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 Updated. Meme. Jota Mombaça, 2017

A coisa tá branca!

Por Jota Mombaça*

Quando foi inaugurada a estátua do Padre António Vieira, ainda este ano, no Largo Trindade Coelho em Lisboa, houve uma pequena comoção entre aqueles intelectuais e artistas brancos cujo trabalho enseja os debates antirracista e descolonial. Em Portugal, aparentemente o tema da negritude e da colonialidade tem tido algum destaque, sem que isso necessariamente configure a abertura dos circuitos àqueles corpos histórica e socialmente implicados pela racialização e pela ferida colonial. A quantidade de textos a abordar o racismo da sociedade portuguesa parece, curiosamente, ser inversamente proporcional à quantidade de intelectuais e artistas negras visíveis no contexto local. Isso evidentemente não fala sobre escassez, mas sobre a densidade dos regimes de apagamento que operam ativamente na constituição dos debates críticos em Portugal. 

Na esteira desses processos, os debates quanto à noção de “lugar de fala” começam a emergir de formas mais ou menos controversas. Se por um lado essa ferramenta aparece como parte de um escopo crítico antirracista e anticolonial contemporâneo, cujo sentido é o de abrir espaço para formas de enunciação historicamente desautorizadas pelos regimes de fala e escuta da supremacia branca e do eurocentrismo; por outro, há também uma crítica tendencialmente branca que insiste em identificar as ativações desse conceito à prática de censura, na medida em que os ativismos do lugar de fala supostamente desautorizam certos corpos (nomeadamente os brancos, cisgêneros, heterossexuais, etc) a falar. Parece-me bastante evidente que essas críticas, na realidade, ressentem nos usos políticos do conceito de lugar de fala o desmonte da possibilidade de uma enunciação universal, na medida em que essa ferramenta atinge frontalmente o regime de verdade que historicamente configurou essa posição (o universal) como sendo acessível tão somente desde lugares de fala muito específicos (a branquitude, a europeidade, a cisgeneridade, etc).

Entretanto meu interesse aqui não é voltar a esse tema, o qual já foi trabalhado por mim em textos como Pode um cu mestiço falar? e Notas estratégicas quanto aos usos políticos do conceito de lugar de falaambos acessíveis onlineassim como em falas públicas como Lugar de Escuta (cujo vídeo está também disponível online), na conferência Vozes do Sul do Festival do Silêncio, e na entrevista Lugar de Fala e Relações de Poder (parte 1 e parte 2) concedida a Carla Fernandes para a Rádio AfroLis. O que este texto enseja é, mais precisamente, interrogar os limites da apropriação branca dos discursos e práticas antirracistas e descoloniais, evidenciando o modo como certas dinâmicas dessa apropriação tendem a operar em descontinuidade com uma necessária ética situada, que habilite corpos historicamente privilegiados pela racialização e pela colonialidade a não reencenarem o teatro de sua dominância e protagonismo social.

A estátua do Padre António Vieira reaparece, portanto, como índice simbólico e material do tipo de registro no qual as condições de possibilidade dessa dominância e protagonismo foram forjadas. A reciclagem “pós-colonial” dessa personagem, amparada pelo imaginário amplamente difundido da colonização portuguesa como branda e, particularmente, do referido padre como tendo sido uma figura sensível à humanidade das gentes que viviam nas terras do que hoje chamamos Brasil, atesta de maneira contundente a hegemonia do lugar de fala branco-colonial como infraestrutura dos regimes de verdade que até hoje determinam as condições onto-epistemológicas de enunciação. Assim, no limite, as críticas brancas à instauração da estátua podem, quando deslocadas de uma ética efetivamente disruptiva da colonialidade e do racismo, ser inscritas pela mesma lógica de atribuição de valor às vozes brancas que oferece o solo subjetivo no qual a memória heroica de Vieira está assentada.

Essa é a contradição fundamental que acompanha as alianças brancas: a continuidade entre suas posições e o sistema simbólico contra o qual supostamente se articulam. Embora não impossibilite o necessário trabalho de colaboração das pessoas brancas e historicamente privilegiadas pela colonialidade com as lutas que apontam para o desmonte desses sistemas de reprodução social, tal contradição preenche o espaço intersubjetivo entre alianças brancas e as lutas antirracista e descolonial com armadilhas cujos efeitos são sempre mais destrutivos para aquelas pessoas não amparadas pela infraestrutura da branquitude. Isso evidencia não só a tenacidade do capitalismo racial como regime de distribuição desigual da violência, mas também o caráter imprescindível de uma autocrítica radical da branquitude que tenha como finalidade o desmonte do racismo e da colonialidade não apenas como índice estruturante do mundo, mas como espinha dorsal do projeto global de subjetividade branca e europeia que lhe é condicionante.

Nesse sentido é que o trabalho político desses artistas e intelectuais eurobrancos cujos discursos pretendem desafiar a renitência do racismo na cultura portuguesa de hoje deve necessariamente ir além da crítica à estátua, cuja inscrição maciça na paisagem lisboeta pode tanto hiper-evidenciar a densidade da mentalidade colonial no presente quanto camuflar os modos muito mais discretos como esta se afirma no tecido relacional da vida entre o mundo dos brancos e as pessoas sistematicamente marginalizadas por ele. É na própria dinâmica existencial da branquitude, onde a infraestrutura de seus privilégios se afirma, que o trabalho deve ser feito. São as relações íntimas, os princípios de seguridade social e subjetiva, as dinâmicas de interação uns com os outros e com o mundo, enfim, toda a série de gestos, circuitos e processos que dá textura à vida branca como norma social que devem ser postas em xeque pelas alianças brancas.

Num contexto como o lisboeta, em que os circuitos intelectuais e artísticos parecem operar ainda com base num programa relacional mais ou menos programático, no qual as possibilidades de acesso a certas instâncias de visibilidade e circulação parecem muito mais evidentemente associadas à capacidade de cumprir com uma certa expectativa social (frequentemente matizada por privilégios de raça, classe e gênero) do que propriamente com os tipos de trabalho artístico e intelectual realizados; um contexto em que as presenças não hegemônicas (de pessoas negras, migrantes e trans, especialmente) parecem estar inscritas por dinâmicas extrativistas de tokenização, exclusão, trabalho não reconhecido e exploração, não basta às pessoas situadas em posições de privilégio social, ontológico e epistêmico que desejam reivindicar para si o papel de “aliades” aprender a falar a linguagem dos antirracismos, da descolonialidade e, adicionalmente, dos movimentos trans. O trabalho político dessas pessoas deve, necessariamente, operar conforme um certo programa negativo, em que desaprender, desfazer, calar e boicotar deixam de ser mecanismos acionados contra pessoas negras e dissidentes em geral para converter-se numa espécie de ética autodestrutiva da qual o trabalho de aliança branca depende.

O fator condicionante desse trabalho é, precisamente, o reconhecimento de que as assimetrias entre posicionalidades não consiste numa falha da sociedade instituída, mas, mais precisamente, na matéria mesma de que tal sociedade é feita. Isso significa que o problema da subalternidade não se resolve por meio de ajustes localizados na economia estruturalmente desigual do mundo como o conhecemos, mas, isto sim, pela abolição global do binário subalternidade-dominância. Em outras palavras, reposicionar os corpos, subjetividades e vidas subalternizadas fora da subalternidade é um projeto que só pode ser levado a cabo na medida em que reposicionamos também os corpos, subjetividades e vidas privilegiados fora da dominância. Dessa forma, as narrativas benevolentes da aliança branca – fórmulas como “dar espaço”, “dar visibilidade”, “dar voz”, todas elas predicadas no desejo normativo de ajustar o mundo social – tem como limite mais evidente a incapacidade dessas mesmas narrativas em incorporar a dimensão negativa desse trabalho, ou seja: “perder espaço”, “perder visibilidade”, “perder voz”.

A hipótese de “perder o mundo” é indutora de uma ansiedade profundamente enraizada nas subjetividades brancas, na medida em que o mundo como nos foi dado conhecer é, precisamente, a infraestrutura da vida branca. Lidar com essa ansiedade é, portanto, parte fundamental do trabalho das alianças brancas, sendo que isso frequentemente resulta em exploração do trabalho afetivo, político e intelectual de pessoas negras. Assim quando uma pessoa branca diz “usar seu privilégio” para “dar voz” a uma pessoa negra, ela o diz na condição de que essa “voz dada” possa ser posteriormente metabolizada como valor sem, com isso, desmantelar a lógica de valorização do regime branco de distribuição das vozes. Isso se deve ao fato de que, segundo a economia política das alianças brancas, “dividir privilégio” é sempre, contraditoriamente, uma fórmula que visa a “multiplicação dos privilégios” e não a sua abolição como estrutura fundamental da reprodução de desigualdades.

No mundo da arte, essa lógica se manifesta objetivamente por meio da abertura de espaços, articulação de programas de performance e debate, financiados a partir do trabalho social das alianças brancas, mas com ênfase na produção negra. Trata-se de um movimento ambíguo, simultaneamente gerador de novos espaços de visibilidade e plataformas de escuta; e apropriador do trabalho e das potências especulativas negras como tema e matéria para a atualização do sistema de arte cujos modos de gestão estrutural e micropolítica seguem a inscrever-nos desigualmente. Todas que atravessamos esses circuitos, como artistas, curadoras, críticas, escritoras e agitadoras negras somos desmembradas por essa contradição, e em alguma medida nosso trabalho tem sido o de ocupar e demolir num só movimento, habitando os escuros do mundo da supremacia branca para então estudá-los, e adivinhar suas brechas, bordas, gatilhos, campos de explosão e implosão, linhas de fuga e moonlights para outras terras. Mas não quero que essa forma de narrar faça o processo parecer menos denso, porque materialmente o que esse trabalho engendra, como efeito de sujeição negra, tem também custos somático-políticos brutais.

Falo por mim que, ao longo dos últimos anos, tenho circulado por cada vez mais espaços de arte hegemônicos sem que isso coincida efetivamente com quase nenhuma forma de acesso às infraestruturas que garantem, do ponto de vista material, emocional e simbólico, a vida das pessoas (cis, brancas , hetero- e homonormativas) para quem esses espaços foram feitos. Se meu acesso ao mundo da arte está sempre já condicionado à retórica das alianças brancas, em cuja matriz de valor minha posição de “bicha preta” está codificada como sendo portadora de um certo potencial onto-epistemológico e político, é justamente na medida em que eu reencarno a marca racial e seus efeitos radicalmente alienantes que meu trabalho se torna viável. Isso tem como efeito mais evidente a reinscrição de toda minha produção simbólica, conceitual e política no marco de uma tradição de trabalho negro cuja relação com o valor é sempre tensionada por dinâmicas de extração, objetificação e consumo do outro; e implica também que a condição de acesso a esses espaços seja meu consentimento a operar quase exclusivamente como emblema da minha própria posição, e não como pessoa.

Para manter o escopo crítico deste ensaio situado em Lisboa, onde tenho vivido nos últimos meses, gostaria de passar agora a um breve estudo de caso a respeito de uma iniciativa articulada aqui. Trata-se de um programa curatorial intitulado A Coisa Está Preta, assinado por um coletivo pretensamente feminista e pós-colonial português, o Pipi Colonial. Eu poderia me limitar à problemática dos nomes, tanto do programa quanto do coletivo, que por si só já evidenciam, tendo em vista os contextos onde foram gerados, um certo recurso à auto-parodização das posições hegemônicas que só pode mesmo adquirir significado na medida em que produz continuidade, e não ruptura, com os efeitos e modos de perpetuação dessas posições.

Concordo com o que disse Grada Kilomba (na fala que fez no espaço Hangar a 03 de Novembro) sobre a relação da ferida colonial com a subjetividade portuguesa contemporânea ser uma de profunda negação. Se monumentos como o Padrão dos Descobrimentos e a estátua de Vieira são evidências maciças dessa adesão coletiva a uma memorialização da colonialidade absolutamente desconectada da tradição de violência e crueldade que forma o núcleo desse processo, a ironia de um coletivo chamado Pipi Colonial não deixa de sê-lo também. A recuperação do termo “colonial” aqui não é menos inofensiva, embora seja definitivamente mais escorregadia. Falo de um coletivo majoritariamente formado por mulheres cis, europeias e brancas, amparadas por leituras teóricas em torno do pós-colonial/decolonial, do pensamento negro e do feminismo, supostamente autoconscientes, cujo trabalho se pretende a precisamente constituir alianças entre a sua branquitude e o pensamento feminista negro, entre a sua branquitude e o pensamento feminista descolonial. Entretanto, ao parodizar o colonial num contexto cuja branquitude tende a ser profundamente autoindulgente quanto à sua responsabilidade para com a produção e reprodução da ferida colonial, esse coletivo não só ocupa de forma desleixada o privilégio da própria posição como cutuca uma ferida cuja extensão não está sequer evidente do ponto de vista da própria eurobranquitude de sua plataforma.

Também o recurso ao “Pipi”, termo usado no contexto local como eufemismo de vagina, para inscrever um certo tipo de projeto feminista que depende da coincidência normativa entre vagina e feminilidade, o que por si só já define um escopo cisgênero fundamentalista (por reproduzir de forma descuidada o princípio de inexistência de masculinidades e feminilidades com anatomias diversas), evidencia desse coletivo um autocentramento tão radical que não pode coincidir com nenhuma forma de implicação afetiva e efetiva para com a complexidade e interseccionalidade das lutas que pretendem endereçar. Contudo o que me interessa destacar mais veementemente aqui – como forma de marcar uma norma e, concomitantemente, contra-atacá-la – é a relação desse coletivo com a produção intelectual descolonial e negra, tendo como emblema o texto de apresentação do projeto A Coisa Está Preta.

Cito apenas uma frase: “A produtividade conceptual do preto surge aqui como signo”

Sinhá Pós-colonial. Meme. Jota Mombaça, 2017Sinhá Pós-colonial. Meme. Jota Mombaça, 2017

A produtividade conceitual do preto surge como signo da vida após a morte da escravidão, e isto significa a reprodução historicamente carregada de uma lógica anacrônica de valor que, entretanto, configura o presente e o futuro das políticas especulativas brancas – valor como aquilo que é roubado de nós. A aparição dessa formulação no texto de apresentação não deixa de ser a passagem de um fantasma colonial, que monta a cena para uma nova ordem de procedimentos extrativistas, estes de matriz cognitiva, onto-epistemológica, conceitual e simbólica: a produtividade conceitual do preto torna-se, aqui, matéria para a atualização deste mundo, do mesmo modo que o café, imposto como monocultura nos campos de plantação, serviu a atualização do mundo de que as autoras desse texto e projeto são herdeiras.

Afinal, isso é também sobre economia, e sobre o modo como a política das alianças brancas no mundo da arte tem implicado a manutenção de um sistema desigual de distribuição de recursos, que permite que pessoas brancas “esclarecidas” controlem as agendas do debate racial nesses campos, irrigando os imaginários coletivamente produzidos por meio do sistema de arte com base na sua ótica e ética estreitadas pela adesão sempre parcial, e algo oportunista, ao projeto de abolição do mundo como conhecemos. E isso fica especialmente evidente quando se trata de um programa curatorial em que não há sequer uma pessoa negra; e, adicionalmente, em que uma das atividades tem como subtítulo “carta branca para falar do preto”.

Num certo sentido, o programa em questão é a caricatura de um processo difundido de formas muito mais discretas e capilares no mundo da arte contemporânea hoje. Talvez por isso ele apareça aqui como caso a ser estudado, pelo modo cru como evidencia uma prática e lógica que o excedem, como emblema de um processo que está difundido e cuja direção precisa ser desafiada por todos os lados, desde as bordas e desde dentro; do mesmo modo, parece-me que o exemplo desse coletivo, pelo fato de pretender-se uma plataforma de aliança com as lutas do feminismo negro e descolonial/pós-colonial desde a posição de mulheres cis brancas, oferece também condições para pensarmos com mais cuidado sobre os limites das alianças, e também sobre os limites da apropriação do que as autoras chamam “produtividade conceitual do preto” por agrupamentos, instituições, iniciativas e perspectivas tão profundamente embasadas pelos privilégios da supremacia eurobranca.

O denso trabalho de articulação política de que dependem a luta continuada pela liberação negra e pela ruptura com a colonialidade como princípio de reprodução do mundo como conhecemos precisa ser pensado enquanto ética abolicionista – criativa, sim, na forma como excita e conclama outros princípios relacionais e de mútua afetação entre diferentes posicionalidades, mas também destrutiva e demolidora das infraestruturas que recondicionam o mundo como cenário para a captividade negra e para a perpetuação do lugar de fala branco (isto é, o universal) como referente dominante de  um sistema de valor em relação ao qual nossas vidas negras só importam na medida em que são produtivas.

Esse texto, em seu mergulho nas linhas de força intersubjetivas e afetivas que condicionam as alianças negras com o mundo dos brancos, afirma inequivocamente uma certa epistemologia da desconfiança que não deve se confundir a naturalização de uma separabilidade hiper-determinada entre as posições. Assumo, por isso, o risco de tensionar muitas das bases materiais e emocionais da minha própria vida, como pessoa negra inscrita de forma contraditória nos circuitos de produção e reprodução do privilégio branco, pois, no limite, o que pretendi aqui não foi enrijecer cisões fundamentais, mas habitar o dilema incontornável de lidar com as desigualdades e assimetrias como princípios de constituição do mundo, e não como falhas situadas na matriz.

Insisto, dessa maneira, em que continuemos o trabalho ambivalente de inter-articulação política, tendo em vista suas dimensões impossíveis e o trabalho especulativo que elas demandam; suas dívidas impagáveis e o trabalho especulativo que elas demandam.

Lisboa, Nov/2017

 

Jota Mombaça é um ensaísta e performer brasileiro.

Fonte: http://www.buala.org/pt/mukanda/a-coisa-ta-branca

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Dirceu sabe o que faz

Brasília - DF, 31/08/2016. Michel Temer durante posse como Presidente da República no Senado Federal. Foto: Beto Barata/PR

A contenção da democracia e o fim do Brasil

Por Cláudia Versiani

Consta que o indigenista Noel Nutels, chamado de “o índio cor-de-rosa”, logo após o golpe militar de 1964 perguntou a amigos quanto tempo duraria a ditadura. Depois de ouvir vários palpites, disse: vai durar cem anos.

Nutels se referia não à ditadura propriamente dita, mas aos reflexos negativos que a quebra da normalidade democrática acarretaria ao país. E também às consequências do desmonte do que funcionava bem — a educação pública, por exemplo, que, como disse Darcy Ribeiro, deve o mau funcionamento não ao acaso, mas a um projeto.

O golpe de 64 trouxe imensos retrocessos institucionais, como se sabe. Sem falar de prisões arbitrárias, torturas e assassinatos de presos políticos. Mas, em certo aspecto, o golpe parlamentar-midiático-jurídico atual — que começou com o chamado “mensalão”, continuou nas jornadas de junho de 2013 e foi incrementado pela atuação canalha do candidato derrotado em 2014 — é pior.

Os militares, retrógrados e autoritários, ao menos eram nacionalistas.

Os golpistas de agora, também retrógrados e autoritários, são, como se dizia tempos atrás, entreguistas. Não se pejam de entregar o petróleo, de possibilitar a compra de terras por estrangeiros, de cogitar abrir mão do Aquífero Guarani em favor de empresas multinacionais.

A intenção de desmonte é clara. É a destruição do Brasil, a entrega de riquezas, o desprezo pelo povo, esse mero detalhe. A quadrilha que assaltou a república não tem projeto de país. Tem ganância pelo poder e comportamento de ave de rapina dividindo butim de guerra. Haja vista o aumento dos proventos do judiciário e do legislativo e a amplificação dos recursos publicitários pagos à velha mídia, parceira e incentivadora do golpe.

Tudo em meio a grave crise econômica. Enquanto isso, em nome da mesma crise, o ataque às tímidas conquistas sociais e aos direitos dos trabalhadores, conquistados em anos de luta.

meme

Internet também é cultura: gráfico recentemente divulgado nas redes sociais, sem indicação de autoria, mostra a composição de poder durante os 516 anos que se seguiram à chegada dos portugueses: em 64% do tempo, o país foi colônia; em 13,4%, monarquia; em 8%, república oligárquica; em 7,6%, ditadura. E, finalmente, em 7%, república democrática.

Essas informações, se não forem absolutamente corretas, não estarão longe da realidade. A configuração histórica brasileira explica o fato de a democracia ser insuportável às oligarquias. Raymundo Faoro disse que as elites querem um país com 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo.

Para as oligarquias, vantagens, aumentos de salário, auxílios-moradia e quejandos. Para os restantes, a PEC 241, que corta gastos com saúde, educação e assistência social durante inacreditáveis vinte anos, tempo de desenvolvimento de toda uma geração.

A Casa-Grande não está acostumada com o povo. Não deseja proximidade, não lhe reconhece direitos. O poder é aceitável apenas enquanto administrador de seus ancestrais privilégios, como tem sido há séculos. Assim, entende-se a revolta por várias eleições presidenciais — e quantas mais houvesse — perdidas.

A democracia estava excessiva, era necessário contê-la. Porém, é fácil começar um golpe. Difícil é prever como termina. De acordo com o professor Pedro Serrano, a grande ilusão da direita é achar que do autoritarismo extremo vem a ordem. A experiência mostra que, ao contrário, vem o caos.

A história, essa provecta senhora, não é regida pelo tempo humano. Tem suas próprias leis e prazos. Embora se permita alguns recuos, segue em frente.

Cabe a pergunta: quanto vai durar o golpe? Haverá como conter esses trogloditas? Ou será preciso esperar que a história dê conta deles, ou que eles se entredevorem — como, aliás, já começa a acontecer?

Cláudia Versiani é jornalista, fotógrafa e professora do curso de Comunicação Social da PUC-Rio, além de autora dos livros “Os homens de nossas vidas” (crônicas) e “Bodas de Sangue: a construção e o espetáculo de Amir Haddad” (fotografias)

http://www.ocafezinho.com/2016/11/09/contencao-da-democracia-e-o-fim-do-brasil/

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Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon

 Prefácio de Jean-Paul Sartre

Não há muito tempo, a terra estava povoada por dois biliões de habitantes, isto é, quinhentos milhões de homens e mil e quinhentos milhões de indígenas. Os primeiros dispunham do Verbo, os outros tomavam-no por empréstimo. Entre aqueles e estes, reizinhos vendidos, senhores feudais, uma falsa burguesia forjada de uma só peça, serviam de intermediários. Nas colónias, a verdade aparecia nua; as «metrópoles» preferiam-na vestida; era necessário que os indígenas a amassem. Como às mães, em certo sentido. A elite europeia dedicou-se a fabricar uma elite indígena; seleccionaram-se adolescentes, marcaram-lhes na fronte, com ferro em brasa, os princípios da cultura ocidental, introduziram-lhes na boca mordaças sonoras, grandes palavras pastosas que se colavam nos dentes; depois de uma breve passagem pela metrópole, regressavam ao seu país falsificados. Essas mentiras viventes já nada tinham que dizer a seus irmãos; eram um eco. Desde Paris, Londres, Amesterdão, nós lançávamos palavras: «Pártenon! Fraternidade!» e em qualquer parte da África ou da Ásia outros lábios se abriam: «…tenon! …nidade!» Era a Idade do Ouro.

Tudo se acabou: as bocas abriram-se sós; as vozes, amarelas e negras, continuavam a falar do nosso humanismo, mas apenas para censurar a nossa desumanidade.

Nós escutávamos sem desgosto essas corteses expressões de amargura. Em princípio, com orgulhosa admiração: Como? Eles falam sozinhos? Vede, pois, o que temos feito deles! Não duvidámos de que aceitassem o nosso ideal, pois que nos acusavam de não sermos fiéis; a Europa acreditou na nossa missão: havia helenizado os asiáticos, criado essa espécie nova, os negros greco-latinos. E dissemos, entre nós, com sentido prático: deixá-los gritar, porque isso os acalma; cão que ladra não morde.

Mas veio outra geração que removeu o problema. Seus escritores, seus poetas, com uma incrível paciência, trataram de nos explicar que os nossos valores não se ajustavam à verdade da sua vida, que não podiam rejeitá-los inteiramente nem assimilá-los. O que queria dizer mais ou menos isto: vocês converteram-nos em monstros, o vosso humanismo pretende mostrar-nos que somos universais e as vossas práticas racistas particularizam-nos. Nós escutámo-los, muito tranquilos: aos administradores coloniais não se paga para que leiam Hegel, por isso o lêem pouco, mas não precisam deste filósofo para saber que as consciências infelizes se enredam em contradições. A eficácia é nula. Perpetuemos, pois, a sua infelicidade, ela não surgirá senão do vento. Se existisse, diziam os práticos, a sombra de qualquer reivindicação nos seus lamentos, seria a da integração. Não se tratava de a outorgar, bem entendido: arruinava-se desse modo o sistema que se baseia, como se sabe, na sobrexploração. Mas bastaria fazê-los acreditar no embuste: iriam atrás de nós. E quanto a revoltarem-se, estamos também muito tranquilos: Qual o indígena consciente que mataria os bons filhos da Europa com o único fim de se converter em europeu como eles? Enfim, alimentávamos essa melancolia e não nos parecia errado, pelo menos uma vez, outorgar o prémio Goncourt a um negro: isto acontecia antes de 1939.

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1961. Escutem:

«Não se perca o tempo em ladainhas, nem em mimetismos nauseabundos. Abandonemos essa Europa que não deixa de falar do homem ao mesmo tempo que o assassina onde quer que o encontre, em todas as esquinas das suas próprias ruas, em todos os pontos do mundo. Há séculos… que em nome de uma falsa «aventura espiritual» se sufoca quase toda a humanidade». O tom é novo. Quem se atreve a usá-lo? Um africano, homem do Terceiro Mundo, ex-colonizado. Acrescenta: «A Europa adquiriu uma velocidade louca, desordenada… que vai abrindo um abismo onde se afunda cada vez mais». Por outras palavras: está perdida. Uma verdade que ninguém gosta de dizer — não é isso, meus caros europeus? —, mas de que todos estamos convencidos. Há que fazer, porém, uma reserva. Quando um francês, por exemplo, diz a outros franceses: «Estamos perdidos» — o que, pelo que sei, ocorre quase todos os dias desde 1930 —, trata-se de uma frase emotiva, inflamada de coragem e de amor, na qual o orador se inclui a si mesmo com os seus compatriotas. E, depois, geralmente acrescenta: «A menos que…» Todos sabem do que se trata: não se pode cometer mais nenhum erro; se essas recomendações não são seguidas à letra, então, e somente nessa altura, o país se desintegrará. Em resumo: é uma ameaça seguida de um conselho e essas ideias chocam muito mais, porque são o reflexo da inter-subjectividade nacional. Quando Fanon, ao contrário, disse que a Europa se precipita na sua perdição, longe de lançar um grito de alarme, fez um diagnóstico. Este médico não pretende condená-la sem recurso — outros milagres são conhecidos —, nem dar-lhe os meios para se curar; verifica que ela agoniza. Olhando de fora, baseia-se nos sintomas que pôde captar.

E quanto a curá-la, não: ele tem outras preocupações; que a Europa morra ou sobreviva, ele não se importa. Por isso, o seu livro é escandaloso. E se vocês murmuram, um pouco ofendidos e espantados: «Que coisas nos diz!», o verdadeiro sentido desse escândalo escapa-vos: porque Fanon não lhes «diz» absolutamente nada; a sua obra — tão ardente para outros — permanece sem sentido para vós; e, embora com frequência ela fale em vós, nunca vos fala realmente. Acabaram-se os Goncourt negros e os Nobel amarelos: não voltará a época dos colonizados laureados. Um ex-indígena de «língua francesa» adapta essa língua a novas exigências, utiliza-a para se dirigir unicamente aos colonizados: «Indígenas de todos os países subdesenvolvidos, uni-vos!» Que decadência a nossa: para os nossos pais, éramos os únicos interlocutores; os filhos não nos consideram sequer interlocutores válidos: nós somos os objectos do discurso. Claro que Fanon menciona de passagem os nossos crimes famosos, Sétif, Hanói, Madagáscar, mas não se preocupa em condená-los: utiliza-os. Se descobre as tácticas do colonialismo, o jogo complexo das relações que unem e opõem os colonos aos «metropolitanos», faz isso para os seus irmãos, a sua finalidade é a de ensiná-los a derrotar-nos.

Numa palavra, o Terceiro Mundo descobre-se e expressa-se através dessa voz. Já se sabe que ele é homogéneo e que ainda se encontram dentro desse mundo povos submetidos, outros que adquiriram uma falsa independência, alguns que lutam para conquistar a sua soberania e outros que, não tendo atingido ainda a plena liberdade, vivem debaixo da ameaça de uma agressão imperialista. Essas diferenças nasceram na história colonial, quer dizer, na opressão. Aqui, a Metrópole contentou-se em pagar a alguns feudais; acolá, com o lema de «dividir para vencer», fabricou de uma só peça uma burguesia de colonizados; noutro lado, ela deu um forte golpe: a colónia é o tempo da exploração e do povoamento. Assim, a Europa fomentou as divisões, as oposições, forjou classes e racismos, tentou por todos os meios provocar e aumentar a estratificação das sociedades colonizadas. Fanon não oculta nada: para lutar contra nós, a antiga colónia deve lutar contra si mesma. Ou melhor, ambas as lutas são apenas uma. No fogo do combate, todas as barreiras interiores devem desaparecer, a impotência burguesa dos negociantes e de compradores, o proletariado urbano, sempre privilegiado, o lumpen-proletariado dos bairros pobres, todos devem alinhar na mesma posição das massas rurais, verdadeira fonte do exército nacional e revolucionário; nessas regiões, cujo desenvolvimento foi sufocado deliberadamente pelo colonialismo, o campesinato, quando se revolta, aparece imediatamente como a classe radical: conhece a verdadeira opressão, sofreu muito mais que os trabalhadores das cidades e, para não morrer de fome, necessita de derrubar todas as estruturas. Se triunfa, a revolução nacional será socialista; se consegue sufocar-se o seu ímpeto, se a burguesia colonizada toma o poder, o novo estado, apesar de uma soberania aparente, tomba nas mãos dos imperialistas. O exemplo de Catanga ilustra isso muito bem. Assim, pois, a unidade do Terceiro Mundo não está feita: é uma empresa em vias de realizar-se, que se há-de dar, em cada país, antes ou depois da independência, pela união de todos os colonizados debaixo do mando da classe campesina. Isto é o que Fanon explica aos seus irmãos da África, da Ásia, da América Latina: realizaremos todos juntos e em qualquer parte o socialismo revolucionário ou seremos derrotados um a um pelos nossos antigos tiranos. Não oculta nada, nem as fraquezas, nem as discórdias, nem as mistificações. Aqui, o movimento tem um mau começo; acolá, depois de brilhantes êxitos, perde velocidade, noutro lado detém-se; se se quer agarrar será necessário que os camponeses lancem ao mar a sua burguesia. O leitor é seriamente avisado contra as alienações mais perigosas: o dirigente, o culto da personalidade, a cultura ocidental e, igualmente, o regresso ao passado da cultura africana: a verdadeira cultura é a Revolução, o que quer dizer que ela se forja vivamente. Fanon fala em voz alta; nós, os europeus, podemos escutá-lo: a prova é que têm este livro em vossas mãos; não teme que as potências coloniais tirem proveito da sua sinceridade?

Não. Não teme nada. Os nossos procedimentos estão antiquados: pode demorar ocasionalmente a emancipação, mas não a deterão nunca. E não devemos pensar na modificação dos nossos métodos: o neo-colonialismo, esse sonho indolente das metrópoles, não é mais do que ar; as «Terceiras Forças» não existem ou são formadas pelas bourgeoisies-bidons que o colonialismo colocou no poder. O nosso maquiavelismo tem pouca influência sobre esse mundo, já muito esclarecido, que foi descobrindo as nossas mentiras. O colono não tem mais do que um recurso: a força, quando ele se mantém; ao indígena não lhe resta outra alternativa: a servidão ou a soberania. Que pode importar a Fanon que se leia ou não a sua obra? É aos seus irmãos que ele denuncia as nossas velhas malícias, certo de que não temos outra solução. A eles, diz-lhes: a Europa instalou-se nos nossos continentes, é necessário, pois, que a façamos retirar; o momento é-nos favorável: não acontece nada em Bizerta, em Elisabethville, no campo argelino, sem que o mundo inteiro seja informado; os blocos assumem posições contrárias, respeitam-se mutuamente, aproveitemos essa paralisia, entremos na história e que a nossa irrupção seja universal pela primeira vez; lutemos: na falta de outras armas, bastará termos o necessário sangue-frio.

Europeus, abram este livro, penetrem nele. Depois de alguns passos na noite, encontrarão alguns seres estranhos em redor do fogo, aproximem-se e escutem: discutem a sorte que reservam às vossas feitorias, aos mercenários que as defendem. Eles darão conta da vossa presença, mas continuarão a falar entre si, sem sequer baixar o tom de voz. Essa indiferença fere muito fundo: os vossos pais, sombras escuras, vossas sombras, eram almas mortas, ofereciam-lhe a vida, não falavam senão a vocês e ninguém se ocupava em responder a esses zombis. Os filhos ignoram-vos: ilumina-os e acalenta-os um fogo que não é o vosso e vos faz sentir furtivos, taciturnos, perplexos: a cada um compete o seu dever; das trevas de onde vai surgir outra aurora, os zombis sois vós.

Nesse caso, dirão, atiremos este livro pela janela. Para que o havemos de ler, se não está escrito para nós? Por dois motivos: o primeiro, porque Fanon explica aos seus irmãos como somos e mostra-lhes o mecanismo das nossas alienações. Aproveitem, pois, para revelar a si mesmos a vossa verdade de objectos. Nossas vítimas conhecem-nos pelas suas feridas e pelas algemas: isso torna o seu testemunho irrefutável. Basta que nos mostrem o que temos feito delas para que nos conheçamos a nós próprios. Será útil? Sim, porque a Europa está em perigo de morte. Mas, dirão, nós vivemos na metrópole e reprovamos todos os excessos. Não são colonos, é verdade, mas não valem mais do que eles. São os vossos pioneiros, enviados para as regiões do ultramar, que vos fizeram enriquecer; claro, foram prevenidos: se fizessem correr muito sangue, seriam desautorizados contra vontade. Do mesmo modo, um estado — qualquer que seja — mantém no estrangeiro uma turba de agitadores, de provocadores e de espiões e desautoriza-os quando os surpreende em falta. Vocês, tão liberais, tão humanos, que levam ao preciosismo o amor pela cultura, parecem esquecer que têm colónias e que nelas se mata em vosso nome. Fanon revela aos seus camaradas — a alguns deles, sobretudo, que estão um pouco ocidentalizados— a solidariedade dos «metropolitanos» com os seus agentes coloniais. Tenham, portanto, a coragem de o ler, porque essa leitura vos envergonhará e a vergonha, como disse Marx, é um sentimento revolucionário. Como vêem, eu também não posso desligar-me dessa ilusão subjectiva. E, por isso, também lhes digo: «Tudo está perdido, a menos que…». Como europeu, apodero-me do livro de um inimigo e converto-o num meio para curar a Europa. Aproveitemo-lo.

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Eis aqui a segunda razão: se desprezam as tagarelices fascistas de Sorel, compreenderão que Fanon é o primeiro depois de Engel que volta a fazer luz sobre a História. E não creiam que um temperamento muito activo ou uma infância desgraçada o levaram ao gosto singular pela violência: simplesmente, converte-se no intérprete da situação, nada mais. Mas isto basta para que constitua, etapa por etapa, a dialéctica que a hipocrisia liberal nos escondeu e produziu em nós o mesmo que nele.

No século passado, a burguesia tomava os operários como invejosos e desregrados por grosseiros apetites, mas preocupava-se por integrar esses seres brutais na nossa espécie: não os considerando como homens e livres, como poderiam eles vender livremente a força do seu trabalho? Em França e na Inglaterra, o humanismo afirma-se universal.

Com o trabalho forçado, sucede o contrário. Não há contrato. Apesar disso, é necessário intimidar; a opressão resulta de forma evidente. Os nossos soldados, no ultramar, negam o universalismo metropolitano, aplicam ao género humano o numerus clausus: como ninguém pode despojar o seu semelhante sem cometer qualquer crime, sem o submeter ou matar, colocam como princípio que o colonizado não é o semelhante do homem. A nossa força de choque recebeu a missão de converter em realidade esta abstracta certeza: ordena-se e reduz-se os habitantes do território anexado ao nível de macacos superiores, para justificar que o colono os trate como bestas. A violência colonial não se propõe apenas manter, em atitude respeitosa, os homens submetidos, trata também de os desumanizar. Nada será poupado para liquidar as suas tradições, para substituir as suas línguas pelas nossas; o cansaço, claro, embrutecê-los-á. E se resistem ainda, fatigados e doentes, a tarefa será cumprida até ao fim: apontam estouvadamente sobre os camponeses as espingardas; vêm civis que se instalam em sua terra e os obrigam, ao peso do chicote, a cultivá-la para eles. Se resiste, os soldados disparam, um homem é morto; se cede e se degrada, deixa de ser um homem; a vergonha e o medo quebram o seu carácter e desintegram a sua pessoa. Tudo se faz a toque de caixa, por peritos: os «serviços psicológicos» não datam de hoje. Nem a lavagem do cérebro. E, apesar de todos os esforços, não se alcança o fim em nenhum lado. E eu não duvido que seja impossível converter um homem em besta: apenas afirmo que nada se consegue se o mesmo não for debilitado consideravelmente; não bastam as ameaças, é necessário violentar a sua compleição física. É o mal da servidão: quando se domestica um membro da nossa espécie, diminui-se o seu rendimento e, por pouco que se lhe dê, um homem de curral acaba por custar mais do que aquilo que produz. Por essa razão, os colonos vêem-se obrigados a deixar em meio a sua tarefa de domesticação: o resultado, nem homem, nem besta, é o indígena. Espancada, subalimentado, enfermo, temeroso, mas somente até certo ponto, tem sempre, quer seja amarelo, negro ou branco, os mesmos rasgos de carácter: é preguiçoso, fingido e ladrão, vive de qualquer coisa e apenas conhece a força.

Pobre colono: a sua contradição vê-se nua. Deveria, como faz o génio, segundo se diz, matar aquele que captura. Mas isso não é possível. Não faz falta porventura que os explore? Por não poder levar a matança até ao genocídio e a servidão até ao embrutecimento animal, perde o «controle», a operação inverte-se, uma implacável lógica o levará à descolonização.

Mas não imediatamente. Primeiro, reina o europeu: já está derrotado, embora não dê conta disso; não sabe que os indígenas são falsos indígenas; faz-lhes ver que o mal existe neles próprios; no fim de três gerações, os seus maus instintos não ressurgirão. Quais instintos? Os que levam o escravo a matar o amo? Como não reconhece a sua própria crueldade dirigida agora contra si mesmo? Como não reconhece na selvageria desses camponeses oprimidos a selvageria do colono que a absorveu por todas as formas e dela se não curou? A razão é simples: esse personagem imperial, enlouquecido pela sua omnipotência e pelo receio de a perder, já não se recorda de que foi um homem: agarra-se ao chicote ou à espingarda; acreditou que a domesticação das «raças inferiores» se consegue através do condicionamento dos seus reflexos. Não toma em linha de conta a memória humana, as recordações inesquecíveis; e, sobretudo, há algo mais que ele nunca quis saber: apenas nos convertemos no que somos mediante a negação íntima e radical do que fizeram de nós. Três gerações? Desde a segunda, apenas abriram os olhos os filhos viram como espancavam seus pais. Em termos de psiquiatria, estão «traumatizados». Para toda a vida. Mas essas agressões cometidas sem parar, longe de o levar a submeter-se situam o europeu numa contradição insuportável que, cedo ou tarde, pagará. Depois disso, mesmo que se lhe ensine a vergonha, a dor e a fome, não se provocará em seus corpos senão uma raiva vulcânica, cuja força é igual à da pressão que se exerce sobre eles. Diziam vocês que somente conheciam a força? É certo. Primeiro, será a do colono e depois, claro, a sua própria: quer dizer, a mesma que incide sobre nós próprios como reflexo que, do fundo de um espelho, se encaminha para nós. Não se iludam; por essa louca manha, por essa bílis e esse fel, pelo constante desejo de nos quererem matar, pela contracção permanente dos seus fortes músculos, eles são homens: pelo colono que os quer escravos e contra ele. Então, cego, abstracto, o ódio é o seu único tesouro: o amo provoca-o, porque quer embrutecê-lo, mas não chega a esgotá-lo porque os seus interesses o detêm; assim, os falsos indígenas são então humanos, pelo poder e a impotência, que se transformam, neles próprios, numa recusa obstinada da condição de animal. O resto, já sabemos; em certo sentido, são perigosos: é a sabotagem. Fingidos, ladrões. Claro! Seus pequenos furtos marcam o começo de uma resistência um pouco desorganizada. Isso não chega: mas há os que se lançam de mãos vazias contra as armas; são os seus heróis; outros, tornam-se homens depois de assassinarem europeus. Se alguém os mata: bandidos e mártires, o seu sacrifício exalta as massas aterrorizadas.

Aterrorizadas, sim: nesse momento, a agressão colonial entranha-se como terror nos colonizados. Não me refiro somente ao medo que experimentam perante os nossos inesgotáveis meios de opressão mas também ao que lhes inspira o seu próprio furor. Encontram-se encurralados entre as armas que lhes apontamos e esses tremendos impulsos, esses desejos de matar que surgem do fundo do seu coração e que nem sempre reconhecem: porque não é em princípio a sua violência, é a nossa, invertida, que cresce e os despedaça; e o primeiro movimento desses oprimidos é esconder profundamente essa inconfessável cólera, reprovada pela sua moral e pela nossa e que não é, portanto, senão o último reduto da sua humanidade. Leiam Fanon: compreenderão que, no momento de impotência, a loucura homicida é o inconsciente colectivo dos colonizados.

Essa fúria reprimida, ao estalar, gira em redor e enraivece os próprios oprimidos. Para libertar-se dela, acabam por se matar entre si: as tribos lutam umas contra as outras na falta, claro, de poderem enfrentar o verdadeiro inimigo — e, naturalmente, a política colonial fomenta as suas rivalidades; o irmão, ao levantar o cutelo contra seu irmão, pensa destruir de uma vez por todas a imagem odiada do comum envilecimento. Mas essas vítimas expiatórias não apaziguam a sua sede de sangue; não evitarão lançar-se contra as metralhadoras senão fazendo-se nossos cúmplices: eles mesmos vão acelerar a evolução dessa desumanização que repelam. Debaixo do olhar enganoso do colono, protegeram-se contra si próprios com barreiras sobrenaturais, reanimando antigos mitos terríveis ou amarrando-se a ritos meticulosos: assim, a inquietação evade a sua exigência profunda, infligindo-se manias que o ocupam a todo o instante. Dançam: isso é a sua ocupação; desembaraçam os seus músculos dolorosamente contraídos e, além disso, a dança dissimula, secretamente, o «não» que não podem dizer, os assassinatos que não se atrevem a praticar. Em certas regiões utilizam este último recurso: o estado de possesso. O que antes era acto religioso na sua simplicidade, certa comunicação do fiel com o sagrado, convertem-no numa arma contra a desesperança e a humilhação: os zars, as loas, os santos descem sobre eles, governam a sua violência e levam-na até ao esgotamento. Ao mesmo tempo, esses altos personagens dão-lhes protecção: isto quer dizer que os colonizados defendem-se da alienação colonial acrescentando-lhe a alienação religiosa. O único resultado, no fim de contas, é que acumulam ambas as alienações e cada uma se reforça a si mesma ainda mais. Assim, como em certas psicoses, cansados de serem todos os dias insultados, acreditam que algum dia escutarão a voz de um anjo que os saúda; as máculas não se apagam, é verdade: daqui em diante, alternarão com a alegria. É uma defesa e o final da sua aventura: a pessoa está dissociada, o doente encaminha-se para a demência. Há que acrescentar, no caso de alguns infelizes rigorosamente escolhidos, esse outro estado de possesso de que atrás se falou: a cultura ocidental. Em seu lugar, dirão, eu preferiria os meus zars à Acrópole. Bom, isso quer dizer que compreenderam. Mas não inteiramente, claro, porque vocês não se encontram no lugar deles. Também não. De outra maneira, saberiam que eles não podem escolher: acumulam. Dois mundos, ou melhor, dois estados de possesso: ou bailam toda a noite ou penetram nas igrejas ao alvorecer para ouvir missa; dia a dia, a grilheta dói mais. O nosso inimigo atraiçoa os seus irmãos e faz-se nosso cúmplice; seus irmãos fazem o mesmo. A condição do indígena é uma neurose introduzida e mantida pelo colono entre os colonizados, com o seu consentimento.

Reclamar e negar, ao mesmo tempo, a condição humana: a contradição é explosiva. E todos sabemos bem como explode. Vivemos na época da deflagração: basta que ao aumento dos nascimentos se acrescente a miséria, que os recém-nascidos tenham que temer a vida um pouco mais que a morte, e a torrente da violência rompe todas as barreiras. Na Argélia, mata-se à vista os europeus. É o momento do boomeramg, o terceiro tempo da violência: volta-se contra nós, atinge-nos e, como de costume, não compreendemos que é a nossa. Os «liberais» ficam confusos: reconhecem que não eram bastante corteses com os indígenas, que teria sido mais justo e mais prudente outorgar-lhes certos direitos na medida do possível; não pediam outra coisa senão que fossem admitidos por direito e sem padrinhos nesse clube tão fechado, a nossa espécie: e é aqui que esse ímpeto bárbaro e louco não os respeita de modo diferente como aos maus colonos. A esquerda metropolitana sente-se ofendida: conhece a verdadeira sorte dos indígenas, a opressão sem piedade de que são vítimás e não condena a sua rebeldia, sabendo que se tem feito tudo para a provocar. De qualquer modo, pensa, há limites: esses guerrilleros deveriam esforçar-se por se mostrarem cavalheirescos; seria o melhor meio de provar que são homens. Às vezes, repreendem-nos: «Vocês vão demasiado longe, não vos apoiaremos mais.» Não lhes importa; porque serve o apoio que lhes convém, já podem fazer com ele o que mais lhes agrada. Desde que começou a guerra, compreenderam essa rigorosa verdade: todos valemos o que somos, todos nos temos aproveitado deles, não têm que provar nada, não farão distinções com ninguém. Um só dever, um único objectivo: expulsar o colonialismo por todosos meios. E os mais conscientes entre nós estariam dispostos, em rigor, a admiti-lo, mas não podem deixar de ver nessa prova de força o meio inumano que os sub-homens assumiram para conseguir que se lhes outorgue uma carta de humanidade: se lhes conceda, o mais depressa possível e que tratem logo, por meios pacíficos, de a merecer. As nossas belas almas são racistas.

Servir-nos-á bem a leitura de Fanon; essa violência irreprimível, demonstra-o plenamente, não é uma absurda tempestade nem a ressurreição de instintos selvagens, nem sequer um efeito do ressentimento: é o próprio homem que se reintegra. Essa verdade, parece-me, temo-la conhecido e esquecido: nenhuma doçura apagará os sinais da violência; só a violência os pode destruir. E o colonizado cura-se da neurose colonial expulsando o colono com as armas. Quando a sua ira estala, recupera a transparência perdida, conhece-se na própria medida em que se faz; de longe, consideramos a sua guerra como o triunfo da barbárie; mas procede por si mesma à emancipação progressiva do combatente, liquida nela e fora dela, progressivamente, as trevas coloniais. Desde que começa, é uma guerra sem piedade. Continua aterrorizado ou toma-se um ser terrível; quer dizer: abandona-se às dissociações de uma vida falseada ou conquista a unidade nacional. Quando os camponeses recebem armas, os velhos mitos morrem, as proibições desaparecem uma por uma; a arma de um combatente é a sua humanidade. Porque, nos primeiros momentos da rebelião, há que matar: matar um europeu é matar dois pássaros de um só tiro, suprimir para sempre um opressor e um oprimido: tombam um homem morto e um homem livre; o sobrevivente, pela primeira vez, sente um solo nacional debaixo dos seus pés. Nesse instante, a nação não se afasta dele: encontra-se em qualquer sítio para onde vá ou onde esteja — nunca mais longe, ela confunde-se com a sua liberdade. Mas, após a primeira surpresa, o exército nacional reage: é necessário unir-se ou fazer matar. As discórdias tribais atenuam-se, tendem a desaparecer; primeiro, porque põem em perigo a Revolução e, mais profundamente, porque elas não teriam outra finalidade senão fazer derivar a violência contra os falsos inimigos. Quando elas persistem — como no Congo — é porque são alimentadas pelos agentes do colonialismo. A nação põe-se em marcha: para cada irmão estão em qualquer lado onde combatam outros irmãos. O seu amor fraternal é o contrário do ódio que vos têm: são irmãos porque cada um deles matou ou pode matar em qualquer momento. Fanon mostra aos seus leitores os limites da «espontaneidade», a necessidade e os perigos da «organização». Mas, qualquer que seja a importância da tarefa, em cada passo se desenvolve a consciência social. Os últimos complexos desaparecem: que nos falem do «complexo de dependência» no soldado da A. L. N. [Exército de Libertação Nacional]. Libertado dos seus antolhos, o camponês toma consciência das suas necessidades: eles matavam, mas ele fazia por os ignorar; agora, descobre-os como exigências infinitas. Nesta violência popular, para se manter por cinco anos, oito anos, como fizeram os argelinos, as necessidades militares, sociais e políticas não podem distinguir-se. A guerra — ainda que se coloque apenas a questão do comando e das responsabilidades — institui novas estruturas que serão as primeiras instituições da paz. Eis aqui, pois, o homem instaurado nas novas tradições, filhas futuras de um horrível presente, eis aqui legitimado por um direito que vai nascer, que nasce cada dia no próprio fogo: com o último colono morto, reembarcado ou assimilado, a espécie minoritária desaparece e cede o seu lugar à fraternidade socialista. E isto não chega: esse combatente destrói as etapas; pensam que ele não arrisca a sua pele para se encontrar ao nível do velho «metropolitano». Tem muita paciência: talvez sonhe por vezes com um novo Dien-Bien-Phu; mas, na realidade, não conta com isso: é um mendigo que luta, na sua miséria, contra os ricos fortemente armados. Esperando as vitórias decisivas e muitas vezes sem esperar nada, atormenta os seus adversários até os exacerbar. Isto não se faz sem perdas espantosas; o exército colonial volta-se feroz: quadrilhas,ratissages, concentrações, expedições punitivas; assassinam-se mulheres e crianças. Ele sabe: esse homem novo começa a sua vida de homem pelo fim; sabe-se morto em potência. Matá-lo-ão: não só aceita o risco, como tem disso plena certeza; esse morto em potência perdeu a sua mulher e os seus filhos, viu tantas agonias, que prefere vencer do que sobreviver; outros gozarão com a vitória, ele não: está muito cansado. Mas essa fadiga do coração é o sinal de uma inesgotável coragem. Encontramos a nossa humanidade mais aquém da morte e do desespero, ele encontrá-la-á, pelo contrário, além dos suplícios e da morte. Nós temos semeado o vento, ele é a tempestade. Filho da violência, nela encontra a cada momento a sua humanidade: éramos homens à sua custa, ele faz-se homem à nossa custa. Um outro homem: de melhor qualidade.

Aqui se detém Fanon. Ele mostrou o caminho: porta-voz dos combatentes, reclamou a união, a unidade do continente africano contra todas as discórdias e todos os particularismos. O seu fim está atingido. Se quisesse descrever integralmente o facto histórico da colonização, teria que falar de nós: isso não foi, sem dúvida, o seu propósito. Mas, quando fechamos o livro, ele continua presente em nós, apesar do seu autor não querer, porque experimentamos a força dos povos em revolução e respondemos com a força. Há, pois, um novo momento de violência e é necessário voltarmo-nos para nós, porque essa violência nos está mudando na medida em que o falso indígena muda através dela. Cada qual deve conduzir as suas reflexões como entender. Mas é preciso que de facto as reflicta: na Europa de hoje, aturdida pelos golpes que recebe na França, na Bélgica, na Inglaterra, a menor distracção do pensamento é uma cumplicidade criminal com o colonialismo. Este livro não necessitava de prefácio. Sobretudo, porque não se dirige a nós. Escrevi-o, no entanto, para levar a dialéctica às suas últimas consequências: também a nós, europeus, nos estão descolonizando; quer dizer, estão extirpando numa sangrenta operação o colono que habita em cada um de nós. Olhemo-nos bem, se tivermos coragem, e verificaremos que isso existe de facto em nós.

Primeiro, temos que encarar um espectáculo inesperado: o striptease do nosso humanismo. Ei-lo aqui nu e nada formoso: não era senão uma ideologia mentirosa, a esquisita justificação da pilhagem; as suas ternuras e o seu preciosismo justificavam as nossas agressões. Eles têm boa cara, os não-violentos: nem vítimas, nem verdugos! Vamos! Se vocês não são vítimas, quando o governo que aceitaram em plebiscito, quando o exército em que serviram os vossos irmãos, sem vacilação nem remorso, empreenderam um «genocídio», vocês são indubitàvelmente os seus verdugos. E se preferem ser vítimas, arriscar-se a um ou dois dias de prisão, optam simplesmente por retirar uma carta do jogo. Não podem retirá-la: têm que permanecer ali até ao fim. Compreendam isto uma vez: se a violência começa, se a exploração e a opressão não tivessem existido nunca sobre a terra, talvez a apregoada «não-violência» pudesse pôr termo à querela. Mas se o regime inteiro e até as suas ideias sobre a não-violência estão condicionados por uma opressão milenária, a sua passividade não serve senão para os alienar do lado dos opressores.

Sabem bem que somos exploradores. Sabem que nos apoderamos do ouro, dos metais e do petróleo dos «continentes novos» para os conduzir às velhas metrópoles. Não sem excelentes resultados: palácios, catedrais, capitais industriais; e quando a crise ameaçava, aí estavam os mercados coloniais para a abrandar ou desviar. A Europa, carregada de riquezas, outorgou de jure a humanidade a todos os seus habitantes: um homem quer dizer um cúmplice, dado que todos temos beneficiado com a exploração colonial. Esse continente gordo e macilento acaba por cair naquilo a que Fanon chama justamente «narcisismo». Cocteau irritava-se com Paris, «essa cidade que fala todo o tempo de si própria». E que outra coisa faz a Europa? E esse monstro super-europeu, a América do Norte? Que tagarelice: liberdade, igualdade, fraternidade, amor, honra, pátria, que sei eu? Isto não nos impedia de pronunciar ao mesmo tempo frases racistas, negro sujo, sórdido judeu, maldito raton. Os bons espíritos, liberais e delicados — os neo-colonialistas, numa palavra — pretendiam sentir-se ofendidos por essa inconsequência; erro ou má fé: nada mais consequente, entre nós, que um humanismo racista, dado que o europeu não pôde fazer-se homem senão fabricando escravos e monstros. Enquanto existiu a condição de indígena, a impostura não se descobriu; encontrava-se no género humano uma abstracta formulação de universalidade que servia para encobrir práticas mais realistas: havia, do outro lado do mar, uma raça de sub-homens que, graças a nós, em mil anos possivelmente, alcançariam a nossa actual condição. Em resumo, confundia-se o género com a elite. Actualmente, o indígena revela a sua verdade; de um golpe, o nosso clube tão fechado mostra a sua fraqueza: não era mais nem menos do que uma minoria. O que é pior: posto que os outros se fazem homens contra nós, demonstra-se que somos os inimigos do género humano; a elite descobre a sua verdadeira natureza: a de um gang. Os nossos mais queridos valores perdem as suas asas; se os contemplarmos em redor, não encontraremos um só que não esteja manchado de sangue. Necessitam de um exemplo, recordem as grandes frases: Como é generosa a França! Generosos, nós? E Sétif? E essa guerra feroz que durou oito anos e custou a vida a mais de um milhão de argelinos? E a tortura? Mas compreendam que não se censura termos falsificado uma missão: simplesmente porque não tínhamos nenhuma. É a generosidade que mesmo se põe em dúvida; essa formosa palavra não tem mais do que um sentido: estatuto concedido. Para os homens de boa fé, novos e livres, ninguém tem o poder nem o privilégio de dar nada a ninguém. Cada um tem todos os direitos. Sobre todos. E a nossa espécie quando um dia chegue a ser, não se definirá como a soma dos habitantes do globo, mas como a unidade infinita das suas reciprocidades. Aqui me detenho; podem continuar o trabalho sem dificuldade. Basta olhar em frente, pela primeira e última vez, as nossas aristocráticas virtudes: elas morrem; como poderiam sobreviver à aristocracia de sub-homens que as engendraram? Há anos, um comentador burguês — e colonialista — para defender o Ocidente não pôde dizer nada mais do que isto:

«Não somos anjos. Mas, pelo menos, temos remorsos.»

Que declaração! Noutra época, o nosso continente tinha outros salva-vidas: o Pártenon, Chartres, os Direitos do Homem, a Suástica. Agora sabemos o que valem: e já não pretendem salvar-nos do naufrágio senão através do sentimento muito cristão da nossa culpabilidade. É o fim, como poderão ver: a Europa mete água por todos os lados. Que sucedeu? Simplesmente isto: éramos os sujeitos da História e agora somos os seus objectos. A relação de forças inverteu-se, a descolonização está a caminho; tudo o que os nossos mercenários podem fazer é retardar a sua plena realização.

Não faz mal que as velhas «metrópoles» intervenham, comprometam todas as suas forças numa batalha de antemão perdida. Essa velha brutalidade colonial que fez a duvidosa glória dos Bugeaud voltamos a encontrá-la, no fim da aventura, decuplicada mas insuficiente. Envia o exército para a Argélia e ali se mantém durante sete anos sem resultado. A violência mudou de sentido; vitoriosos, exercíamo-la sem que nada nos alterasse: decompunha aos outros e a nós, os homens, o nosso humanismo permanecia intacto; unidos pela ganância, os metropolitanos baptizam de fraternidade e amor a comunidade dos seus crimes; actualmente, bloqueada por todos os lados, volta sobre nós através do nossos soldados, interioriza-se e domina-nos. A involução começa: o colonizado reintegra-se e nós, ultras e liberais, colonos e «metropolitanos» desintegramo-nos. Já a raiva e o medo estão nus: mostram-se a descoberto nas ratonnades de Argel. Onde estão agora os selvagens? Onde está a barbárie? Não falta nada, nem mesmo o tam-tam: os claxons cadenciam «Argélia Francesa», enquanto os europeus queimam vivos os muçulmanos. Não há muito, recorda Fanon, os psiquiatras afligiam-se num congresso pela criminalidade dos indígenas: essa gente mata-se entre si, diziam, e isso não é natural; o córtex cerebral do argelino deve estai subdesenvolvido. Na África Central, outros estabeleceram que «o africano utiliza muito pouco os seus lóbulos frontais». Esses sábios deveriam prosseguir o seu inquérito na Europa e particularmente entre os franceses. Porque também nós, desde há alguns anos, devemos estar afectados de preguiça frontal: os patriotas começam a matar os seus compatriotas; em caso de ausência, fazem ir pelos ares o porteiro e a nossa casa. Não é mais do que o princípio: a guerra civil está marcada para o Outono ou para a próxima Primavera. Os nossos lóbulos parecem, sem dúvida, em perfeito estado: não será antes que, não podendo esmagar o indígena, a violência volta-se contra si mesma, acumula-se no fundo de nós próprios e procura uma saída? A união do povo argelino produz a desunião do povo francês; em todo o território da antiga metrópole, as tribos dançam e preparam-se para o combate. O terror saiu de África para se instalar aqui: porque estão furiosos, querem fazer-nos pagar com o nosso sangue a vergonha de terem sido derrotados pelo indígena e estão os outros, também culpados — depois de Bizerta, depois dos linchamentos de Setembro, quem saiu à rua para dizer: basta? — mas mais sossegados: os liberais, os mais duros dos duros da esquerda moderada. Também a eles sobe a febre e o mau humor. Mas que espanto! Dissimulam a sua raiva com mitos, com ritos complicados; para atrasar o julgamento final e a hora do ajuste de contas, puseram na nossa cabeça um Grande Feiticeiro, cujo ofício é manter-nos por qualquer preço na obscuridade. Nada se consegue; proclamada por uns, rechaçada por outros, a violência gira à volta, em círculo: um dia, explode em Metz, no dia seguinte em Bordéus; passou por aqui, passará por ali, é como a destreza do furão. À nossa volta, passo a passo, nós percorremos o caminho que conduz à condição de indígena. Mas para nos convertermos inteiramente em indígenas, seria necessário que o nosso solo fosse ocupado pelos antigos colonizados e que morrêssemos de fome. Isto não sucederá: não, é o colonialismo decadente o que nos domina e nos fará cavalgar prontamente; corrompido e soberbo; esse é o nosso zar, a nossa loa. E ao ler o último capítulo de Fanon, convencemo-nos de que vale mais ser um indígena no pior momento da sua desdita, do que um ex-colono. Não é bom que um funcionário da polícia se veja obrigado a torturar durante dez horas diárias: nesse passo, os seus nervos chegarão a esfrangalhar-se, a não ser que se proíba aos verdugos, para seu bem, de fazerem horas suplementares. Quando se quer proteger pelo rigor das leis a moral da nação e do exército, não é bom que este desmoralize sistematicamente aquela. Nem que um país de tradição republicana confie, através de centenas de milhares, os seus jovens aos oficiais putshistes. Não é bom, compatriotas, vós que conheceis todos os crimes cometidos em nosso nome, não é realmente bom que não digam a ninguém uma só palavra, nem sequer à sua própria alma, por medo de terem que julgar-se a si mesmos. Ao princípio, ignoravam, acredito; agora sabem, mas continuam calados. Oito anos de silêncio degradam. E inutilmente: hoje, o deslumbramento solar da tortura está no zénite, ilumina todo o país; debaixo dessa luz, nenhum riso soa bem, não existe uma cara que se não mascare para encobrir a cólera ou o medo, não há um acto que não atraiçoe a nossa repugnância e cumplicidade. Basta que hoje dois franceses se encontrem para que haja entre eles um cadáver. E digo um… A França era antes o nome de um país; temos dúvidas de que não seja, em 1961, o nome de uma neurose.

Curar-nos-emos? Sim. A violência, como a lança de Aquiles, pode cicatrizar as feridas que abriu. Hoje, estamos presos, humilhados, doentes de medo: estamos muito em baixo. Felizmente isto não chega à aristocracia colonialista: ela não pode concluir a sua missão retardatária na Argélia, sem colonizar antes os franceses. Cada dia retrocedemos frente à contenda, mas podem estar certos de que a não evitaremos: eles, os assassinos, precisam dela; seguem revoluteando em redor de nós e espancam a multidão. Assim, acabará o tempo dos bruxos e dos feitiços: terão que ser espancados ou apodrecer nos campos. É o momento final da dialéctica: condenam essa guerra, mas não se atrevem, todavia, a declarar-se solidários com os combatentes argelinos; não tenham medo, os colonos e os mercenários obrigá-los-ão a dar este passo. Talvez, então, encurralados contra a parede, desenfreareis por fim essa violência nova suscitada pelos velhos crimes acumulados. Mas isso, como costuma dizer-se, é outra história. A história do homem. Estou certo de que já se aproxima o momento em que nos uniremos a quem a está fazendo.

Setembro de 1961.
JEAN-PAUL SARTRE

Fonte: http://www.buala.org/pt/a-ler/os-condenados-da-terra-de-frantz-fanon-prefacio-de-jean-paul-sartre

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Ehud Barak

Os EUA admitem que Israel caminha

para um regime permanente de apartheid

Por Glenn Greenwald 

Com o apoio sistemático dos EUA, o sionismo prossegue a sua acção de ocupação territorial e de discriminação e negação de qualquer espécie de direitos ao povo palestino. Constrói um regime idêntico ao da África do Sul do apartheid. Mas deve acrescentar-se que a política de Israel não é só de discriminação, é também de genocídio. Os seus antecedentes históricos não estão só na África do Sul.

Em 2010 Ehud Barak, então ministro da Defesa israelita, advertiu explicitamente que Israel se tornaria um regime de “apartheid” se não chegasse a um acordo de paz com os palestinos em que estes tivessem a sua própria nação soberana e plenos direitos políticos. “Enquanto neste território a oeste do rio Jordão existir apenas uma entidade política chamada Israel esta ou será não-judia ou não-democrática”. Disse Barak: “Se este bloco de milhões de palestinos não puder votar, isso será um regime de apartheid”.

Observadores honestos situados em ambos os lados do conflito há muito reconheceram que a perspectiva de uma solução de dois Estados é virtualmente inexistente: uma outra maneira de dizer que o status de Israel como regime de apartheid permanente é inevitável. Com efeito, as agências de Inteligência dos EUA já há 45 anos advertiam explicitamente que a ocupação israelita seria permanente se não terminasse de imediato.

Todos os acontecimentos relevantes confirmam que foi justamente isso que sucedeu. Durante muitos anos não houve qualquer progresso no sentido da solução de dois Estados. A composição da população judia de Israel – que se tornou de longe mais beligerante e de direita que as gerações anteriores – afastou cada vez mais o país desse objectivo. Há ministros-chave no governo de Israel, incluindo o genuinamente extremista ministro da Justiça, que são aberta e explicitamente opostos à solução dos dois Estados. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deixou claro, tanto em palavras como em atos, que se opõe a um tal acordo. Em suma, o objectivo de Israel é continuar governando uma Palestina ocupada, negando indefinidamente aos palestinos o direito à autonomia, às liberdades políticas e o direito de voto.

Apesar desta agressão e opressão, ou talvez por causa delas, a administração Obama tem protegido continuamente Israel com uma lealdade inquebrantável e tem-lhe oferecido generosamente armas e dinheiro. Este prémio à conduta israelita teve o seu ponto mais alto com o anúncio, há três semanas [13 de Setembro de 2016], da assinatura de um “memorando de entendimento”, no sentido de incrementar significativamente o quantitativo de dinheiro que os EUA dão a Israel cada ano, apesar de Israel ser já, de longe, o país que mais dinheiro recebe dos EUA. Segundo este acordo os EUA darão a Israel 38.000 milhões de dólares ao longo de 10 anos, um novo record na ajuda internacional dos EUA, embora os cidadãos israelitas gozem de todo o tipo de beneficios estatais que os estado-unidenses (cujo dinheiro é entregue a Israel) não têm – porque lhes é dito que são demasiado onerosos – incluindo o acesso universal aos cuidados de saúde que melhoraria a esperança de vida e diminuiria a mortalidade infantil.

Com o acordo que lhe dará 38.000 milhões de dólares no bolso o governo de Israel anunciou a aprovação um novo colonato na Cisjordânia, em marcada oposição às posições formais dos EUA, ao consenso internacional e a qualquer perspectiva de fim da ocupação. Segundo The New York Times: “o novo colonato foi desenhado como uma cadeia de complexos habitacionais que ameaçam dividir a meio a Cisjordânia. O objectivo é alojar colonos de um colonato ilegal próximo, Amona, cuja demolição foi ordenada por um tribunal israelita”. Este novo colonato estende-se em profundidade na faixa oeste: fica efectivamente mais próximo da Jordânia do que de Israel.

Em resposta a este anúncio, o Departamento de Estado dos EUA publicou um comunicado em que denuncia as acções de Israel em termos invulgarmente duros: “Condenamos energicamente a recente decisão do governo de Israel de avançar com um plano que iria criar um importante novo colonato profundamente avançado na Faixa Ocidental”, começava. Sugeriu que Netanyahu tem vindo a mentir publicamente, fazendo notar que “a aprovação contradiz anteriores declarações públicas prévios do governo israelita de que não tinha a intenção de criar novos colonatos”. O Departamento de Estado invocou o pacote de ajuda que os EUA acabavam de conceder, descrevendo como “profundamente preocupante, no momento em que Israel e os EUA concluem um acordo de assistência militar sem precedentes, delineado para fortalecer a segurança israelita, que Israel tomasse uma decisão tão contrária aos interesses da sua segurança a longo prazo nos termos de uma resolução pacífica do seu conflito com os palestinos”.

Boa parte disto, ainda que algo mais claro retoricamente do que é costume, é para a galeria: os EUA – segundo a modalidade Obama – divulgam belos comunicados, agradáveis declarações proclamando estar incomodados com os colonatos israelitas, enquanto prosseguem incessantemente ações que protegem e viabilizam as mesmas políticas a que Obama finge opor-se. Mas esta denúncia do Departamento de Estado foi efetivamente notável pelo seu reconhecimento explícito e severo – e há muito devido – de que Israel está clara e irreversivelmente empenhado em dominar perpetuamente os palestinos, tornando-se o exato regime de apartheid acerca do qual Ehud Barak advertira.

“Os israelitas devem em última análise decidir entre expandir os colonatos ou preservar a possibilidade de uma solução pacífica de dois Estados. Desde o último relatório trimestral da Comissão Quadripartida, em que foi feito um apelo a ambas as partes a que invertessem o rumo em curso e avançassem no sentido da solução de dois estados, o que se verificou, infelizmente, foi o contrário. Avançar com este novo colonato é mais um passo no sentido da consolidação de uma realidade de um só Estado de ocupação perpétua, que é fundamentalmente incoerente com o futuro de Israel como um Estado judeu e democrático. Iniciativas destas apenas gerarão condenação por parte da comunidade internacional, o afastamento de Israel de muitos dos seus parceiros, e porão ainda mais em causa o empenho de Israel em alcançar acordo de paz negociado.”

Portanto Israel – segundo as palavras do seu mais leal benfeitor – está a mover-se inexoravelmente no sentido “da consolidação de uma realidade de um só Estado de ocupação perpétua ” que é antidemocrático: ou seja, que é o equivalente do apartheid. E o principal protector e promotor deste regime de apartheid são os EUA – tal como fizeram com o regime de apartheid na Africa do Sul nos anos oitenta.

Pior ainda, Hillary Clinton, que com alta probabilidade será a próxima presidente dos EUA, prometeu não só continuar tudo isto como aumentar tanto a ajuda a Israel em geral e a Netanyahu em particular. Com efeito, a sua única crítica à política dos EUA foi de que estes não têm sido suficientemente leais a Israel. O seu opositor, Donald Trump, exprimiu de início algumas discordâncias acerca da política relativa a Israel, mas desde então entrou na linha. A absoluta ausência de discordância política sobre este tema no círculo político dos EUA está reflectida no facto de que a única oposição ao pacote de 38.000 milhões de dólares veio de um grupo de senadores que – fazendo eco de Netanyahu – manifestaram irritação por não ter havido ainda maior generosidade para com Israel, à custa dos cidadãos estado-unidenses. Em resumo, o apoio incondicional a apartheid de Israel é virtualmente consenso inquebrantável entre as elites políticas dos EUA.

O pior de tudo é que a ortodoxia política dos EUA não só tem financiado, alimentado e protegido este Estado de apartheid como tenta ilegitimar todas as forma de resistência a este. Tal como fez antes com o Congresso Nacional Africano e Nelson Mandela, os EUA denunciam hoje como “terroristas” todos os grupos e indivíduos que usam a força contra o exército de ocupação israelita. Tem denegrido os programas não-violentos contra a ocupação – como el movimento pelo boicote, as sanções e a retirada de investimentos – catalogando-os como intolerantes e anti-semitas (uma postura que Clinton tem defendido com especial veemência). E o movimento pelo boicote tem sido alvo de ataque crescente em todo o Ocidente, onde é censurado e até criminalizado. Segundo a ortodoxia política dos EUA a única via de acção aceitável para os palestinos e os que apoiam o seu direito a libertarem-se da ocupação é a submissão total.

Apesar de consenso ocidental continuar a venerar os mais incondicionais apoiantes do regime sul-africano do apartheid – Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Shimon Peres – ao menos agora considera o apartheid naquele país como uma desgraça histórica. A história deveria considerar exactamente do mesmo modo os que promovem a marcha de Israel no sentido de um apartheid permanente. Os mais agressivos e constantes promotores deste apartheid encontram-se no estrato mais alto da classe política dos EUA.

http://www.theintercept.com.
Texto completo en: http://www.lahaine.org/eeuu-admite-que-israel-marcha

http://www.odiario.info/os-eua-admitem-que-israel-caminha/

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As aflições de Kerry são indescritíveis

Por M K Bhadrakumar

Os Estados Unidos pediram o julgamento da Rússia por cometer crimes de guerra na Síria. O secretário de Estado John Kerry disse em Washington na sexta-feira: “A Rússia e o regime (sírio) devem ao mundo mais do que uma explicação… Trata-se de actos que pedem uma investigação adequada de crimes de guerra. E aqueles que os cometem deveriam ser responsabilizados… Também precisamos manter a pressão sobre a Rússia em relação à implementação do acordo de Minsk (sobre a Ucrânia). E.. deixamos claro publicamente que se não pudermos implementar Minsk nos próximos meses ou chegarmos a um plano claro de como exactamente vai ser implementado… então será absolutamente necessário renovar as sanções (contra a Rússia)”.

Não há dúvida, a temperatura abaixo de zero nas relações EUA-Rússia reduziu-se mais uns dez graus Celsius. Mesmo na época da Guerra Fria, quando a antiga União Soviética era tratada como um “império do mal”, Washington nunca pretendeu que os responsáveis do Kremlin devessem ser julgados por crimes de guerra.

Nem tão pouco a União Soviética. Mesmo depois de matarem centenas de milhares de civis iraquianos, líbios e afegãos e promoverem a destruição injustificável daqueles países na última década, e apesar de os EUA estarem activamente a tomar parte na guerra o Iémen, Moscovo nunca pretendeu que George W. Bush ou Barack Obama – ou mesmo Hillary Clinton – devessem ser processados como criminosos de guerra.

O que influenciou Kerry? Ele parece um homem frustrado que perdeu sua frieza. Percebe que o seu homólogo russo, Sergey Lavrov, foi mais hábil do que ele, apesar de ele se considerar igualmente brilhante.

Os EUA esperavam preservar de alguma forma a Nusra afiliada à al-Qaeda a fim de utilizá-la como ponta de lança em mais um empurrão final para a “mudança de regime” na Síria – se não sob a presidência Obama, pelo menos sob o próximo presidente. Na verdade, Lavrov percebeu a trama de Kerry – no fundo, Kerry, um político esperto com alguma experiência em diplomacia não podia estar à altura do imensamente experiente diplomata de carreira e intelectual que é Lavrov. Assim, Lavrov actuou com uma cara de jogador de poker e enredou “John” num acordo de paz que o Pentágono nunca aprovaria, o qual tencionava realmente transformar a Nusra em carne moída.

Por outro lado, Kerry sente frustração porque o presidente Barack Obama não desejava abrir um caminho paralelo de intervenção militar na Síria, a qual, pensava ele, teria dado uma muito necessária insolência à sua rota diplomática. Kerry pertence à velha escola dos mediadores de poder em Washington, os quais subscrevem a noção de que os Fuzileiros Navais abrem caminho para diplomatas. (Ele próprio outrora foi um Marine)

Mas Kerry não percebeu que o terreno por baixo dos pés americanos no Médio Oriente se havia deslocado. As relações dos EUA com a Turquia bem como com a Arábia Saudita, as duas potências chave que alimentaram o conflito sírio, são hoje tão amargas que Washington está a actuar isolado no anfiteatro apesar de a orquestra ter abandonado o maestro. ( Sabah )

O que me intriga é a razão porque Kerry quer que apenas os líderes russos e sírios sejam julgados por crimes de guerra. Por que não o Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, assim como quem comanda os Corpos da Guarda Revolucionária Islâmica? Mas nesta altura dos acontecimentos Kerry não pode proferir essa palavra de quatro letras – Irão – porque se supõe que o compromisso com aquele país seja o melhor legado da presidência Obama. Mas, se não fosse o Exército da Guarda Revolucionária Islâmica, o qual se sacrificou tão fortemente em sangue e riquezas, o governo sírio nunca poderia prevalecido no combate. ( Times of Israel )

O terceiro aspecto fascinante da observação apocalíptica de Kerry é que ele parece sugerir que os EUA ainda pretendem vencer a guerra na Síria. Afinal de contas, uma constante característica da história é que o vencedor despache o derrotado para o tribunal dos crimes de guerra – seja Slobodan Milosevic ou Saddam Hussein.

Dito de modo diferente, será que Kerry quer dizer que os EUA pretendem derrotar a Rússia numa guerra? Será o seu prognóstico que a III Guerra Mundial está logo ali na esquina? Não compreende ele que a total aniquilação do seu próprio país num confronto nuclear com a Rússia tornaria irrelevante toda a sua conversa acerca de crimes de guerra?

Kerry deve estar a sentir-se frustrado porque o Nobel foi para o presidente colombiano! Que modo de acabar uma carreira distinta na política e na diplomacia sem grande reconhecimento pelo bom trabalho feito! Kerry deixa o palco da diplomacia internacional como um homem amargurado.

É improvável que Lavrov responda. O que pode ele dizer, afinal de contas? Kerry excedeu-se para reverter a maré da história e o resultado era razoavelmente previsível. Não importam suas resolutas tentativas, ele não podia apagar a realidade geopolítica de que os EUA são uma potência em retirada. Não só no Médio Oriente mas também na Ásia-Pacífico.

A visão de uma super-potência a caminhar para o crepúsculo nunca é agradável. Foi o caso com Roma, Bizantinos, Espanha, Portugal, França, Grã-Bretanha. Vejam-se as notícias mais recentes do Mar do Sul da China. ( Wall Street Journal )

http://resistir.info/russia/bhadrakumar_08out16.html