Archives for posts with tag: Economia & sociedade

O que tu indica? | Afroflix, uma plataforma de vídeos onde a gente negra se vê

No Afroflix, pode-se encontrar conteúdos audiovisuais com participação de gente negra

Mariana Reis*, no Brasil de Fato | Recife (PE), 03 de Agosto de 2017

Quantos filmes, séries, programas de televisão ou novelas você conhece com participação de negras e negros, seja como atrizes, atores… diretores, então, nem se fala!

Por isso, se você, além de ver TV, costuma assistir vídeos também pela Internet – como, por exemplo, via Youtube, ou serviços pagos como o Netflix –, uma dica interessante é conhecer o Afroflix, uma plataforma digital, colaborativa e gratuita criada pela cineasta baiana Yasmin Thayná, diretora de KBELA, O Filme (2015).

No Afroflix, pode-se encontrar conteúdos audiovisuais com participação de gente negra, seja no trabalho técnico ou artístico.

Isso quer dizer que, para a indicação de materiais, basta que a produção tenha a participação de, pelo menos, uma pessoa negra escrevendo o roteiro, protagonizando as histórias ou assinando a direção.

Além disso, qualquer pessoa pode se inscrever para participar ou indicar conteúdos para circulação online na plataforma, exclusiva para produções nacionais.

Hoje, estão disponíveis para assistir cerca de 100 materiais, entre documentários, ficções, webséries, vlogs, vídeoclipes, vídeos experimentais, entre outros produtos.

O objetivo do Afroflix é contribuir para que esses trabalhos circulem mais, sejam mais conhecidos, e também para que o povo afrobrasileiro – cerca de 53% da população, segundo dados do IBGE de 2016 – se sinta um bocadinho mais representado.

A ideia é fugir do óbvio, dando vez e voz pra quem faz cinema de uma forma diferente.

Assim, certamente você não vai encontrar lá os mesmos filmes que encontraria, por exemplo, numa sala de cinema de shopping ou numa TV comercial.

A perspectiva é justamente visibilizar o que a gente tem pouco acesso, rompendo com o lugar comum, que é o de perpetuar o imaginário sobre o povo negro sempre em segundo plano (quando aparecem, muitas vezes são representados como escravos, criminosos, etc).

E você, já conhecia o Afroflix? Tem algum filme da/do vizinha/o, amiga/o, namorada/o, pra indicar? E que tal fazer seu próprio filme? Acessa aí: http://www.afroflix.com.br e prepara a pipoca!

* Mariana Reis é jornalista e doutoranda na UFPE

Edição: Monyse Ravena

http://www.viomundo.com.br/politica/no-ar-o-afroflix-plataforma-onde-a-gente-negra-brasileira-se-ve.html

Anúncios

Exposição

Mostra aborda história e cultura de povos indígenas do Rio de Janeiro

Com obras, fotografias, vídeos e instalações, ‘Dja Guata Porã – Rio de Janeiro Indígena’, em cartaz no Museu de Arte do Rio, potencializa diversidade cultural de povos presentes em território carioca

São Paulo – Sepetiba, Cachambi, Tijuca, Catumbi, Ipanema, Guaratiba, Inhaúma, Jacarepaguá, Irajá, Paraty, Itaboraí, Niterói, Itaguaçu, Itatiaia. São muitos os nomes de locais que evidenciam a estreita relação indígena com a cidade e o estado do Rio Janeiro. Mas a exposição Dja Guata Porã – Rio de Janeiro Indígena, em cartaz até março de 2018 no Museu de Arte do Rio (MAR), vai além de nomes e palavras. A mostra traz fotografias, vídeos, instalações, objetos, maquetes, documentos, linha do tempo e outras formas artísticas e históricas que resgatam a trajetória e a cultura dos povos indígenas para refletir criticamente sobre seu presente e futuro.

Segundo a equipe curatorial composta por Sandra Benites, José Ribamar Bessa, Pablo Lafuente e Clarissa Diniz, a exposição visa mostrar uma história que ainda não é amplamente visível: “Não apenas pelos nomes, mas fundamentalmente pela cultura e história do Rio de Janeiro, podemos afirmar que grande parte do ‘ser carioca’ é inseparável de sua herança indígena – o próprio termo ‘carioca’ advém, segundo registros etnográficos, da aldeia tupinambá Kariók, localizada aos pés do que hoje é o Outeiro da Glória. Essa presença, contudo, não é amplamente visível, nem reconhecida. A história indígena do Rio de Janeiro ainda se mantém encoberta, assim está silenciada a presença dos povos indígenas e sua enorme contribuição à nossa vida cotidiana e à nossa capacidade de imaginar o futuro”.

A exposição foi concebida a partir de colaboração com povos, aldeias, movimentos e indígenas do Rio de Janeiro, como fruto de um processo de diálogo feito entre 2016 e 2017 com a equipe do museu. O resultado é uma mistura de práticas museológicas e indígenas que apresenta ao espectador a polifonia, a pluralidade e a diversidade cultural indígena de Guaranis, Puris, Pataxós e aqueles que moram em contexto urbano, a exemplo da Aldeia Maracanã.

Organizada em quatro núcleos, a mostra é subdividida em estações temáticas desenvolvidas com a colaboração de Josué Kaingang, Eliane Potiguara, Anari Pataxó, Niara do Sol e Edson Kayapó. Elas são dedicadas a questões comuns da vida de grande parte dos indígenas no Rio de Janeiro e no Brasil: comércio, educação, arte, mulheres e natureza. Esta última é uma horta comunitária sob cuidados indígenas localizada fora do espaço expositivo, em uma ocupação na Praça Mauá.

Dja Guata Porã: Rio de Janeiro Indígena quer intervir com uma reflexão sobre a realidade indígena no Rio de Janeiro hoje, bem como sobre o passado que desaguou neste presente. Se a recente história política brasileira tem precipitado a emergência de uma luta indígena organizada, com pautas amplas e precisas (do respeito pela diversidade à demarcação de terras), os museus, como lugares da cultura do presente, precisam fazer eco a essa luta”, afirma o texto curatorial.

Dja Guata Porã: Rio de Janeiro Indígena
Quando: até 4 de março de 2018, de terça a domingo, das 10h às 17h
Onde: Museu de Arte do Rio (MAR)
Praça Mauá, 5, Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Quanto: R$ 20, R$ 10 (meia-entrada) e grátis às terças-feiras
Mais informações: www.museudeartedorio.org.br/ (21) 3031-2741

http://www.redebrasilatual.com.br/entretenimento/2017/05/mostra-aborda-historia-e-cultura-de-povos-indigenas-do-rio-de-janeiro

Dirceu sabe o que faz

Resultado de imagem para STF

Insegurança jurídica e a estratégia do caos

Por Paulo Cannabrava Filho

Dias sombrios nos esperam. O que esperar de um judiciário que é o mais caro do mundo? O que esperar de um legislativo que é o mais caro do mundo?

Desde os tempos coloniais, passando pelos tempos em que isto aqui foi reino e império, atravessando a república dos coronéis dos latifúndios até a nova e a novíssima República, advogados e juízes foram formados para defender o status quo e ser parte do poder dominante.

Com relação ao legislativo, casual ou estrategicamente, este é o pior da história da política brasileira, seja com relação ao nível intelectual (lembram da sessão que aprovou o impedimento da presidenta?), mas principalmente com relação às questões morais.

Entrar no judiciário ou na política é projeto de ascensão social, enriquecer a custa do erário. Da classe média às hostes oligarcas dos poderosos.
Deslumbrados com o poder e a exposição midiática perderam o senso, se crêem acima do bem e do mal, deuses salvadores da pátria.

A justiça vale para uns e não vale para outros. A ação ilegal repercute na mídia para uns e é silenciada para os demais. Exemplo: 600 mil presos no Brasil, mais de 50% sem julgamento. Outro exemplo: no lugar de punir pessoas estão punindo empresas, provocando desmontagem de formidáveis parques industriais, jogando fora esforço de desenvolvimento tecnológico, deixando um saldo de desemprego em massa, como está ocorrendo principalmente no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

A insegurança jurídica se tornou um fantasma para os empresários, para os investidores. Em que país um processo leva dez anos para proferir uma sentença? E os custos advocatícios que isso implica?

Diz a ONU que com esse congelamento das despesas por 20 anos, decretada por Temer, as futuras gerações é que estão condenadas. É certo. No momento apenas sobrevivemos, mas só no curtíssimo prazo, pois estão desmantelando o país, vendendo tudo na bacia das almas: terras, minérios, petróleo, água (o mais valioso bem), infraestrutura, espaço aéreo, soberania… As futuras gerações comerão capim ou engrossarão as filas de imigrantes ou de refugiados.

Vergonha alheia

Pesquisa Nacional IPSOS de março de 2017 indica que 78% da população desaprova o atual governo e que, para 90% o Brasil está no caminho errado. Lula não é unanimidade com 59% de desaprovação. Contudo, é o que tem o mais alto índice de aprovação entre os políticos. Os que têm as mais altas taxas de aprovação são os juízes de alta exposição na mídia: Moro 63%, Joaquim Barbosa, 51%.

Essa pesquisa é bem anterior ao escândalo da lista do juiz Edson Fachin: 98 pessoas sendo 8 ministros, 24 senadores, 39 deputados, três governadores, inclusive o santo que governa São Paulo, Geraldo Alckmin. Isso só na lista da Odebrecht. E há outras listas, como a lista de Janot e de outros processos, envolvendo as outras empreiteiras como a Camargo Correia, Andrade Gutierres…

Não sobra ninguém. Com exceção de Itamar Franco, todos os que ocuparam a Presidência da República: Sarney, Collor, Fernando Henrique, Lula, Dilma. As vestais de todos os partidos: Aécio Neves, Romero Jucá, José Dirceu, Aloysio Nunes (atual chanceler), José Serra (ex chanceler), Palocci…
Michel Temer, presidente de turno, por estar presidente não pode ser investigado por crimes anteriores ao mandato. É Lei. Não escaparia pois são muitos os seus crimes, assim como os dos presidentes da Câmara e do Senado.

Depois dos vazamentos ilícitos o juiz tornou públicas as delações dos 78 executivos da Odebrecht. As perguntas que não se pode calar: Como é possível que processos que correm em segredo de justiça se tornem públicos? Quem são os responsáveis?

Na realidade o que houve foi que jogaram um balde de merda no ventilador. Com que intenção?

Nessa fase, valendo ainda a presunção de inocência, tudo permanecerá como está. O próprio Temer disse que no governo não haverá mudança até que provem que há culpa e haja condenação. Pior que isso, Temer afirma que a ofensiva pelas reformas (leia-se maldades) prosseguirá.

São reformas todas muito polêmicas, como da previdência e a das normas do trabalho. Que moral tem esse governo para conduzir essas reformas? Num país sério com judiciário a serviço da nação, todos esses atos deste governo espúrio, seriam declarados nulos.
Haverá ainda condições que declarar nulidades dos atos de Temer?

Quanto tempo levará o judiciário para analisar tantos processos? O processo sobre o pedido de anulação da eleição da dupla Dilma e Temer, por exemplo, só agora, passados quatro anos, quando já deposta a presidenta e em véspera de novas eleições é que está chegando à fase de julgamento. Sensação de enorme perda de tempo. Mas não será talvez este, ou seja, as futuras eleições o que move o ventilador?
Senão, qual o propósito de tamanho escândalo aproveitado pela mídia?

Estará o judiciário tramando a tomada do poder? Rompida a linha sucessória –vice-presidente, presidentes da Câmara e do Senado- cabe ao presidente do Supremo assumir o governo. Na história deste nosso país o judiciário sempre esteve, mais que conivente, presente nos golpes de Estado, governando interinamente ou validando juridicamente a ilegalidade.

É preciso recuperar a segurança jurídica

É incrível. Somente agora, menos de um mês da lista de Fachin, quando não dava mais para esconder as barbaridades cometidas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, em função das outras listas, um supremo juiz admite que “não é correto fazer das ações da justiça espetáculo, que o abuso do poder gera insegurança jurídica”. E é de pasmar! o supremo ministro é o presidente do Tribunal em que se move o Fachin, provocando escândalo maior ainda.
Insegurança jurídica, incerteza política, tudo leva a nação a um surto psicótico: depressão, medo, paranóia, raiva contida, ódio ao outro, pânico…
O supremo juiz pôs o dedo na ferida mas, já não consegue estancar a sangria. Tardia manifestação.

Com a conivência da suprema corte é que juízes, delegados e agentes federais têm desrespeitado as Leis, violado os direitos fundamentais garantidos pela nossa legislação e tratados internacionais. Arvorados em salvadores da pátria, os juízes já se crêem acima do bem e do mal.

Nunca deveriam ter permitido que o mal se impusesse, menos ainda que se alastrasse, se incrustasse contaminando toda instituição. Essa insegurança jurídica já é ameaça à estabilidade do Estado à segurança da Nação.

Como recuperar a credibilidade da Justiça, condição que assegura a segurança jurídica?

Creio que a responsabilidade é de toda a sociedade. Deve haver um movimento que envolva a população em torno dessa bandeira. A bandeira do respeito às Leis, da garantia dos direitos humanos. Os que entendem de leis é que devem iniciar esse movimento: mais que os advogados, todas as pessoas envolvidas com a advocacia, dos cursos de direito aos conselhos profissionais. Advogados com apoio da sociedade civil num movimento para devolver dignidade à Justiça.

Nós sabemos que os juízes foram formados para defender as instituições do Estado, a propriedade privada, as leis que asseguram o funcionamento do capitalismo e do Estado democrático pensado pelos que aprovaram a Constituição de 1988 – a Constituição Cidadã. Para que funcionem as instituições e o próprio capitalismo é preciso Segurança Jurídica.

Parece até que resolveram acabar com o capitalismo. Oxalá assim fosse se tivéssemos alternativa de construir outro modelo de Estado, um estado socialista em que não houvesse mais exploração de um ser humano por outro. A realidade, no entanto, é que tampouco admitem outro modelo.

O certo é que enquanto a nação se distrai, mais uma das bacias de Campos e de Santos do Pré-sal foi posta em leilão. É a quarta chamada aos investidores. Na terceira quem levou foi a francesa Total. Quem levará esta?

A que serve a insegurança jurídica?

Serve à estratégia de implantação do caos que vem sendo executada pelo Império, quer dizer, pelos Estados Unidos e o conglomerado dos senhores de todas as guerras e de todas as fortunas. Serve ao pensamento único imposto pela ditadura do capital financeiro. Ou é a ditadura do pensamento único imposta pelos senhores donos do mundo?

A estratégia do caos tem como objetivo a dominação de um país. Passa pela desestabilização política e pela desorganização da produção com a finalidade de impor as leis que melhor lhes convém e se apropriar das riquezas naturais e do mercado.

Ajuda a entender o que está ocorrendo no país, e a quem serve a Insegurança Jurídica e a estratégia de implantação do caos, ler o livro de John Perkins, “Confissões de um Assassino Econômico”, da editora Cultrix. Para ter um ideia disso pode ler a matéria publicada por Diálogos do Sul sobre a atuação do “assassino econômico” no Equador nos dias de hoje, repetição do que acontece na Argentina e no Brasil, aconteceu no México, no Peru e está no auge na Venezuela.

Essa estratégia de implantação do caos para a dominação requer a eliminação da concorrência. Quando eles não conseguem implantar o caos por meio de seus agentes qualificados e os servos nacionais, apelam para a guerra, invadem o país como fizeram no Iraque, na Líbia entre outros.

Tomemos o Iraque como exemplo. Lá o petróleo era estatal e os recursos serviam para o desenvolvimento econômico e social. Como não conseguiram desestabilizar o governo, invadiram, destruíram o país, mataram e/ou anularam as lideranças, implantaram o caos. As empresas brasileiras que participavam da construção da infraestrutura tiveram que sair por causa da guerra. Assim também as empresas de alimentos. Destruído o país entraram as empresas estadunidenses para a reconstrução e para o abastecimento. O petróleo agora, de ninguém, é saqueado pelas transnacionais. Assim de simples.
Pior ainda é o que ocorreu na Líbia, nem o Estado sobrou. Ou o que ocorre no Afeganistão. A mesma estratégia de implantação do caos que está sendo aplicada na Síria.

Gente: o que está em jogo aqui no Brasil é a Soberania Nacional.

São Paulo, abril de 2017

*Paulo Cannabrava Filho é jornalista e editor chefe da Diálogos do Sul.

aurea-carolina-blog-da-boitempo

Áurea Carolina: “Eu gosto de fazer política.

Então eu continuo achando que ela pode ser bonita.”

“A transformação das práticas das esquerdas para fazer avançar as lutas sociais deve passar pelo reconhecimento das diferenças: de gênero, étnico-raciais, de orientação sexual, geracionais, de território, de origem socioeconômica, porque essas diferenças são condições de existência das pessoas nesse mundo. E o capitalismo associado aos outros sistemas de opressão de gênero, raça, tem uma materialidade nesses corpos.”

Entrevista especial com Áurea Carolina.

Áurea Carolina de Freitas e Silva é cientista política e educadora popular com especialização em Gênero e Igualdade na Universidad Autonoma de Barcelona, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais. Próxima dos movimentos de rua, ela também foi subsecretária de Políticas para as Mulheres do Estado de Minas Gerais e uma das fundadoras do Fórum das Juventudes da Grande BH. Desde sua fundação, ela colabora com a #partidA e participa do movimento “Muitas pela Cidade que Queremos” que discute política sentadas no gramado do Parque Municipal de Belo Horizonte. Em outubro de 2016, Áurea Carolina foi eleita vereadora, com o maior número de votos na cidade. Junto com Cida Falabella, também eleita vereadora pelo PSOL, ela permite ao partido de entrar, pela primeira vez, na Câmara Municipal.

Nesta conversa, conduzida por Luc Duffles Aldon e que dá sequência à série de entrevistas do Movimento Democrático 18 de Março (MD18) com grandes intelectuais de esquerda publicadas no Blog da Boitempo, ela fala das perspectivas de sua vereança e de um outro modo de fazer política. Leia a primeira entrevista da série, com o sociólogo franco-brasileiro Michael Löwy, clicando aqui, a segunda, com o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, clicando aqui, a terceira com o historiador Luiz Marques clicando aqui, a quarta, com o cineasta Eryk Rocha, clicando aqui, a quinta, com o filósofo e crítico social Anselm Jappe, clicando aqui, a sexta com o senador francês Antoine Karam clicando aqui, a sétima com o Frei Henri Burin des Roziers, clicando aqui e a oitava com a ativista transfeminista e professora Viviane Vergueiro clicando aqui.

Você se apresentou como uma candidata “mulher, negra, jovem” e uma feminista interseccional. Qual é a importância das políticas de reconhecimento na reconstrução de uma nova esquerda? Como o hip hop e a “cultura urbana” influencia sua cultura política?

A reconstrução de uma nova esquerda ou, de uma forma mais complexa, a transformação das práticas das esquerdas para fazer avançar as lutas sociais deve passar pelo reconhecimento das diferenças: de gênero, étnico-raciais, de orientação sexual, geracionais, de território, de origem socioeconômica, porque essas diferenças são condições de existência das pessoas nesse mundo. E o capitalismo associado aos outros sistemas de opressão de gênero, raça, tem uma materialidade nesses corpos. São as mulheres negras periféricas as que mais sofrem com a exploração econômica e isso vem sempre associado a outras formas de violência. Não podemos falar de uma transformação social por justiça, por igualdade, por equilíbrio de poder, sem trazer a centralidade dessas dimensões dos nossos corpos que têm uma vida condicionada, o tempo inteiro, por essas desigualdades. Por isso mesmo, os feminismos interseccionais são perspectivas de ação, de percepção da realidade, que trazem essa dimensão dos corpos presentes e de como as desigualdades afetam diretamente as nossas condições de vida.

A cultura hip hop e as culturas urbanas, de forma geral, são fundamentais para essa percepção crítica da nossa realidade. Elas são essenciais para a compreensão das contradições de um sistema capitalista que vai criando contornos próprios e que existe além da questão econômica pois, como isso tudo, ele vai sendo também processado em um sistema racial e patriarcal mais uma vez. As culturas urbanas são linguagens que nos ajudam a estar no mundo. Essa sensibilidade estética é também política e, para mim, foi uma escola de vida; foi por meio do hip hop que eu acessei várias lutas, foi uma senha fundamental para a minha politização.

Você disse que sua eleição, como o maior número de votos (17,420) na capital mineira, é a demonstração da força do campo da resistência das ruas e da cidade. Essa força vem sendo um desafio analítico eleitoral, desde de junho de 2013, e hoje, no meio da crise institucional brasileira. Frente aos candidatos “antipolíticos” você acredita mesmo que “a política pode ser bonita”?

A questão dos candidatos antipolíticos, eu percebo que ganhou muita força no Brasil, sobretudo a partir de junho de 2013 quando duas grandes narrativas sobre a política foram ganhando destaque no debate público. As duas têm a ver com uma insatisfação com o sistema político mas elas levaram a caminhos diferentes: um caminho que é pela radicalização da democracia, pela participação popular, pela recuperação do sentido da política como uma responsabilidade de todas as pessoas e também uma rejeição aos grupos tradicionais que controlam o poder. A outra narrativa traz também essa rejeição à política tradicional mas caminha em uma despolitização, no sentido de que a política é sim esse lugar da corrupção, que não tem muito o que se fazer e que a política em si é problemática.

Então de uma percepção comum de que o sistema político, tal qual funciona hoje, não nos representa e precisa ser transformado, saíram dois caminhos talvez, pelo menos os que prevaleceram. Esse de recuperar a política como um fazer coletivo de coresponsabilidade das lutas, de disputar as instituições a partir da diversidade da população, de reconfigurar para que o poder seja compartilhado. E um outro caminho, que é o da negação da política. Esse caminho de despolitização, que foi muito capturado pela direita e pelas forças conservadoras. Isso foi alimentado demais na mídia convencional e esse discurso de “chega de políticos, nós precisamos é de gente pra trabalhar na politica, de gestores…” O Dória em São Paulo, o Crivella no Rio e o Kalil em Belo Horizonte são exemplos de como esse discurso tem ressonância, mesmo.

Eu continuo achando que a política pode ser bonita porque o sentido da política está em disputa. Eu disputo uma política de cooperação, uma política de aprendizado, de construção coletiva, uma política que sirva para nos emancipar e não essa política em que alguns grupos controlam o jogo ou uma política que é distante da população, uma política que parece ser uma tarefa de alguns poucos. Não! Eu acho que a política é uma tarefa quotidiana, é um dever de cidadania também e é um exercício que vale a pena, eu gosto de fazer política. Então eu continuo achando que ela pode ser bonita.

Seu compromisso com o mandato coletivo é uma forma para “contagiar” seus eleitores, ou mais ainda os 742.050 votos nulos/brancos/abstenções com a alegria política?

Para a política ser bonita, é preciso fazer um trabalho grande de estar lado a lado com as pessoas, fazer mobilização social, educação popular, atuar nos territórios para que se recupere essa dimensão da coresponsabilidade que nós podemos sim, apesar de todas as desigualdades, fazer diferença ocupando as instituições ainda que o jogo seja muito brutal, muito violento.

Ter mulheres negras lutadoras nos espaços de poder é sim uma possibilidade de conquistar direitos ou pelo menos de ampliar o debate, de trazer novas perspectivas, de politizar questões que, em geral, são inviabilizadas. Então, se uma de nos ocupa esse espaço, ainda que esse espaço tenha uma dinâmica própria histórica de dominação de grupos, nós, alí, somos uma infiltração, uma pequena ruptura que pode significar melhoria de condição de vida de muitas de nós. “Quando uma de nos avança, ninguém retrocede”, esse é um lema importante para as mulheres negras e é preciso olhar em perspectiva histórica também, o que significou ter conquistas de direito ao longo do tempo. Nós não resolvemos todas as desigualdades, mas cada passo importa. Meu esperançar nesse contexto tão desfavorável é de exercitar, o tempo todo, esse sentido da política que me trouxe até aqui e trazer mais gente pra perto. Não é uma jornada pessoal unicamente, ela é antes de tudo coletiva e assim sustenta a minha existência pessoal.

Qual é o esperançar de uma vereadora num contexto de crise institucional, numa capital de um Estado em situação de calamidade financeira? E com a judicialização da política e a hipermediatização do conflito entre os 3 poderes, como reafirmar a função de vereadora?

Em um Estado de calamidade financeira, é preciso discutir quais são as prioridades de investimentos, para onde está indo o recurso público. Esse é um debate muito difícil e uma disputa que nós precisamos fazer. Além disso, como nós vamos destinar os recursos nesse momento de muita privação e de acirramento de uma crise que está levando ao desemprego e que, com as medidas do golpe, vão significar precarização dos serviços públicos. É dramático o contexto!

No entanto nós precisamos estar nos espaços institucionais para fazer esses debates também. E, ao mesmo tempo, fortalecer a auto-organização das lutas. Essas são dimensões imprescindíveis para a transformação e a reorganização das esquerdas.

Eu acredito que a função de uma vereadora, em um Estado que tem todos os seus poderes, a mídia, a cultura, sistemas de relações funcionando, desigualdades estruturando uma sociedade, é vocalizar o que as lutas estão construindo, denunciar, contribuir para que as pessoas acessem os espaços de poder, defender pautas urgentes; é ser uma agente colaboradora a serviço das lutas. É assim que eu encaro a vereança. É um cargo que tem muitas limitações mas que tem o potencial, ao mesmo tempo, de fazer essa circulação. É nisso que eu vou apostar, junto com a Cida Falabella e as Muitas pela cidade que Queremos, nesse contexto em que nós somos eleitas em Belo Horizonte, junto com a Frente de Esquerda BH Socialista, fazer um mandato para fortalecer a resistência popular e utilizar os recursos que temos para ampliar nossas capacidades democráticas, potencializar tudo isso. É um desafio enorme, mas eu estou muito animada e acho que é necessário fazer essa travessia.

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2017/01/05/aurea-carolina-eu-gosto-de-fazer-politica-entao-eu-continuo-achando-que-ela-pode-ser-bonita/