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Exposição

Mostra aborda história e cultura de povos indígenas do Rio de Janeiro

Com obras, fotografias, vídeos e instalações, ‘Dja Guata Porã – Rio de Janeiro Indígena’, em cartaz no Museu de Arte do Rio, potencializa diversidade cultural de povos presentes em território carioca

São Paulo – Sepetiba, Cachambi, Tijuca, Catumbi, Ipanema, Guaratiba, Inhaúma, Jacarepaguá, Irajá, Paraty, Itaboraí, Niterói, Itaguaçu, Itatiaia. São muitos os nomes de locais que evidenciam a estreita relação indígena com a cidade e o estado do Rio Janeiro. Mas a exposição Dja Guata Porã – Rio de Janeiro Indígena, em cartaz até março de 2018 no Museu de Arte do Rio (MAR), vai além de nomes e palavras. A mostra traz fotografias, vídeos, instalações, objetos, maquetes, documentos, linha do tempo e outras formas artísticas e históricas que resgatam a trajetória e a cultura dos povos indígenas para refletir criticamente sobre seu presente e futuro.

Segundo a equipe curatorial composta por Sandra Benites, José Ribamar Bessa, Pablo Lafuente e Clarissa Diniz, a exposição visa mostrar uma história que ainda não é amplamente visível: “Não apenas pelos nomes, mas fundamentalmente pela cultura e história do Rio de Janeiro, podemos afirmar que grande parte do ‘ser carioca’ é inseparável de sua herança indígena – o próprio termo ‘carioca’ advém, segundo registros etnográficos, da aldeia tupinambá Kariók, localizada aos pés do que hoje é o Outeiro da Glória. Essa presença, contudo, não é amplamente visível, nem reconhecida. A história indígena do Rio de Janeiro ainda se mantém encoberta, assim está silenciada a presença dos povos indígenas e sua enorme contribuição à nossa vida cotidiana e à nossa capacidade de imaginar o futuro”.

A exposição foi concebida a partir de colaboração com povos, aldeias, movimentos e indígenas do Rio de Janeiro, como fruto de um processo de diálogo feito entre 2016 e 2017 com a equipe do museu. O resultado é uma mistura de práticas museológicas e indígenas que apresenta ao espectador a polifonia, a pluralidade e a diversidade cultural indígena de Guaranis, Puris, Pataxós e aqueles que moram em contexto urbano, a exemplo da Aldeia Maracanã.

Organizada em quatro núcleos, a mostra é subdividida em estações temáticas desenvolvidas com a colaboração de Josué Kaingang, Eliane Potiguara, Anari Pataxó, Niara do Sol e Edson Kayapó. Elas são dedicadas a questões comuns da vida de grande parte dos indígenas no Rio de Janeiro e no Brasil: comércio, educação, arte, mulheres e natureza. Esta última é uma horta comunitária sob cuidados indígenas localizada fora do espaço expositivo, em uma ocupação na Praça Mauá.

Dja Guata Porã: Rio de Janeiro Indígena quer intervir com uma reflexão sobre a realidade indígena no Rio de Janeiro hoje, bem como sobre o passado que desaguou neste presente. Se a recente história política brasileira tem precipitado a emergência de uma luta indígena organizada, com pautas amplas e precisas (do respeito pela diversidade à demarcação de terras), os museus, como lugares da cultura do presente, precisam fazer eco a essa luta”, afirma o texto curatorial.

Dja Guata Porã: Rio de Janeiro Indígena
Quando: até 4 de março de 2018, de terça a domingo, das 10h às 17h
Onde: Museu de Arte do Rio (MAR)
Praça Mauá, 5, Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Quanto: R$ 20, R$ 10 (meia-entrada) e grátis às terças-feiras
Mais informações: www.museudeartedorio.org.br/ (21) 3031-2741

http://www.redebrasilatual.com.br/entretenimento/2017/05/mostra-aborda-historia-e-cultura-de-povos-indigenas-do-rio-de-janeiro

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Insegurança jurídica e a estratégia do caos

Por Paulo Cannabrava Filho

Dias sombrios nos esperam. O que esperar de um judiciário que é o mais caro do mundo? O que esperar de um legislativo que é o mais caro do mundo?

Desde os tempos coloniais, passando pelos tempos em que isto aqui foi reino e império, atravessando a república dos coronéis dos latifúndios até a nova e a novíssima República, advogados e juízes foram formados para defender o status quo e ser parte do poder dominante.

Com relação ao legislativo, casual ou estrategicamente, este é o pior da história da política brasileira, seja com relação ao nível intelectual (lembram da sessão que aprovou o impedimento da presidenta?), mas principalmente com relação às questões morais.

Entrar no judiciário ou na política é projeto de ascensão social, enriquecer a custa do erário. Da classe média às hostes oligarcas dos poderosos.
Deslumbrados com o poder e a exposição midiática perderam o senso, se crêem acima do bem e do mal, deuses salvadores da pátria.

A justiça vale para uns e não vale para outros. A ação ilegal repercute na mídia para uns e é silenciada para os demais. Exemplo: 600 mil presos no Brasil, mais de 50% sem julgamento. Outro exemplo: no lugar de punir pessoas estão punindo empresas, provocando desmontagem de formidáveis parques industriais, jogando fora esforço de desenvolvimento tecnológico, deixando um saldo de desemprego em massa, como está ocorrendo principalmente no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

A insegurança jurídica se tornou um fantasma para os empresários, para os investidores. Em que país um processo leva dez anos para proferir uma sentença? E os custos advocatícios que isso implica?

Diz a ONU que com esse congelamento das despesas por 20 anos, decretada por Temer, as futuras gerações é que estão condenadas. É certo. No momento apenas sobrevivemos, mas só no curtíssimo prazo, pois estão desmantelando o país, vendendo tudo na bacia das almas: terras, minérios, petróleo, água (o mais valioso bem), infraestrutura, espaço aéreo, soberania… As futuras gerações comerão capim ou engrossarão as filas de imigrantes ou de refugiados.

Vergonha alheia

Pesquisa Nacional IPSOS de março de 2017 indica que 78% da população desaprova o atual governo e que, para 90% o Brasil está no caminho errado. Lula não é unanimidade com 59% de desaprovação. Contudo, é o que tem o mais alto índice de aprovação entre os políticos. Os que têm as mais altas taxas de aprovação são os juízes de alta exposição na mídia: Moro 63%, Joaquim Barbosa, 51%.

Essa pesquisa é bem anterior ao escândalo da lista do juiz Edson Fachin: 98 pessoas sendo 8 ministros, 24 senadores, 39 deputados, três governadores, inclusive o santo que governa São Paulo, Geraldo Alckmin. Isso só na lista da Odebrecht. E há outras listas, como a lista de Janot e de outros processos, envolvendo as outras empreiteiras como a Camargo Correia, Andrade Gutierres…

Não sobra ninguém. Com exceção de Itamar Franco, todos os que ocuparam a Presidência da República: Sarney, Collor, Fernando Henrique, Lula, Dilma. As vestais de todos os partidos: Aécio Neves, Romero Jucá, José Dirceu, Aloysio Nunes (atual chanceler), José Serra (ex chanceler), Palocci…
Michel Temer, presidente de turno, por estar presidente não pode ser investigado por crimes anteriores ao mandato. É Lei. Não escaparia pois são muitos os seus crimes, assim como os dos presidentes da Câmara e do Senado.

Depois dos vazamentos ilícitos o juiz tornou públicas as delações dos 78 executivos da Odebrecht. As perguntas que não se pode calar: Como é possível que processos que correm em segredo de justiça se tornem públicos? Quem são os responsáveis?

Na realidade o que houve foi que jogaram um balde de merda no ventilador. Com que intenção?

Nessa fase, valendo ainda a presunção de inocência, tudo permanecerá como está. O próprio Temer disse que no governo não haverá mudança até que provem que há culpa e haja condenação. Pior que isso, Temer afirma que a ofensiva pelas reformas (leia-se maldades) prosseguirá.

São reformas todas muito polêmicas, como da previdência e a das normas do trabalho. Que moral tem esse governo para conduzir essas reformas? Num país sério com judiciário a serviço da nação, todos esses atos deste governo espúrio, seriam declarados nulos.
Haverá ainda condições que declarar nulidades dos atos de Temer?

Quanto tempo levará o judiciário para analisar tantos processos? O processo sobre o pedido de anulação da eleição da dupla Dilma e Temer, por exemplo, só agora, passados quatro anos, quando já deposta a presidenta e em véspera de novas eleições é que está chegando à fase de julgamento. Sensação de enorme perda de tempo. Mas não será talvez este, ou seja, as futuras eleições o que move o ventilador?
Senão, qual o propósito de tamanho escândalo aproveitado pela mídia?

Estará o judiciário tramando a tomada do poder? Rompida a linha sucessória –vice-presidente, presidentes da Câmara e do Senado- cabe ao presidente do Supremo assumir o governo. Na história deste nosso país o judiciário sempre esteve, mais que conivente, presente nos golpes de Estado, governando interinamente ou validando juridicamente a ilegalidade.

É preciso recuperar a segurança jurídica

É incrível. Somente agora, menos de um mês da lista de Fachin, quando não dava mais para esconder as barbaridades cometidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, em função das outras listas, um supremo juiz admite que “não é correto fazer das ações da justiça espetáculo, que o abuso do poder gera insegurança jurídica”. E é de pasmar! o supremo ministro é o presidente do Tribunal em que se move o Fachin, provocando escândalo maior ainda.
Insegurança jurídica, incerteza política, tudo leva a nação a um surto psicótico: depressão, medo, paranóia, raiva contida, ódio ao outro, pânico…
O supremo juiz pôs o dedo na ferida mas, já não consegue estancar a sangria. Tardia manifestação.

Com a conivência da suprema corte é que juízes, delegados e agentes federais têm desrespeitado as Leis, violado os direitos fundamentais garantidos pela nossa legislação e tratados internacionais. Arvorados em salvadores da pátria, os juízes já se crêem acima do bem e do mal.

Nunca deveriam ter permitido que o mal se impusesse, menos ainda que se alastrasse, se incrustasse contaminando toda instituição. Essa insegurança jurídica já é ameaça à estabilidade do Estado à segurança da Nação.

Como recuperar a credibilidade da Justiça, condição que assegura a segurança jurídica?

Creio que a responsabilidade é de toda a sociedade. Deve haver um movimento que envolva a população em torno dessa bandeira. A bandeira do respeito às Leis, da garantia dos direitos humanos. Os que entendem de leis é que devem iniciar esse movimento: mais que os advogados, todas as pessoas envolvidas com a advocacia, dos cursos de direito aos conselhos profissionais. Advogados com apoio da sociedade civil num movimento para devolver dignidade à Justiça.

Nós sabemos que os juízes foram formados para defender as instituições do Estado, a propriedade privada, as leis que asseguram o funcionamento do capitalismo e do Estado democrático pensado pelos que aprovaram a Constituição de 1988 – a Constituição Cidadã. Para que funcionem as instituições e o próprio capitalismo é preciso Segurança Jurídica.

Parece até que resolveram acabar com o capitalismo. Oxalá assim fosse se tivéssemos alternativa de construir outro modelo de Estado, um estado socialista em que não houvesse mais exploração de um ser humano por outro. A realidade, no entanto, é que tampouco admitem outro modelo.

O certo é que enquanto a nação se distrai, mais uma das bacias de Campos e de Santos do Pré-sal foi posta em leilão. É a quarta chamada aos investidores. Na terceira quem levou foi a francesa Total. Quem levará esta?

A que serve a insegurança jurídica?

Serve à estratégia de implantação do caos que vem sendo executada pelo Império, quer dizer, pelos Estados Unidos e o conglomerado dos senhores de todas as guerras e de todas as fortunas. Serve ao pensamento único imposto pela ditadura do capital financeiro. Ou é a ditadura do pensamento único imposta pelos senhores donos do mundo?

A estratégia do caos tem como objetivo a dominação de um país. Passa pela desestabilização política e pela desorganização da produção com a finalidade de impor as leis que melhor lhes convém e se apropriar das riquezas naturais e do mercado.

Ajuda a entender o que está ocorrendo no país, e a quem serve a Insegurança Jurídica e a estratégia de implantação do caos, ler o livro de John Perkins, “Confissões de um Assassino Econômico”, da editora Cultrix. Para ter um ideia disso pode ler a matéria publicada por Diálogos do Sul sobre a atuação do “assassino econômico” no Equador nos dias de hoje, repetição do que acontece na Argentina e no Brasil, aconteceu no México, no Peru e está no auge na Venezuela.

Essa estratégia de implantação do caos para a dominação requer a eliminação da concorrência. Quando eles não conseguem implantar o caos por meio de seus agentes qualificados e os servos nacionais, apelam para a guerra, invadem o país como fizeram no Iraque, na Líbia entre outros.

Tomemos o Iraque como exemplo. Lá o petróleo era estatal e os recursos serviam para o desenvolvimento econômico e social. Como não conseguiram desestabilizar o governo, invadiram, destruíram o país, mataram e/ou anularam as lideranças, implantaram o caos. As empresas brasileiras que participavam da construção da infraestrutura tiveram que sair por causa da guerra. Assim também as empresas de alimentos. Destruído o país entraram as empresas estadunidenses para a reconstrução e para o abastecimento. O petróleo agora, de ninguém, é saqueado pelas transnacionais. Assim de simples.
Pior ainda é o que ocorreu na Líbia, nem o Estado sobrou. Ou o que ocorre no Afeganistão. A mesma estratégia de implantação do caos que está sendo aplicada na Síria.

Gente: o que está em jogo aqui no Brasil é a Soberania Nacional.

São Paulo, abril de 2017

*Paulo Cannabrava Filho é jornalista e editor chefe da Diálogos do Sul.

Jovens manifestantes em Montgomery, Alabama

Jovens manifestantes em Montgomery, Alabama, início dos anos 1960

Italo Calvino sobre a discriminação racial e a luta

pelos direitos civis nos EUA. Por Camila Nogueira

Os trechos abaixo foram retirados dos diários que Italo Calvino (1923 – 1985), escritor italiano nascido em Cuba, escreveu durante uma viagem que fez, no início dos anos 60, aos Estados Unidos.

Qual a importância do dia 6 de março de 1960 para o senhor?

É um dia que não esquecerei enquanto for vivo. Eu vi o racismo com meus próprios olhos, o racismo de massa, aceito como uma das regras fundamentais da sociedade. Presenciei um dos primeiros episódios de luta por parte dos negros sulistas – que terminou em uma derrota. Após décadas de completa imobilidade, os protestos por parte dos negros foram iniciados em um dos piores estados segregacionistas do país. Alguns obtiveram sucesso, sob a liderança de Martin Luther King, um ministro batista, adepto da não-violência.

De que episódio estamos falando?

A cena aconteceu no capitólio de Alabama. Os estudantes negros (da universidade negra) declararam que protestariam pacificamente naquela região contra a expulsão de nove de seus colegas, que tinham tentado se sentar na cafeteria dos brancos em Court Hall. Perto da uma hora e meia, eles se encontraram na igreja batista próxima ao capitólio. Mas este já estava repleto de policiais com cassetetes e da Polícia Rodoviária com seus chapéus de caubói, coletes azul-turquesa e calças-cáqui. As calçadas estavam cheias de brancos – em sua maioria brancos pobres, que são os maiores racistas, prontos para usar seus punhos, jovens delinquentes que atacam em grupo (sua organização, que é somente ligeiramente clandestina, chama-se Ku Klux Klan), mas também pessoas de classe média alta, famílias com crianças, todos lá para assistir e gritar obscenidades contra os negros.

Qual era a atitude da multidão?

Ela variava entre o escárnio, como se estivessem vendo macacos exigindo direitos civis – escárnio genuíno, sentido por pessoas que jamais imaginaram que os negros viriam, um dia, a reivindicar tais coisas –, e o ódio.

Nesse momento os negros ainda estavam dentro da igreja?

Sim. Quando estavam prestes a sair, a polícia bloqueou os degraus do capitólio, enquanto a multidão bloqueou todos os pavimentos. Agora furiosa, a multidão gritava “Saíam daí, negros!” Os negros desceram os degraus de sua igreja e começaram a cantar um hino; os brancos passaram a uivar e a insultá-los. A polícia e a milícia permaneceram a postos, se precisassem evitar incidentes.

Não havia nenhum branco favorável à população negra?

Havia um ministro metodista, o único homem em Montgomery corajoso o bastante para assumir uma posição. Como resultado, a Ku Klux Klan bombardeou sua casa e sua igreja um par de vezes.

Hmmm…

E então começou a pior parte. Os negros saíram da igreja pouco a pouco. Uma parte deles entrou em uma rua que não fora ocupada pelos brancos, mas outros desceram em grupos pequenos a Dexter Avenue, andando silenciosamente com as cabeças erguidas em meio a ofensas e a ameaças. A cada insulto ou dito espirituoso proferido por um branco, outros iguais a ele, homens ou mulheres, punham-se a rir, por vezes com uma insistência quase histérica, mas também por vezes de maneira afável, e essas pessoas, suponho, são as mais cruéis – esse racismo esmagador combinado com afabilidade.

Havia muitas mulheres negras?

Sim, e as jovens negras eram as mais admiráveis. Elas caminhavam em grupos contendo duas ou três, e os valentões cuspiam no chão diante de seus pés e bloqueavam o caminho seguido por elas, obrigando-as a desviar deles. Enquanto ouviam abusos e por vezes eram agredidas, as jovens negras continuavam a conversar entre si, como se nada de detestável estivesse acontecendo – ou como se estivessem acostumadas a essa cena desde o seu dia de nascimento.

O senhor chegou a conhecer Martin Luther King. O que pensou dele?

Ele é um político cuja única arma é o púlpito. A sua não-violência é a única forma de luta possível e ele a usa com a habilidade política controlada que a aspereza das condições em que ele e seus companheiros se desenvolveram ensinou-lhe. Os líderes negros – cheguei a conhecer muitos deles, de diferentes tendências – são pessoas lúcidas e determinadas, totalmente desprovidos de sentimentos de autopiedade.

Em sua viagem, o senhor conviveu tanto com militantes negros quanto com a famosa aristocracia sulista. Qual a sua opinião a respeito da última?

A aristocracia do sul dos Estados Unidos me dá a impressão de ser particularmente burra em seu esforço contínuo para resgatar as glórias da Confederação; esse patriotismo, que os leva a se dirigir a você como que convictos de que você compartilha de suas emoções, é algo mais insuportável do que ridículo. A questão racial é algo maldito: por um século, o sul dos Estados Unidos não falou nem pensou em nada além disso, só nesse problema, os progressistas e os reacionários igualmente.

Algo a acrescentar?

O que conta é o que somos, e o modo como aprofundamos a nossa relação com o mundo e com os outros, uma relação que pode envolver tanto o amor por tudo que existe quanto o desejo de que tais coisas passem por transformações.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/italo-calvino-sobre-a-discriminacao-racial-e-a-luta-pelos-direitos-civis-por-camila-nogueira/

MARINHA AGRIDE, INTIMIDA E AMEAÇA

COMUNIDADE QUILOMBOLA NA BAHIA

Por Ana Maria Gonçalves*

OS POUCOS QUILÔMETROS que separam a guarita fortemente vigiada por oficiais da Marinha do vilarejo de casas pertencentes às famílias que resistem no Quilombo Rio dos Macacos contam mais do que uma história recente: fazem parte de um cerco.

A palavra quilombo vem do Quimbundo, língua banta falada em Angola, e significa união, acampamento, arraial, povoação. No Brasil, no contexto da escravidão, tornou-se lugar de resistência dos povos escravizados e, segundo o mestre Nei Lopes, tem dupla conotação: uma toponímica e outra ideológica. Para acabar com um quilombo era necessário fazer o cerco – tática que vem sendo aprimorada e empregada há séculos pelo governo brasileiro.

Nesse caso específico, a Marinha brasileira quer atacar o quilombo na sua raiz, na fonte que lhe deu o nome: o Rio dos Macacos. Já tinha construído uma barragem, que tirava o curso do rio de dentro do território quilombola, e, agora, segue com a construção de um muro, que vai impedir que os moradores tenham acesso à água. É o cerco se fechando.

Mapa Complexo Naval de Aratu (BA)

Os moradores são descendentes de escravizados das fazendas que produziam cana de açúcar para o antigo Engenho Aratu. Com a falência do engenho, muitas famílias permaneceram no local, uma área de aproximadamente 900 hectares, até que, nas décadas de 1950 e 1960, foram surpreendidas pela doação de suas terras para a Marinha do Brasil.

Apesar de estarem no município de Simões Filho, a doação foi feita pelo então prefeito de Salvador, Nelson Oliveira. Desde então, foi feita a barragem do rio, construída uma Vila Militar para 450 famílias, e o único acesso ao quilombo é feito através de uma guarita controlada pelos militares. A vila conta com estrutura de escola e hospital que não podem ser usados pelos quilombolas.

O acesso é restrito aos moradores cadastrados e, durante muito tempo, cada um deles teve que portar uma carteirinha que o chamava de “invasor”. Mas mesmo esta carteirinha não garantia o acesso, que continua sendo dificultado em muitas situações, a depender da boa vontade ou da maldade de quem está de guarda.

Esses casos são julgados e analisados pelos próprios militares que, quase que invariavelmente, inocentam-se a si mesmos

Moradores contam que que, apesar de autorizados, nem sempre a Marinha permite a entrada de carros da SAMU para fazer atendimento médico dentro do quilombo, e o índice de analfabetismo é bastante grande porque crianças e jovens, ao saírem do território para buscarem as escolas na região, tinham a entrada dificultada. Inúmeros casos de intimidação e agressão física já foram realtados.

Quando denunciados pelos moradores, esses casos são julgados e analisados pelos próprios militares que, quase que invariavelmente, inocentam-se a si mesmos, alegando falta de provas e apontando a existência de uma campanha de difamação por parte dos quilombolas. Muitos deles, analfabetos ou analfabetos funcionais, foram obrigados a assinar depoimentos contendo declarações que não tinham feito. Fica o dito pelo não dito.

Da área de 900 hectares, o Incra reconheceu apenas 301, sendo que, destes, 196 ficaram para a Marinha, que alega serem de “interesse estratégico à defesa nacional”. Os outros 104, divididos em duas áreas não contíguas, foram destinados à comunidade. Insuficientes, segundo eles, para o modo de vida que levam.Pela dificuldade de entrar e sair, mesmo porque o acesso é precário, eles têm dificuldades em encontrar emprego fora do quilombo. Basicamente precisam ser autossuficientes, tendo lá dentro tudo de que necessitam para viver. Uma das atividades era a pesca na barragem, que foi proibida.

A Marinha ainda briga para ficar com tudo, resultando em ordens de despejo que precisavam ser contestadas periodicamente. Na área ocupada pelos moradores não há saneamento básico ou água encanada. Energia elétrica foi conquistada apenas agora no início de fevereiro, ainda por ser instalada. Os quilombolas moram em casas bastante precárias, boa parte delas construídas em adobe, que a Marinha não deixa reformar. Na maioria delas não há sequer banheiro, que precisa ser improvisado. Eles também são impedidos de realizar novas construções. Nem mesmo podem repor as casas que foram destruídas, sem qualquer explicação ou mandado, pelo próprio governo. As que permanecem de pé, resistindo como seus moradores, podem ser invadidas a qualquer momento, inclusive por militares montados a cavalo; caso que já aconteceu.

Quilombo Rio dos Macacos

Cerca de 90 famílias vivem em casas precárias em que não conseguem fazer reformas.
Foto: Thiago Dezan

Estive no Rio dos Macacos no início de 2016, numa grande reunião celebratória dos avanços na luta pela regularização do território, e estas foram apenas algumas das histórias de horror que ouvi.

Recentemente, o governo brasileiro achou por bem acrescentar mais um capítulo na luta dos resistentes. Depois de protestarem contra a construção do muro que os separa da barragem de onde retiram, artesanalmente, a água para sua subsistência, os moradores foram surpreendidos com o que se pode chamar de retaliação. No ano passado, haviam conseguido que o Exército construísse uma estrada de acesso à comunidade, sem que fosse necessário passar pela guarita da Vila Naval. A obra foi suspensa, com os militares recolhendo materiais e equipamentos. Os quilombolas resistem, mas o cerco se fecha. Topográfica e ideologicamente.

ATUALIZAÇÃO: após a publicação desta matéria a Marinha enviou seu posicionamento ao The Intercept Brasil a respeito das denúncias sobre o quilombo Rio dos Macacos. Confira as respostas neste link.

*https://theintercept.com/2017/02/08/marinha-agride-intimida-e-ameaca-comunidade-quilombola-na-bahia/

 

África do Sul:

Fidel está ligado a nossa liberdade, diz ativista

Sexwale enfatizou sua admiração pelo líder da Revolução cubana, falecido no dia 25 de novembro de 2016 em Havana.

“Comemoramos na África do Sul sua vida (de Fidel)”, afirmou pouco depois da apresentação desta terça-feira (14) na área urbana de Soweto, Johannesburgo, da programação de atividades pelo centenário de nascimento de Nelson Mandela, que será comemorado em 2018.

Com felicidade – e no meio do assédio de outros jornalistas – Sexwale se lembrou de suas visitas a Cuba e do apoio dos combatentes internacionalistas da ilha na conquista da independência dos países no cone sul da África.

Membro da junta da Fundação Nelson Mandela (NMF, por suas siglas em inglês), organizadora do programa centenário, o lutador veterano explicou durante o ato que não se pode esquecer o passado porque é a chave do futuro.

Por isso, destacou, Nelson ‘Tata’ Mandela continua sendo um ícone não do passado, para nós, mas do futuro.

Fez referência à necessidade de não permitir que seu rico legado morra, bem como converter suas ideias em ação.

Sexwale também enfatizou que Mandela nunca teria existido sem Oliver Tambo, também ícone da luta contra o sistema de segregação racial e líder histórico do Congresso Nacional Africano (CNA).

Ambos foram “irmãos, amigos desde muito jovens…irmãos na luta contra o apartheid”, acrescentou ao explicar que em 2017 os sul-africanos comemoraram o centenário do nascimento de Tambo.

Tambo (27 de outubro de 1917 – 24 de abril de 1993) e Mandela (18 de julho de 1918 – 5 de dezembro de 2013) têm um ano de diferença, um bom motivo para comemorar um século de vida de ambos líderes, dimensionou.

Por suas atividades, Tokyo Sexwale sofreu prisão por 13 anos em Robben Island, onde Madiba também esteve 18 dos mais de 27 anos de reclusão durante o regime do apartheid.

Saiu em liberdade em 1990, ao mesmo tempo que Mandela, e depois das primeiras eleições multirraciais na África do Sul (abril de 1994), ocupou diferentes cargos, entre eles primeiro-ministro da província de Gauteng e ministro de Assentamentos Humanos.

Além disso, foi candidato para presidir a Federação Internacional de Futebol (FIFA).

Fonte: Prensa Latina

http://www.vermelho.org.br/noticia/293350-1

IoSonoUnaFotoCamera / Flickr

O preço de enfatizar gênero e raça

sem considerar as classes sociais

É um erro não perceber que tanto as raças quanto os gêneros têm classes sociais, que podem ter interesses distintos e em conflito.

Por Vicenç Navarro

O establishment político e midiático do Partido Democrata dos Estados Unidos continua sem entender o que aconteceu nas eleições na qual a vitória ficou com o candidato republicano Donald Trump. Diante da perplexidade, a única maneira que encontraram para explicar a sua derrota é a demonização do eleitor de Trump, definindo-o como ignorante, pouco educado, pouco sofisticado, cheio de racismo e machismo, preconceitos que seriam o resultado da sua inexistente educação, quando não de sua visão irracional.
 
As declarações da própria candidata democrata, a senhora Hillary Clinton, contribuem para esta demonização. Durante a campanha, numa reunião com a comunidade de lésbicas de Nova York, ela indicou que “poderia colocar a metade dos partidários de Trump na categoria de ‘gente desprezível’, são racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos e muitas outras coisas”. Segundo sua conclusão, muitos deles são “irrecuperáveis”. Para não ficar atrás, o próprio presidente Obama disse que o comportamento dos eleitores de Trump “havia sido a totalmente irracional, aferrado aos preconceitos ou à religião, ou a uma hostilidade para com os que não são como eles, apontando para o discurso contra os imigrantes ou contra o comércio internacional”.
 
Essa percepção, generalizada nos grandes meios de informação, tanto os estadunidenses quanto os europeus, não deixa de ser surpreendente, pois um grande número desses supostos “ignorantes”, “poco educados”, “racistas” e “xenófobos” votou pelo candidato (e depois presidente) Obama nas eleições de 2008, quando tal candidato despertou uma grande ilusão, devido ao seu compromisso de realizar uma grande “mudança”, a qual nunca chegou, ao menos na percepção de grandes setores das classes populares. Bairros operários brancos dos Estados de Pensilvânia, Wisconsin, Ohio e Michigan, que haviam dado a vitória ao candidato Obama em 2008, votaram desta vez pelo candidato Trump. Foi precisamente a mudança de tendência eleitora nestes quatro estados que permitiu a vitória do republicano no colégio eleitoral.
 
A demonização do eleitor de Trump

 
A única explicação que o establishment do Partido Democrata está dando ao ocorrido no dia das eleições é acusar aos eleitores republicanos de racistas, ou de sexistas, assumindo equivocadamente que não votaram por Hillary Clinton porque era mulher. Na verdade, Clinton havia orientado sua campanha a partir da premissa de que “era a hora das mulheres” chegarem ao poder (como as eleições anteriores foram a hora dos afro-americanos). Entretanto, a grande surpresa do Partido Democrata foi que a grande maioria das mulheres brancas votaram em Trump (maioria inclusive entre as mulheres da classe trabalhadora). Explicar este fato da forma como faz Clinton agora, afirmando ser consequência da falta de instrução (mostrando, como prova, que os setores com maior escolaridade votaram por ela, e que os menos educados optaram por Trump), é achar que a educação é a variável determinante do comportamento eleitoral, quando a variável determinante foi, na verdade, a indignação de classe – predominantemente a classe trabalhadora – diante do establishment democrata, representado por Clinton. A educação é um indicador da classe social do eleitor. Donald Trump foi o único candidato (junto com Bernie Sanders, nas primárias) que apelou ao sentido e à consciência de classe do eleitorado. A eliminação sectária de Bernie Sanders por parte del Partido Democrata canalizou o processo de mobilização da classe trabalhadora ao candidato Donald Trump, um personagem enormemente astuto, que utilizou essa consciência de classe e a rejeição ao establishment político e midiático, assim como o fato de que a candidata Hillary Clinton era evidentemente a representante do mesmo. Os “bem educados” sempre estiveram do lado do presidente Obama e da candidata Clinton, assim como dos presidentes Clinton e dos Bush pai e filho, e contribuíram com a criação da enorme crise que destruiu substancialmente o Estado de bem-estar e qualidade de vida das classes populares pouco educadas. O establishment político e midiático praticamente não deu outra alternativa a essas classes senão votar em Trump, para mostrar sua ira e sua rejeição contra o establishment do Partido Democrata, responsável, junto com o establishment do Partido Republicano, pela Grande Recessão, iniciada em 2008. Os establishments unidos eliminaram juntos a Bernie Sanders, que era a única possibilidade de mudança profunda nas políticas que causaram a Grande Recessão. Aliás, a maioria das pesquisas apontavam uma vitória de Sanders por margem bem maior que a de Clinton, se fosse ele o adversário de Trump em novembro.
 
O fracasso das políticas identitárias diante do elemento de classe
 
Nos Estados Unidos, as maiores diferenças entre a direita (o Partido Republicano) e o partido que, com excessiva generosidade, poderia ser chamado de esquerda (o Democrata) se encontram na estratégia de integração dos setores discriminados – como as minorias negras, os latinos, e também as mulheres – dentro das estruturas de poder. O Partido Democrata liderou as campanhas antidiscriminação contra as minorias e as mulheres. Essas campanhas tiveram certo sucesso, incrementando notavelmente o número de mulheres e de pessoas pertencentes às minorias discriminadas nas estruturas de poder, tanto públicas quanto privadas. Contudo, foram as mulheres ou representantes das minorias provenientes da classe média com renda alta, os que se beneficiaram desse sucesso, sem que isso significasse uma melhora na qualidade de vida das minorias e das mulheres pertencentes às classes populares. O principal valor desse avanço é simbólico, mostrando (ou tentando mostrar) que todos os cidadãos, independentemente de sua raça ou gênero, podem alcançar os principais espaços de poder. Esta imagem reciclada do sonho americano não corresponde à realidade, pois ainda é muito difícil chegar ao poder quando se é filho ou filha da classe trabalhadora, e essa situação é inclusive mais acentuada hoje em dia, quando a evidência mostra que os filhos não viverão melhor que seus pais neste futuro desenhado pela elite financeira.
 
Logo, a variável de classe ainda é enorme importância para entender como a população pensa, vive e vota. A classe trabalhadora (pessoas que obtêm sua renda do trabalho, de um trabalho repetitivo, supervisado e assalariado) continua existindo, e representa a maioria entre os setores que conformam as classes populares. Quando a esquerda se esquece disso, permite que essas classes votem pela ultradireita. Foi o que ocorreu nos Estados Unidos, e também no Reino Unido. É o que pode acontece na França e em outros países da União Europeia.
 
A experiência das eleições estadunidenses mostra claramente que existem classes sociais entre as minorias e entre as mulheres. A maioria de associações de defesa das minorias, assim como as das mulheres (todas elas apoiaram a candidata Clinton), são lideradas por mulheres de classe média alta, pertencentes às classes profissionais, e se consideram representantes de todas as mulheres, ou de todos os diferentes grupos de minorias. Porém, na hora do voto, a maioria das mulheres e boa parte das minorias escolheram o que percebiam ser seus interesses de classe – rechaçando o establishment político e midiático – e não o que os seus dirigentes definiram como seus interesses identitários, de raça ou de gênero. Seria um erro enfrentar os interesses de raça e gênero com os de classe, e vice-versa, mas é claramente um erro maior ainda não perceber que tanto as raças quanto os gêneros têm classes sociais, que podem ter interesses distintos e em conflito. O recente caso dos Estados Unidos é um exemplo disso.
 
Vale lembrar também que o governo Trump, composto por figurões da classe empresarial, impulsionará políticas que causarão ainda mais danos ao bem-estar das classes populares, e por isso a sua vitória mostra o grau de insatisfação das classes populares, sobretudo da classe trabalhadora branca (que é a maioria da classe trabalhadora no país), para com o que foi definido historicamente como o “partido do povo”, o Partido Democrata. A perda de credibilidade dos instrumentos que historicamente defendiam os interesses das classes populares levou à vitória da ultradireita nos Estados Unidos, e esse fenômeno pode se repetir em muitos países da Europa.
 
* Professor de Ciências Políticas da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona.
 
Tradução: Victor Farinelli

Créditos da foto: IoSonoUnaFotoCamera / Flickr

Extríido de http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-preco-de-enfatizar-genero-e-raca-sem-considerar-as-classes-sociais/6/37636

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… o Abolicionista

Um dos vultos mais importantes do século XIX, no Brasil, foi José do Patrocínio, que dedicou sua vida em prol da causa da libertação. Abolicionista, não se conformava em ver seus irmãos de pele sendo tratados como objetos de propriedade, vítimas de violência e humilhação. Daí o seu ardor político, como jornalista, como orador e depois como vereador, atividades estas que desempenhou em prol de seus ideais libertários. Importa dizer que, depois de proclamada a libertação dos escravos, Patrocínio ainda escreveu sobre uma cena deprimente que presenciara no Rio de Janeiro, o brutal espancamento de um animal utilizado em serviço de tração, demonstrando com isso que a causa abolicionista é uma questão ética e não deve ter fronteiras.
 
José do Patrocínio nasceu em Campos dos Goitacazes, Rio de Janeiro, em 9 de outubro de 1854. Naquele tempo, época da monarquia, o Brasil ainda vivia sob o sistema escravocrata.  Ao chegar à capital para trabalhar como aprendiz de farmacêutico, o jovem Patrocínio passa a testemunhar, no dia a dia,  a cruel realidade da escravidão. Anos depois, já formado em farmácia, ingressa na Gazeta de Notícias, onde escreve folhetins sob o pseudônimo “Prudhomme”. A partir daí, 1879, que se lança de corpo e alma à campanha pela libertação dos escravos.   

A causa abolicionista torna-se, paulatinamente, a razão de sua vida. Afora o ofício de jornalista, Patrocínio desenvolve a técnica da oratória e, demonstrando grande habilidade com a palavra, começa a propagar seus ideais pelo Rio de Janeiro. Passa a escrever também na Gazeta da Tarde e na Revista Ilustrada, de modo a difundir ainda mais as sementes da liberdade.  Em 9 de julho de 1880 foi fundada a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, sendo que três anos depois instala-se no Rio de Janeiro a Confederação Abolicionista, cujo expoente máximo é José do Patrocínio.

Foi assim que a atividade política fez com que ele se tornasse uma das vozes mais eloquentes pela abolição da escravatura, contando com o apoio e a amizade de personalidades como Rui Barbosa, Quintino Bocaiuva, Joaquim Nabuco, Prudente de Morais, Campos Sales, dentre outros republicanos célebres. Eleito para a Câmara Municipal em 1886, José do Patrocínio conquista o apoio popular para a causa da libertação, tanto que o denominaram “Apóstolo Negro” e “Tigre da Abolição”.  Até que, finalmente, no dia 13 de maio de 1888, a Princesa Isabel assina o decreto n. 3.353, conhecido com a “Lei Áurea”, cujo texto proclama:

 Art. 1º – É declarada extinta a escravidão no Brasil.
 Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário.

Depois, já nos primeiros anos da República, uma insidiosa doença – hemoptise – instala-se no corpo do nosso paladino da liberdade, minando-lhe as forças. Nessa época José do Patrocínio assinava uma coluna no jornal A Notícia, sob o pseudônimo de Justino Monteiro. Depois de presenciar uma cena deprimente em que um homem espancava seu animal de carga, Patrocínio decide escrever sobre isso. Foi o seu último artigo, incompleto, publicado no dia 30 de janeiro de 1905.  Ele não concluiu o texto porque, vencido pela moléstia, passou a verter sangue e, no mesmo dia, faleceu.   

Vale lembrar as últimas linhas escritas pelo patrono da libertação, um texto favorável à causa dos animais escravizados:

“Eu tenho pelos animais um respeito egípcio. Penso que eles têm alma. Ainda que rudimentar, e que eles sofrem conscientemente as revoltas contra a injustiça humana. Já vi um burro suspirar como um justo depois de brutalmente esbordoado por um carroceiro que atestara o carro com carga para uma quadriga e queria que o mísero animal o arrancasse do atoleiro.”

Coube ao escritor Osvaldo Orico interpretar, com ímpar maestria, o significado daquela página inacabada, cuja mensagem final estava toda ela direcionada em prol dos animais escravizados:

“Realmente, essas onze linhas, em que todos os seus contemporâneos assinalaram a sombra de uma imagem, que lhe deu a violência criadora de todos os surtos – a Piedade – essas onze linhas escritas em defesa dos animais representam, de fato, o último alento da vida intelectual – o traço de harmonia entre aquele que viveu falando em favor dos humildes e, escrevendo em favor dos humildes, veio a morrer. A Piedade foi o sinal de seu gênio.”

O poeta Olavo Bilac, na Academia Brasileira de Letras, também proferiu palavras admiráveis em homenagem à memória de José do Patrocínio:

“O espírito do Redentor, ao despedir-se da existência, desenvolvia e apurava a sua capacidade de amar. Já não era somente o amor de uma faculdade. Já não era somente o amor de uma raça infeliz, que lhe enchia o coração, nem o amor somente de todos os homens: era o amor da Vida, amor de tudo quanto vibra e sente, de tudo quanto rasteja e voa, de tudo quando nasce e morre: ‘Eu tenho pelos animais um respeito egípcio; creio que eles têm uma alma!…”

 Não teria sido em vão, portanto, o seu apelo definitivo em favor da liberdade, porque esse apelo não se dirigia apenas a homens escravizados pelos homens, mas também em favor de animais explorados pelo homem. Dor é dor, independentemente de quem a sente. José do Patrocínio, como poucos, conseguiu enxergar essa verdade e abraçar uma causa universal. Que a sua lição de vida possa inspirar as novas gerações.

http://www.anda.jor.br/01/07/2009/jose-do-patrocinio-o-abolicionista