo, porque pelo menos parte das forças policiais e judiciais do seu concorrente não sabem como funciona o jogo geopolítico nem tem o menor respeito pelo sistema político e as instituições vigentes, que são constantemente erodidas pelo arcabouço midiático e acadêmico – no caso de universidades particulares – já cooptados, ao longo de anos, por você mesmo.
Seduza, “treine” e premie, com espelhinhos e miçangas – leia-se homenagens, plaquinhas, diplomas, prêmios em dinheiro e palestras pagas – trazendo para “cursos”, encontros e seminários, em seu território, com a desculpa de “juntar forças” no combate ao crime e ao “terrorismo” e defender e valorizar a “democracia”, jornalistas, juízes, procuradores, membros da Suprema Corte, “economistas”, policiais e potenciais “lideranças” do país-alvo, mesmo que a sua própria nação não seja um exemplo de democracia e esteja no momento sendo governada por um palhaço maluco, racista e protofascista com aspirações totalitárias.

 

10 – Arranje uma bandeira hipócrita e “moralmente” inatacável, como a de um suposto e relativo, dirigido, combate à corrupção e à impunidade, e destrua as instituições políticas, a governabilidade e as maiores empresas do seu concorrente, aplicando-lhes multas bilionárias, não para recuperar recursos supostamente desviados, mas da forma mais punitiva e miserável, com base em critérios etéreos, distorcíveis e subjetivos, como o de “danos morais coletivos”, por exemplo.

 

11 – Corte o crédito e arrebente com a credibilidade das empresas locais e o seu valor de mercado, arrastando, com a cumplicidade de uma imprensa irresponsável e apátrida, seus nomes e marcas na lama, tanto no mercado interno quanto no internacional, fazendo com que os jornais, emissoras de TV e de rádio “cubram” implacável e exaustivamente cada etapa de sua agonia, dentro e fora do país, para explorar ao máximo o potencial de destruição de sua reputação junto à opinião pública nacional e estrangeira.

 

12- Dificulte, pelo caos instalado nas instituições, que lutam entre si em uma demoníaca fogueira das vaidades por mais poder e visibilidade, e pela prerrogativa de fechar acordos de leniência, o retorno à operação de empresas afastadas do mercado.

 

Prenda seus principais técnicos e executivos – incluídos cientistas envolvidos com programas de defesa – forçando-os a fazer delações sem provas, destruindo a sua capacidade de gestão, negociação financeira, de competição, em suma, no âmbito empresarial público e privado.

 

13 – Colha o butim resultante de sua bem sucedida estratégia de destruição da economia de seu concorrente, adquirindo, com a cumplicidade do governo local – que jamais teve mandato popular para isso – fabulosas reservas de petróleo e dezenas de empresas, entre elas uma das maiores companhias de energia elétrica do mundo, ou até mesmo uma Casa da Moeda, a preço de banana e na bacia das almas.
14 – Impeça a qualquer preço o retorno ao poder das forças minimamente nacionalistas e desenvolvimentistas que você conseguiu derrubar com um golpe branco, há algum tempo atrás, jogando contra elas a opinião pública, depois de sabotar seus governos por meio de simpatizantes, com pautas-bomba no Congresso e manifestações insufladas e financiadas de fora do tipo que você já utilizou com sucesso em outros lugares, em ações coordenadas de enfraquecimento e destruição da estrutura nacional local, como no caso do famigerado, quase apocalíptico, esquema da “Primavera Árabe” ou a tomada do poder na Ucrânia por governos de inspiração nazista.
15 – Finalmente, faça tudo, inclusive no plano jurídico, para que se entregue a sua colônia a um governo que seja implacável contra seus inimigos locais e dócil aos seus desejos e interesses, a ser comandado de preferência por alguém que já tenha batido continência para a sua bandeira ou gritado com entusiasmo o nome de seu país publicamente.

*http://www.maurosantayana.com/2018/01/do-blog-com-equipe-inspirados-pelo_18.html

Símbolo do Quilombhoje Literatura. Apareceu nos Cadernos Negros 5, de 1982. Desenho de Márcio Barbosa - Créditos: Quilombhoje LiteraturaSímbolo do Quilombhoje Literatura. Apareceu nos Cadernos Negros 5, de 1982. Desenho de Márcio Barbosa / Quilombhoje Literatura

Cadernos Negros:

40 anos de luta por narrativas negras

Por Débora Garcia

(…)

A primeira edição, em formato de bolso, reuniu oito poetas. Vendida de mão em mão, a publicação obteve um retorno expressivo daqueles que a acessaram, agregando cada vez mais pessoas que queriam se aquilombar em Cadernos Negros. Desde então, anualmente, foram lançadas outras edições alternado poemas e contos escritos por autores autodeclarados negros. Através de um chamamento público, os autores interessados em publicar enviam seus textos. Esses são avaliados por uma criteriosa banca, que seleciona os trabalhos aptos à publicação. Esse processo é de fundamental importância para manter a qualidade literária da série. Os autores selecionados participam do financiamento coletivo para a publicação e lançamento da obra. 

A grande repercussão e ampliação da série Cadernos Negros conduziram Cuti, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina e Abelardo Rodrigues, escritores precursores da série, ao aprimoramento da organização coletiva, tendo em vista, viabilizar a publicação anual da série, bem como, visibilizar e qualificar a discussão sobre a produção literária afro-brasileira. Desse processo, no ano de 1980 fundaram o Quilombhoje Literatura.

Passados 37 anos desde a sua fundação, o Quilombhoje Literatura atua como um importante coletivo literário e como a editora responsável pela publicação anual da série Cadernos Negros, trabalho coordenado pelos escritores e ativistas Esmeralda Ribeiro e Márcio Barbosa, com uma equipe de colaboradores voluntários. 

Ao longo dessas quatro décadas, Cadernos Negros se firmou como um espaço de resistência literária, social e política, agregando autores e autoras negras em âmbito nacional, afirmando o volume e a qualidade da produção literária afro-brasileira, constituindo-se em uma possibilidade para que escritores negros possam publicar suas narrativas, relevando grandes talentos, como a escritora Conceição Evaristo, que publicou pela primeira vez na edição número 12, no ano de 1990. Assim como eu, que publique a primeira vez na edição número 34 no ano de 2010, e muitos escritores e escritoras que tem em comum sua iniciação literária publicando em Cadernos Negros. 

Literatura e raça

A questão racial no Brasil se manifesta inclusive no campo literário. Essa perspectiva elucidou-se para mim quando me tornei escritora e leitora da chamada “literatura afro-brasileira”. Antes desses processos, não percebia a sutileza com a qual a literatura brasileira, ao longo da história, perpetua o legado de pobreza e estigmas que contribuem com os processos de marginalização da população negra. 

Regina Dalcastagnè, doutora em teoria literária pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), destaca-se por avaliar, em suas pesquisas, aspectos de desigualdade social na literatura brasileira. Em “A personagem do romance brasileiro contemporâneo:1990-2004“,sua mais expressiva pesquisa, analisou 258 obras publicadas pelas grandes editoras do país entre 1990 e 2004, traçando um importante perfil acerca do gênero, etnia e classe social, tanto dos autores quanto das personagens.

Algumas importantes constatações da pesquisa: 

Representatividade: As personagens brancas totalizam 92%. A pesquisa aponta também que em 56,6% dos romances levantados, não há nenhuma personagem negra, enquanto em somente 1,6% não há personagens brancas.

Intelectualidade: Os personagens brancos representados nos livros costumam ser os sujeitos mais intelectuais dos romances. Entre os negros, somente 17,3% pertencem à elite intelectual.

Perfil econômico: Foi verificado que 73,5% dos personagens negros são retratados como pobres e 12,2% como miseráveis.

Criminalidade: Dentre as personagens, 33,3% das crianças negras e 56,3% dos adolescentes negros eram dependentes químicos.

Etnia e gênero: Dos autores 93,9% eram brancos e 72,7% eram homens. 

Esses dados evidenciam que, na literatura brasileira, há a hegemonia histórica de uma narrativa branca, masculina, elitizada e estereotipada. Essa predominância pejorativa da forma de se representar pessoas negras solidificam no imaginário social coletivo estigmas sobre quem são essas pessoas, os espaços socais que devem ocupar e como devem ser tratadas. O que, grosso modo, caracterizam o racismo estrutural.

O panorama traçado por Regina Dalcastagnè já era perceptível para escritores e escritoras negros que, dentro e fora do ambiente acadêmico, questionavam os estigmas e a ausência de representação e representatividade negra na literatura brasileira. 

Foi nesse contexto de resistência e empreita pela construção de um espaço legítimo para as narrativas afro-brasileiras que, em 1978, foi criada a série Cadernos Negros, que  completa 40 anos de existência. 

O resgate desse processo histórico da Cadernos Negros em paralelo aos dados da pesquisa tem por objetivo responder uma pergunta com a qual, nós escritores negros, sempre nos deparamos: “É necessário rotular a sua literatura como negra, ou afro-brasileira, ou feminina?”. E com base nesses dados digo que sim, pois a literatura “universal” produzida até os dias atuais, não representa a diversidade de gênero e étnica de um país majoritariamente formado por mulheres e negros. Por isso não se trata de rótulo, trata-se de posicionamento político, da demarcação do lugar de fala desses autores, autoras e de suas personagens. 

Serviço:

Lançamento Cadernos Negros Volume 40 – Contos Afro-Brasileiros

Data: 16/12/2017 (sábado)  Horário: 17h30

Local: Academia Paulista de Letras – Largo do Arouche, 324  

Entrada gratuita

 

*Débora Garcia é poetisa, gestora cultural, idealizadora e artista no coletivo Sarau das Pretas.

Extraído de: https://www.brasildefato.com.br/2017/12/15/cadernos-negros-40-anos-de-luta-por-narrativas-negras/

Ken Saro-Wiwa

No dia 10 de novembro de 1995, morreu Ken Saro-Wiwa. Foi um escritor, produtor de televisão e ecologista nigeriano. Lutou contra a degradação da vida das pessoas, terras e águas do delta do Níger. Acabou executado.
Por António José André.

Saro-Wiwa liderou o MOSOP (Movimento pela Sobrevivência do Povo Ogoni) organização pacifista que lutava contra a degradação do delta do Níger, explorado por várias petrolíferas, entre as quais a Shell. 

Por causa do seu ativismo, Saro-Wiwa foi preso a mando do regime militar de Sani Abacha, em 1994. Num processo judicial fraudulento, foi condenado à morte com mais oito ativistas. 

Os nove ativistas foram condenados, apesar dos múltiplos protestos internacionais e da diplomacia silenciosa das organizações internacionais, incluindo a União Europeia.

Estes nove ativistas foram enforcados, no dia 10 de novembro de 1995. A execução destes ativistas gerou contestação internacional, de tal modo que a Nigéria foi suspensa da Commonwealth durante mais de três anos.

As petrolíferas no rio Níger

Em 1958, as petrolíferas começaram a transformar as terras férteis de Ogoni, que segundo Saro-Wiwa eram um “paraíso”, numa paisagem lunar negra. As operações de produção de petróleo contaminaram o solo. Essa exploração irresponsável trouxe aos camponeses pobreza e doenças.

O MOSOP exigiu que as áreas danificadas fossem reabilitadas, e que a população também partilhasse os lucros do petróleo. Lucros que constituem cerca de 90% das receitas do Governo nigeriano, através das quais vários regimes militares e elites corruptas financiam as suas vidas luxuosas.

Indenizações da Shell

Em janeiro de 1993, 300 mil pessoas manifestaram-se para exigir o pagamento de indemnizações e a reparação causada por danos ambientais. O regime do ditador Sani Abacha reagiu com violência aos protestos e ocupou a região dos Ogoni.

Em 2009, a empresa Shell, reconhecendo a sua implicação na morte dos nove ativistas, pagou 15,5 milhões de dólares às famílias das vítimas, esperando assim minimizar os efeitos negativos da sua imagem neste caso.

Segundo a ONU, serão precisos, pelo menos, mais 30 anos para que sejam superados os danos ambientais no delta do Níger.

Extraído de: http://www.esquerda.net/artigo/memorias-ken-saro-wiwa/51952

Os invisíveis da sociedade, Jesus e o fascismo

Por Pedro Breier

Larissa foi morta a pauladas em um hotel na cidade de São Paulo, ontem. Larissa era transexual e morreu cruelmente apenas por existir. O Brasil é o campeão em homicídios de LGBTs nas Américas, de acordo com o relatório da ILGA (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais).

Um homem ficou preso 11 meses “preventivamente” sob a acusação de tráfico pela posse de 0,26g de crack. Após quase um ano na prisão, ele ainda não havia sido citado para que o processo criminal fosse, vejam bem, iniciado. A defensoria pública de São Paulo conseguiu colocá-lo em liberdade recorrendo ao STF, já que o TJ-SP e o STJ negaram o habeas corpus.

Essas duas notícias tão chocantes quanto corriqueiras abrem a semana que antecede o natal de 2017.

Seria interessante usarmos a data que simboliza o nascimento de Jesus – um cara com ideias poderosas, meio hippies, que foram usadas deturpadamente por muita gente para angariar poder e riquezas, de imperadores romanos a pastores evangélicos que pregam a picareta teologia da prosperidade – para refletirmos sobre o fato de não termos entendido nada do que ele quis dizer.

A Bíblia não deixa margem para dúvidas. Jesus pregava o amor universal. Incondicional. Amai ao próximo como a si mesmo. Ofereça a outra face.

Andava com prostitutas, pecadores, leprosos, adúlteros, os excluídos da época. “Atire a primeira pedra quem nunca pecou”, lembram?

Mais de 2 mil anos depois, os excluídos continuam existindo em profusão. A cor da pele, o gênero, a sexualidade ou a classe social ainda determinam quem tem direito a viver com dignidade e quem pode ser tratado como a escória da sociedade sem maiores consequências.

A intolerância contra os marginalizados é alimentada, suprema hipocrisia, por aqueles que se dizem os mais cristãos, os fieis seguidores do Jesus.

A crise econômica mundial fez brotar o fascismo que estava escondido no coraçãozinho empedernido de muita gente. A piora das condições de vida faz com que as pessoas deem ouvidos a quem oferece respostas fáceis para os problemas.

Não faz sentido algum jogar a população contra grupos já excluídos quando a raiz dos problemas é a concentração da riqueza com um número incrivelmente baixo de pessoas em detrimento da esmagadora maioria da população.

Entretanto, é muito mais fácil direcionar a raiva e o ódio para aqueles que não têm como se defender do que para os poderosos. Bolsonaro sabe muito bem disso.

Enquanto continuarmos achando que a vida é uma competição insana por riqueza, poder e status e que é natural que uns poucos consigam chegar ao “sucesso” e muitos vivam em condições sub-humanas, estaremos fadados a repetir o que fazemos a milhares de anos: matarmo-nos estupidamente enquanto meia dúzia de poderosos controlam a vida de todos os demais.

Só quando os invisíveis da sociedade – como os transexuais e os usuários de crack que passam por sofrimentos inimagináveis por causa do nosso descaso – deixarem de sê-lo poderemos nos tornar uma sociedade verdadeiramente justa.

https://www.ocafezinho.com/2017/12/18/os-invisiveis-da-sociedade-jesus-e-o-fascismo/

A revelação de O assalto ao trem pagador: Eliezer Gomes no papel de Tião Medonho

Sobre o Filme “O Assalto ao Trem Pagador”

Por José Eugênio Guimarães

(…)

As tensões crescem entre os membros da quadrilha desde o momento da partilha. É quando se percebe, pela primeira vez, a presença de Eliezer Gomes, o intérprete de Tião Medonho. Preenche a tela e a banda de som com sua movimentação e voz. Fora, até então, mero funcionário público de 42 anos sem experiência na atuação. Oferece um desempenho afinado, poliédrico, insuperável. Pode passar de sujeito cordato (como normalmente aparenta ser), pai carinhoso e marido compreensivo a um vulcão prestes a explodir, violento, na imposição de sua ascendência sobre os demais. A ele pertence o filme. Tião garante o cumprimento da barreira dos 10% junto aos companheiros. Em princípio, não é algo difícil de fazer, graças ao seu poder de intimidação acrescido do fato de que todos são seus vizinhos, exceto Grilo. Este, branco, louro e de olhos azuis, mora em condições remediadas na Zona Sul do Rio. Por suas características, põe-se acima dos demais e gasta além das medidas acordadas, sem despertar suspeitas. O rompimento do acordo, baseado em critérios raciais, é explosivo. Expõe uma das principais fissuras, não só do bando mas da sociedade brasileira em sua conformação histórica. Negros e favelados estão, por suas próprias origens, condenados à marginalidade estrutural. Basicamente, estão impedidos de ascender. O assalto serve como metáfora para acirrar a realidade dessa impossibilidade prática. Inclusive pelo fato logo revelado acerca dos membros da quadrilha: não são bandidos na estrita acepção do termo. São homens marginalizados, acuados pela miséria, vítimas de uma situação que não podem individualmente solucionar por seus próprios méritos. O dinheiro não resolve o problema. Apenas queima dedos, gera desconforto, impõe a paranoia e desencadeia a violência.

As condições de vida na favela são chocantes. Crianças nuas e barrigudas, brincando próximas ao esgoto correndo sob céu aberto, são os aspectos mais evidentes. Também há o fantasma da morte, sempre presente. Pode-se morrer devido à violência ou por banais problemas de saúde. Cachaça — pequena e marcante interpretação de Grande Otelo —, membro da quadrilha sempre alcoolizado — para alegria dos guris —, encontra na bebida o refúgio para suportar a vil situação. De que vale o dinheiro que recebeu? Diante do féretro de um menor, pronuncia com cortante ênfase: “Quando morre uma criança na favela, todo mundo devia cantar, pois é menos um pra se criar nessa miséria”.

Grande Otelo no pequeno e marcante papel de Cachaça

Na exposição da cruel exclusão característica da estratificação social brasileira, O assalto ao trem pagador é um dos painéis mais fortes e contundentes. Explicita o alijamento econômico de amplos setores e seus prolongamentos lógicos nas esferas social, política e civil. Tião Medonho e os demais estão destituídos de todos os direitos básicos que comportam a cidadania. Disso são exemplares os tratamentos que recebem da polícia e dos jornalistas posicionados no papel de parceiros da investigação e repressão. Estão constantemente ameaçados. Têm os casebres invadidos e revirados por qualquer pretexto. Ao final, Zulmira (Maranhão) — já na condição de viúva de Tião Medonho — se desespera com o acintoso assédio de repórteres e investigadores. Diante dos filhos menores e assustados, responde à agressão com golpes de machado deferidos contra o guarda-roupa, no que revela significativa parte do dinheiro roubado.

Zulmira (Luiza Maranhão) e Tião Medonho (Eliezer Gomes)

A direção de Roberto Farias é exemplar, principalmente por manter o ritmo em tensão crescentemente acelerada e por tocar em mazelas sociais que expõem a cruel e original desigualdade brasileira. Dos dois lados do aparato legal a violência surge como forma conveniente de resolver conflitos. Tião Medonho procura manter os que lhe são próximos dentro de limites condizentes com o tolerável, para evitar suspeitas. Mesmo quando dialoga, está no limite da explosão violenta. São exemplares os momentos em que enquadra Cachaça — sempre falando demais devido à bebida —, Edgar — em decorrência da paranoia crescente de Margarida —, ou o sobrinho Miguel Gordinho (Ângelo) — que se torna, segundo a caracterização de um repórter, capitalista do morro por adquirir vários barracos para aluguel, com os quais explora acintosamente os mais necessitados. Tião também cumpre o trágico mandamento de matar, sem piedade, quem põe em risco a segurança dos demais. É exemplar o instante da execução do tio de Edgar: “Tu é o valente que não tem medo de homem, não é? Levanta que não mato homem sentado”. É uma das falas antológicas do cinema brasileira. Ou quando acerta as contas com o perdulário Grilo, momento em que se acirram as diferenças sociais e raciais em níveis raras vezes permitidos pela dissimulação brasileira — tão zelosa no ocultamento dessas questões. O personagem vivido por Reginaldo Faria, totalmente imobilizado, sabe que morrerá. Sem nada a perder, dispara: “Você tem inveja de mim, Tião. Você é feio. Eu sou branco e bonito. Seu destino é viver na favela. Eu tenho cara de ter carro, tenho olho azul e você tem cara de macaco”. Vêm à tona, com força, as permissões e interdições nacionais decretadas pela aparência, inclusive a cor da pele.

Veja o ensaio completo em:

http://cineugenio.blogspot.com.br/2016/02/roberto-farias-se-projeta-no-assalto-de.html

Teju Cole © Tim Knox / eyevine

Um corpo negro

Por Teju Cole

Em 1951, James Baldwin foi o primeiro negro a botar os pés em Leukerbad. No vilarejo suíço, que vivia alheio à luta pelos direitos civis, encontrou um espelho do racismo disseminado pelo mundo e, sobretudo, do combate contra o preconceito travado nos Estados Unidos. Sua passagem pelo balneário dos Alpes resultou em “O estranho no vilarejo”, ensaio hoje clássico que a serrote 26 publicou pela primeira vez no Brasil. O texto serviu de bússola a Teju Cole, que refez a viagem decisiva de Baldwin para escrever “Um corpo negro”, incluído na mesma edição. Seis décadas depois, o mundo, como constatara o autor de Notas de um filho desta terra, jamais voltaria a ser branco.

Então o ônibus começou a passar por dentro de nuvens, e entre uma nuvem e outra vislumbramos a cidadezinha lá embaixo. Estava na hora do jantar, e ela era uma constelação de pontos amarelos. Chegamos 30 minutos depois de sair da outra cidadezinha, que se chamava Leuk. O trem para Leuk viera de Visp, o trem de Visp viera de Berna, e o trem anterior era de Zurique, de onde eu havia saído à tarde. Três trens, um ônibus, uma breve caminhada, tudo isso atravessando uma bela região, e então chegamos a Leukerbad quando estava escuro. Afinal, Leukerbad, que não era longe em termos de distância abso­luta, não era tão acessível assim. Dois de agosto de 2014: era aniversário de James Baldwin. Se ele estivesse vivo, estaria completando 90 anos. Ele é uma daquelas pessoas que estão no limite do contemporâneo, deslizando para o histórico − John Coltrane estaria fazendo 88 neste ano; Martin Luther King Jr. faria 85 −, pessoas que ainda poderiam estar conosco, mas que, às vezes, pare­cem muito distantes, como se tivessem vivido há séculos.

James Baldwin saiu de Paris e veio a Leukerbad pela primeira vez em 1951. A família de seu namorado, Lucien Happersberger, tinha um chalé em um vilarejo no alto das montanhas. E então lá foi Baldwin, que na época estava deprimido e disperso, e o vilarejo (que também tem o nome de Loèche-les­-Bains) acabou sendo um refúgio para ele. Essa primeira viagem aconteceu no verão e durou duas semanas. Depois, para sua surpresa, ele voltou em outros dois invernos. Seu primeiro romance, Go Tell It on the Moun­tain, encontrou sua forma final aqui. Ele vinha lutando com o livro havia oito anos e, finalmente, o concluiu nesse retiro improvável. Também escreveu outra coisa, um ensaio cha­mado “O estranho no vilarejo”; foi esse ensaio, até mais do que o romance, que me trouxe a Leukerbad.

“O estranho no vilarejo” foi publicado pela primeira vez na Harper’s Magazine em 1953, e depois na coletânea Notes of a Native Son, em 1955. O texto relata a experiência de ser negro em um vilarejo só de brancos. Começa com a atmosfera de uma viagem radical, como a de Charles Darwin a Galápagos ou a de Tété-Michel Kpomassie à Groenlândia. Mas então se abre para outras preocupações e para uma voz diferente, passando a olhar a situação racial americana nos anos 195 0. A parte do ensaio que trata do vilarejo suíço é tão confusa quanto triste. Baldwin atenta para o absurdo de ser um escritor nova-iorquino que, de alguma maneira, é considerado inferior pelos suíços daquele vilarejo, muitos dos quais jamais saíram dali. Porém, adiante no ensaio, quando escreve sobre raça nos Estados Unidos, ele não é nem um pouco confuso. É iracundo e profético, escreve com clareza dura, conduzido por uma eloquência vertiginosa.

Hospedei-me no Hotel Mercure Bristol na noite em que cheguei. Abri as janelas para a escuridão, mas eu sabia que nela se escondia a montanha Daubenhorn. Abri a torneira da banheira e afundei até o pescoço na água quente, com meu velho exemplar barato de Notes of a Native Son. O som baixo do meu laptop era Bessie Smith cantando “I’m Wild about That Thing”, um blues picante e uma obra-prima da dissimulação: “Don’t hold it baby when I cry/ Give me every bit of it, else I’d die/ I’m wild about that thing”. A letra que ela canta poderia se referir a um trombone. E foi ali, na banheira, com as pala­vras dele e a voz dela, que tive meu momento dublê de corpo: ali estava eu em Leukerbad, com o canto de Bessie Smith vindo de 1929, atravessando os anos; e sou negro como ele; e sou magro; e também tenho os dentes da frente espaçados; e não sou especialmente alto (não, escreve: baixo); e sou frio no papel e caloroso pessoalmente, a não ser quando sou jus­tamente o contrário; e fui também um fervoroso pastor na adolescência (Baldwin: “Nada que já me aconteceu a partir de então iguala o poder e a glória que eu às vezes sentia quando, no meio de um sermão, sabia que era, de alguma maneira, por algum milagre, realmente o portador, como eles dizem, da ‘Palavra’ − quando a igreja e eu éramos um só”); e também eu abandonei a igreja; e considero Nova York meu lar, mesmo quando não estou morando lá; e me sinto em toda parte, da cidade de Nova York à Suíça rural, o guardião de um corpo negro, e preciso encontrar a linguagem para tudo o que isso signi­fica para mim e para as pessoas que olham para mim. O ancestral brevemente tomou posse do descendente. Foi um momento de identificação e, nos dias seguintes, esse momento foi um guia.

“A julgar por todas as evidências disponíveis, jamais um homem negro pôs os pés neste minúsculo vilarejo suíço antes de mim”, Baldwin escreveu. Mas o vila­rejo cresceu razoavelmente desde a sua visita, mais de 60 anos atrás. Agora eles já tinham visto negros; eu não era uma atração. Notei alguns olhares discretos no hotel, quando me registrei, e no restaurante elegante da mesma rua, mas as pessoas sempre olham. As pessoas olham em Zurique, onde estou passando o verão, assim como olham em Nova York, onde moro há 14 anos. Há olhares por toda a Europa e na Índia, e em qualquer outro lugar fora da África. O teste é ver quanto duram esses olhares, se eles se tornam olhares fixos, com que intenção ocorrem, se contêm algum grau de hostilidade ou zombaria, e até que ponto meus contatos, meu dinheiro ou modo de vestir me protegem nessas situações. Ser um estranho é ser olhado, mas ser negro é ser olhado de uma forma espe­cial. (“As crianças gritam Neger! Neger! quando passo na rua.”) Leukerbad mudou, mas de que maneira? Não havia, de fato, bandos de crianças na rua, havia poucas crianças em geral. Provavelmente as crianças de Leukerbad, como as crianças do mundo todo, estavam dentro de casa, vidradas em jogos de computador, che­cando o Facebook ou assistindo a vídeos de música. Talvez alguns dos velhos que vi na rua fossem as mesmas crianças que haviam ficado tão surpresas ao verem Baldwin, e sobre quem, no ensaio, ele se esforça para falar em um tom sensato: “Em tudo isso, ainda que seja preciso reconhecer o encanto de um genuíno des­lumbramento, sem qualquer crueldade intencional, nada sugeria que eu fosse humano: eu era apenas uma curiosidade ambulante”. Agora, porém, os filhos ou netos daquelas crianças estão conectados ao mundo de um modo diferente. Tal­vez certa xenofobia ou certo racismo façam parte da vida deles, como também o fazem Beyoncé, Drake e Meek Mill, a música que ouço pulsar nas boates suíças nas noites de sexta-feira.

Nos anos 1950, Baldwin teve que trazer seus discos, como se fossem remé­dios escondidos, e precisou subir com seu toca-discos até Leukerbad, para que o som do blues americano pudesse mantê-lo em contato com um Harlem espiritual. Ouvi algumas dessas músicas enquanto estive lá, como um modo de estar com ele: Bessie Smith cantando “I Need a Little Sugar in My Bowl” (“I need a little sugar in my bowl/ I need a little hot dog on my roll”), Fats Waller cantando “Your Feet’s Too Big”. Ouvi também minha própria seleção: Bettye Swann, Billie Holiday, Jean Wells, Coltrane Plays the Blues, The Physics, Childish Gambino. A música que ouvimos durante uma viagem nos ajuda a criar nosso clima interior. Mas o mundo também participa: quando almocei no restau­rante Römerhof certa tarde − naquele dia, todos os fregueses e funcionários eram brancos −, a música tocando acima de nossas cabeças era “I Wanna Dance with Somebody”, de Whitney Houston. A história é hoje, e a América é negra.

Na hora do jantar, em uma pizzaria, mais olhares. Uma mesa de turistas ingle­ses ficou me encarando. Mas a garçonete era de origem negra, e um dos funcioná­rios do spa do hotel era um senhor negro. “As pessoas estão presas na história, e a história está presa dentro delas”, Baldwin escreveu. Porém, também é verdade que pequenos pedaços de história se movem pelo mundo a uma velocidade tre­menda, validando uma lógica nem sempre clara, e raramente válida por muito tempo. E talvez mais interessante do que eu não ser a única pessoa negra no vila­rejo seja o simples fato de muitas outras pessoas que vi também serem estran­geiras. Essa foi a maior mudança de todas. Se, na época, o vilarejo tinha um ar piedoso e convalescente, uma espécie de “pequena Lourdes”, hoje é muito mais próspero, cheio de visitantes de outras partes da Suíça, Alemanha, França, Itália e de toda a Europa, da Ásia e das Américas. Tornou-se o maior balneário termal dos Alpes. Os banhos municipais estavam cheios. Há hotéis em todas as ruas, de todos os preços, e há restaurantes e lojas de luxo. Hoje, quem quiser pode com­prar um relógio pelos olhos da cara a 1.400 metros acima do nível do mar.

Os melhores hotéis possuem suas próprias piscinas termais. No Mercure Bristol, peguei um elevador, desci até o spa e entrei na sauna seca. Minutos depois, entrei na piscina e boiei sobre a água quente. Havia outros hóspedes, mas não muitos. Caía uma chuva fina. Estávamos cercados por montanhas e suspensos naquele azul imortal.

*

 

James Baldwin

Em seu brilhante romance Harlem Is Nowhere, Sharifa Rhodes-Pitts escreve:

Em quase todos os ensaios que James Baldwin escreveu sobre o Harlem, há um mo­mento em que ele faz um truque literário tão peculiar que, se ele fosse um atleta, os locutores acabariam codificando a manobra e diriam que ele “fez o Jimmy”. Penso nisso em termos cinematográficos, porque seu efeito me faz lembrar de uma técnica em que a câmera se afasta de um detalhe para uma panorâmica enquanto a lente permanece com o foco em um determinado ponto distante.

Esse movimento, essa súbita abertura do foco, está presente até mesmo em seus ensaios que não tratam do Harlem. No ensaio “O estranho no vilarejo”, há um trecho de umas sete páginas em que se pode sentir a retórica se avolumar, enquanto Baldwin se prepara para deixar para trás a atmosfera calma, fabular, da abertura. Sobre os moradores do vilarejo, ele escreve:

Essas pessoas não poderiam ser, do ponto de vista do poder, estranhos em nenhum lugar do mundo; na verdade, elas fizeram o mundo moderno, mesmo que não sai­bam disso. O mais iletrado deles é próximo, de uma maneira que eu não sou, de Dante, Shakespeare, Michelangelo, Ésquilo, Da Vinci, Rembrandt e Racine; a cate­dral de Chartres lhes diz alguma coisa que não diz a mim, como também diria o Empire State de Nova York, se alguém aqui um dia o visse. De seus hinos e danças, saíram Beethoven e Bach. Volte alguns séculos, e eles estão em plena glória − mas eu estou na África, assistindo à chegada dos conquistadores.

O que essa lista quer dizer? Será que Baldwin realmente se incomoda que as pessoas de Leukerbad estejam familiarizadas, ainda que difusamente, com Chartres? Que uma linhagem genética remota as associe aos quartetos de Beethoven? Afinal, como ele defende adiante no ensaio, ninguém pode negar o impacto da “presença do negro no caráter americano”. Ele entende a ver­dade e a arte no trabalho de Bessie Smith. Ele não considera, e não poderia considerar − quero crer −, o blues inferior a Bach. Mas havia certa limitação na recepção das ideias sobre a cultura negra nos anos 1950. A partir de então, houve uma quantidade suficiente de realizações culturais para se compilar uma seleção de astros negros: houve Coltrane e Monk e Miles, e Ella e Billie e Aretha. Toni Morrison, Wole Soyinka e Derek Walcott aconteceram, assim como Audre Lorde e Chinua Achebe e Bob Marley. O corpo não foi abandonado em detrimento do espírito: Alvin Ailey, Arthur Ashe e Michael Jordan aconte­ceram também. A fonte do jazz e do blues também deu ao mundo o hip-hop, o afrobeat, o dancehall e o house. E, sim, quando James Baldwin morreu, em 1987, ele também foi reconhecido como um astro.

Pensando ainda na catedral de Chartres, na grandeza daquela realização e em como, para ele, ela incluía negros apenas no negativo, como demônios, Baldwin escreve que “o negro americano chegou à sua identidade graças à absoluta alienação de seu passado”. Mas o remoto passado africano se tornou muito mais acessível do que era em 1953. A mim não teria ocorrido pensar que, séculos atrás, eu estaria “na África, assistindo à chegada dos conquistadores”. Mas desconfio de que, para Baldwin, isso seja, em parte, uma jogada retórica, uma cadência severa para terminar um parágrafo. Em “A Question of Identity” (outro ensaio incluído em Notes of a Native Son), ele escreve: “A verdade sobre o passado não é que ele seja recente demais, ou superficial demais, mas apenas que nós, tendo desviado os olhos tão decididamente para longe dele, jamais exigimos dele o que tem para dar”. Os artistas da corte de Ifé, no século 14, fizeram esculturas de bronze usando um complicado método de moldes per­dido na Europa desde a Antiguidade, só redescoberto no Renascimento. As esculturas de Ifé se igualam a obras de Ghiberti ou Donatello. Por sua precisão e suntuosidade formal, podemos extrapolar traços de uma grande monar­quia, uma rede de ateliês sofisticados e um mundo cosmopolita de comércio e conhecimento. E não era só em Ifé. Toda a África Ocidental era uma efervescên­cia cultural. Do governo igualitário dos Ibos à ourivesaria das cortes de Ashanti, das esculturas em latão do Benin às conquistas militares do império Mandinka e aos músicos que louvaram esses heróis guerreiros, essa foi uma região do mundo que investiu profundamente na arte e na vida para ser reduzida à cari­catura de “assistir à chegada dos conquistadores”. Hoje sabemos mais do que isso. Sabemos pelas pilhas de trabalhos acadêmicos que corroboram tal pen­samento e sabemos implicitamente, de modo que a própria ideia de fazer uma lista de realizações parece um tanto entediante, servindo apenas como forma de se contrapor ao eurocentrismo.

Eu jamais trocaria, sob nenhuma condição, a intimidante beleza da poesia iorubá por, digamos, sonetos de Shakespeare, ou as koras do Mali pelas orques­tras de câmara de Brandemburgo. Sou feliz por dispor de tudo isso. Essa con­fiança despreocupada é, em parte, uma dádiva do tempo. É um dividendo da luta de pessoas das gerações anteriores. Eu não me sinto excluído nos museus. Mas essa questão da filiação atormentava bastante Baldwin. Ele era sensível ao que havia de grande no mundo da arte e sensível à sua própria sensação de exclusão daquele mundo. Ele fez uma lista parecida em Notes of a Native Son (aqui começamos a achar que esse tipo de lista lhe ocorria em meio a discussões): “Em certo sentido sutil, de maneira realmente profunda, tratei Shakespeare, Bach, Rembrandt, as pedras de Paris, a catedral de Chartres e o edifício Empire State com uma atitude especial. Não são criações minhas na verdade, não contêm minha história; posso procurar para sempre e não encon­trarei nelas nenhum reflexo meu. Eu era um intruso; aquele não era meu patri­mônio.” As linhas latejam de tristeza. Aquilo que ele ama não o ama de volta.

É aí que me distancio de Baldwin. Não discordo da sua tristeza particular, mas da abnegação que o levou a ela. Bach, tão profundamente humano, é meu patrimônio. Não sou um intruso olhando um retrato de Rembrandt. Eu me importo com essas coisas mais do que algumas pessoas brancas, assim como algumas pessoas brancas se importam mais com alguns aspectos da arte afri­cana do que eu. Posso me opor à supremacia branca e, ainda assim, adorar arquitetura gótica. Nisso, estou com Ralph Ellison: “Os valores do meu povo não são ‘brancos’ nem ‘negros’, são americanos. Nem posso ver como poderiam ser outra coisa, uma vez que somos um povo envolvido na textura da experiên­cia americana.” E, no entanto, eu (nascido nos Estados Unidos mais de meio século depois de Baldwin) continuo a entendê-lo, porque experimentei no meu corpo a fúria incontida que ele sentia do racismo que lhe impunha limi­tes por todos os lados. Em seus escritos, há uma fome de viver, uma fome de tudo o que existe, e um forte desejo de não ser considerado um nada (um mero crioulo, um mero neger), logo ele, que sabia tão bem o próprio valor. E esse tão bem não tem a ver com egocentrismo no que escreve nem com algum tipo de ansiedade em relação à sua fama em Nova York ou Paris. São os princípios incontestáveis de uma pessoa: prazer, tristeza, amor, humor, luto e a complexi­dade da paisagem interior que sustenta esses sentimentos. Baldwin ficava per­plexo que alguém, em algum lugar, questionasse esses princípios, oprimindo-o assim com a suprema perda de tempo que é o racismo, e oprimindo em tantas outras pessoas em tantos outros lugares. Essa capacidade incansável de se cho­car exala como fumaça de suas páginas. “A fúria do menosprezado é pessoal­mente infrutífera”, ele escreve, “mas é absolutamente inevitável”.

Leukerbad deu a Baldwin um modo de pensar sobre a supremacia branca a partir de seus princípios originais. Era como se ali ele os encontrasse em sua forma mais simples. Os homens que sugeriram que ele aprendesse a esquiar para que pudessem zombar dele, os moradores que o acusaram pelas costas de ser ladrão de lenha, aqueles que quiseram tocar seu cabelo e sugeriram que o deixasse crescer para fazer um casaco pesado, e as crianças que, tendo aprendido “que o diabo é um homem negro, gritam com uma angústia genuína” quando ele se aproximava: Baldwin viu neles protótipos (preservados como celacantos) de atitudes que evoluiriam para as formas mais íntimas, intrincadas, familiares e obscenas de supremacia branca americana que ele conhecia tão bem.

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É um belo vilarejo. Gostei do ar da montanha. Mas quando voltei dos banhos termais para o meu quarto, depois de um passeio pelas ruas com a minha câ­mera, li as notícias na internet. Encontrei uma sequência infindável de crises: no Oriente Médio, na África, na Rússia e em toda parte, realmente. Era uma dor geral. Mas naquela aflição maior havia um conjunto de histórias interliga­das, e pensar sobre “O estranho no vilarejo”, pensar com sua ajuda, foi como injetar um contraste em meu encontro com o noticiário. A polícia americana continuava atirando em homens negros desarmados ou matando-os de outras maneiras. Os protestos que se seguiam, nas comunidades negras, eram enfren­tados com violência por uma força policial que vem se tornando praticamente a mesma coisa que um exército invasor. As pessoas começavam a ver a conexão entre os vários acontecimentos: os tiros, os estrangulamentos fatais, as histó­rias de quem não recebeu o remédio que salvaria uma vida. E as comunidades negras transbordavam de indignação e luto.

Em tudo isso, uma história menor, menos significativa (mas que ao mesmo tempo significa muito), chamou minha atenção. O prefeito de Nova York e seu chefe de polícia têm uma obsessão por políticas públicas de limpeza, por higie­nizar a cidade, e decidiram que prender integrantes de companhias de dança que se apresentam em vagões do metrô em movimento é uma maneira de lim­par a cidade. Li as desculpas para que isso se tornasse uma prioridade: algumas pessoas têm medo de se machucar com algum chute imprevisto (ainda não aconteceu, mas elas já estão com medo), algumas pessoas consideram aquilo um incômodo, alguns políticos acham que perseguir essas pequenas infra­ções é uma maneira de prevenir crimes mais graves. E assim, para combater a ameaça dos dançarinos, a polícia interveio. Ela começou a perseguir, a assediar, a algemar. O “problema” eram os dançarinos, e os dançarinos eram, em sua maioria, meninos negros. Os jornais adotaram o mesmo tom do governo: total desdém pelos dançarinos. E, no entanto, esses mesmos dançarinos são um raio de luz em pleno dia, um momento de beleza sem controle, artistas com talentos inimagináveis para aquele público. Que tipo de pensamento conside­raria que bani-los é uma melhoria para a vida da cidade? Ninguém considera o doces ou travessuras do Dia das Bruxas uma ameaça pública. A lei não interfere com as bandeirantes que vendem seus biscoitos ou com as testemunhas de Jeová. Mas o corpo negro vem prejulgado e, como resultado, é tratado com pre­conceitos desnecessários. Ser negro é enfrentar o peso seletivo dos agentes da lei e viver na instabilidade psíquica de não ter garantia nenhuma da segurança pessoal. Antes de mais nada, você é um corpo negro, antes de ser um menino andando na rua ou um professor de Harvard que não encontra as chaves.

William Hazlitt, em ensaio de 1821 intitulado “The Indian Jugglers”, escreveu palavras que me ocorrem quando vejo um grande atleta ou dançarino: “Homem, és um animal maravilhoso, e teus modos estão além do entendimento! Fazes coi­sas grandiosas, mas como se não fossem grandes coisas! – Conceber o esforço de tal extraordinária destreza distrai a imaginação e deixa sem fôlego a admiração.” Na presença do admirável, há quem fique sem fôlego não de admiração, mas de fúria. Fazem-se objeções à presença do corpo negro (um menino desarmado na rua, um homem comprando um brinquedo, um dançarino no metrô, um pas­sante) tanto quanto à presença do intelecto negro. E simultaneamente a esses apagamentos ocorre a infindável coleta dos lucros obtidos do trabalho negro. Em toda nossa cultura, existem imitações dos passos, do porte e dos trajes do corpo negro, uma cooptação vampiresca de “tudo menos o fardo” da vida negra.

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Leukerbad é rodeada de montanhas: a Daubenhorn, a Torrenthorn, a Rinderhorn. Um passo de montanha chamado Gemmi, 850 metros acima do vilarejo, conecta o cantão de Valais com o Oberland Bernês. Por essa paisagem − escarpada, nua em alguns lugares, verdejante em outros, um caso exemplar do sublime −, movemo-nos como por um sonho. O passo de Gemmi é famoso por bons motivos, e Goethe esteve lá, assim como Byron, Twain e Picasso. O passo é mencionado em uma aventura de Sherlock Holmes, quando ele o atravessa para o fatídico encontro com o professor Moriarty nas cataratas de Reichenbach. O tempo estava ruim no dia em que subi até lá, com chuva e neblina, mas foi uma sorte, porque assim pude ir sozinho pela trilha. Enquanto estava lá, lembrei­-me de uma história que Lucien Happersberger contou de quando Baldwin saiu para caminhar por essas montanhas. Na subida, ele se desequilibrou, e por um instante a situação ficou tensa. Mas Happersberger, que era um alpinista tarim­bado, estendeu a mão, e Baldwin se safou. Foi desse momento de pavor, desse mo­mento de apelo bíblico, que Baldwin tirou o título para o livro que vinha tentando escrever: Go Tell It on the Mountain.

Se Leukerbad foi seu púlpito na montanha, os Estados Unidos eram seu público. O vilarejo remoto lhe deu uma visão mais precisa de como as coisas estavam em casa. Ele era um estranho em Leukerbad, Baldwin escreveu, mas não era possível para os negros serem estranhos nos Estados Unidos, nem para os brancos realizarem a fantasia de um país totalmente branco, expurgado dos negros. Essa fantasia da vida negra como algo descartável é uma constante na história americana. As pessoas ainda custam a entender que essa descartabili­dade permanece. Os brancos custam a entender; pessoas não negras de cor cus­tam a entender; e alguns negros, seja porque sempre viveram nos Estados Uni­dos, seja porque são retardatários como eu, nutridos em outras fontes de outras lutas, custam a entender. O racismo americano possui muitas engrenagens e já teve séculos suficientes para desenvolver uma impressionante camuflagem. É capaz de acumular sua maldade por muito tempo quase sem se mover, o tempo todo fingindo olhar para o outro lado. Como a misoginia, é atmosférico. A prin­cípio, você não o vê. Mas depois você entende.

“As pessoas que fecham os olhos para a realidade simplesmente estão pedindo pela própria destruição, e qualquer um que insista em permanecer em estado de inocência tanto tempo depois da morte da inocência acaba sendo um monstro.” As notícias do dia (notícias velhas, mas sangrentas como uma ferida recente) dizem que a vida negra americana é descartável do ponto de vista da polícia, da Justiça, da política econômica e de inúmeras formas terríveis de desprezo. Há uma animada encenação de inocência, mas não sobrou mais nenhuma inocên­cia de fato. A conta moral continua tão no negativo que ainda nem conseguimos começar a tratar da questão das reparações. Baldwin escreveu “O estranho no vilarejo” há mais de 60 anos. E agora?

 

Romancista e fotógrafo, Teju Cole (1975) nasceu nos Estados Unidos e foi criado na Nigéria. É escritor residente do Bard College e crítico de fotografia da New York Times Magazine. É autor do celebrado ro­mance Cidade aberta(Companhia das Letras, 2012) e de Known and Strange Things, coletânea de ensaios de 2016 que inclui “Um corpo negro”, publicado originalmente na New Yorker.
Tradução de Alexandre Barbosa de Souza

https://www.revistaserrote.com.br/2017/08/um-corpo-negro-por-teju-cole/