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Resultado de imagem para manifestação anti fascista na california

EUA: Polícia californiana acusada de colaborar com militantes neo-nazis

Agentes terão pedido a elementos da extrema-direita para identificar activistas anti-racistas durante um protesto que degenerou em violência.

A polícia do estado norte-americano da Califórnia é suspeita de ter colaborado com elementos de um grupo neo-nazi, o Partido Tradicionalista dos Trabalhadores, para identificar e levar a tribunal activistas anti-racistas, noticia o jornal Sacramento Bee e Guardian. A acusação é sustentada por documentos da defesa de três activistas anti-fascistas que estão a ser julgados por distúrbios ocorridos numa manifestação em Sacramento, em Junho de 2016. Durante o protesto, pelo menos um dos arguidos sofreu ferimentos de arma branca.

Os documentos que integram o processo indicam a colaboração entre agentes da brigada de trânsito da polícia da Califórnia e vários membros do referido partido neo-nazi, e que estes foram encarados como vítimas pelas autoridades. É referido, por exemplo, o pedido de auxílio feito a um dos dirigentes da organização racista, Derik Punneo, para que este identificasse elementos anti-fascistas presentes no protesto em Sacramento. 

Punneo, segundo consta de relatórios judiciais, foi visitado por agentes na prisão, onde estava por crimes de violência doméstica, e terá identificado alvos através de fotografias. Registos áudio revelam que, em troca, a polícia ofereceu protecção  ao neo-nazi. “Vamos atrás deles. Olhamos para ti como uma vítima”, cita o Guardian.

A outro dirigente neo-nazi, Doug McCormack, organizador da marcha em Sacramento que motivou o protesto dos anti-racistas, não só foi prometida protecção como anonimato. Ao pedir autorização para o acto político, um responsável policial a cargo da investigação, Donovan Ayres, advertiu McCormack que, por lei, o seu nome seria listado publicamente. Ayres acabaria por solicitar que o nome não fosse divulgado. E segundo os documentos, o oficial tinha ainda conhecimento que o neo-nazi estaria na posse de uma arma branca durante a manifestação.

Tanto Punneo como McCormack não foram acusados de qualquer crime na sequência dos distúrbios que acabariam por ocorrer no evento.

Os relatórios de Ayres são exaustivos nas informações sobre os activistas anti-racistas, reiteradamente tratados como suspeitos na investigação aos distúrbios. Em relação a um destes, um cidadão afro-americano que foi esfaqueado durante os protestos, Ayres recomenda que seja acusado de 11 crimes. Do ficheiro do potencial suspeito, e como indício de uma suposta intenção criminosa, fazia parte uma fotografia retirada do Facebook, onde este aparecia com o punho cerrado e erguido, um dos símbolos da resistência negra. Sobre essa fotografia, o agente da polícia escreveu que mostrava a sua “intenção e motivação para violar os direitos civis” do grupo neo-nazi. O suspeito acabou por não ser acusado, mas o episódio é agora recuperado pela defesa dos arguidos levados a tribunal como exemplo da ausência de imparcialidade da polícia californiana. 

Leia o artigo completo em:

https://www.publico.pt/2018/02/10/mundo/noticia/policia-californiana-acusada-de-colaborar-com-militantes-neonazis-1802707?

Corpos de Excepção

Por Nuno Ramos de Almeida

As guerras, massacres, abusos de autoridade e o tratamento de migrantes como escravos apoiam-se na nossa indiferença e em não darmos ao “outro” o estatuto de humanidade que damos a nós próprios. Só dando direitos iguais a todos iremos acabar com este silêncio criminoso e assassino

Antes dos comentários nas redes sociais, era o silêncio. Agora, os párias deste mundo são mortos várias vezes: são mortos quando as balas explodem neles e são mortos quando as hordas dos comentadores das redes sociais, instalados nos sofás das nossas cidades “Je Suis”, garantem que “se lhes aconteceu alguma coisa é porque alguma coisa de mal estariam a fazer”. Vamos do silêncio para o barulho, garantindo sempre o mesmo grau de indiferença ideológica, para que o massacre se faça sem grandes contestações.

Conto quatro histórias: a primeira passou-se há duas gerações, durante as quais toda a memória foi apagada; uma é filha da guerra sem fim ao terrorismo; as últimas duas acontecem cá. Todas elas remetem para um facto. Nos nossos países ditos civilizados, os únicos humanos somos nós, os burgueses, brancos e que vivemos no meio das cidades. Tudo o resto são seres subnormais que não são iguais a nós e cuja morte tem apenas, no máximo, um segundo de atenção e uma eternidade de indiferença.

Chovia em Paris no dia 17 de outubro de 1961. Mais de 30 mil argelinos, homens e mulheres e crianças, acudiram ao centro da Cidade Luz, vestidos com as suas melhores roupas. Os homens levavam os seus casacos e gravatas; as mulheres, os seus vestidos mais bonitos. Todos queriam protestar contra o recolher obrigatório decretado pelas autoridades para interditar os “franceses-muçulmanos-argelinos” de saírem de suas casas entre as oito e meia da noite e as cinco da manhã. Essa proibição era ilegal. Mas que interessava isso? Na Argélia lutava-se contra os independentistas, todos os árabes eram suspeitos. Paris, a pátria das proclamações dos “Direitos do Homem”. Noventa anos depois do massacre da Comuna de Paris, em plenos anos 60, as ruas foram novamente lavadas pelo sangue, e entre 150 e 300 argelinos foram mortos a tiro pela polícia francesa. Num dos sítios onde os corpos foram largados para serem engolidos pelo Sena, um agente quis imortalizar o momento e escreveu numa parede: “Aqui afogamos os argelinos.” Foram décadas de silêncio total. 
Trinta anos depois, um jornalista, Jean-Luc Einaudi, esteve sempre ao lado daqueles que exigiam que fosse quebrado o silêncio sobre a morte dos seus e publicou um livro, “A Batalha de Argel”, em que se contava o que aconteceu, O homem que ordenou o massacre foi Maurice Papon. Durante a ocupação nazi da França organizou as deportações de judeus para os campos da morte; no final da guerra, quando previu a derrota, começou a passar informações para a Resistência gaullista. Os nazis perderam a guerra e ele continuou funcionário da República. Da mesma forma que garantiu que 1560 judeus franceses fossem levados para campos de extermínio, onde foram assassinados e cremados, deu a ordem para que os argelinos fossem massacrados. Tanta dedicação valeu-lhe ser condecorado com a medalha da Légion d’Honneur. O funcionário exemplar teve o pequeno azar de o seu pecadilho no massacre dos judeus ter sido descoberto. Einaudi aproveitou o seu julgamento, em 1990, para denunciar o massacre de 1961. Resultado: foi processado por Papon por difamação. O jornalista pediu que fossem abertos os arquivos da polícia sobre os acontecimentos, para se poder defender. O pedido foi recusado. Conseguiu que dois funcionários do arquivo testemunhassem ter visto documentos que confirmavam as acusações a Papon. Einaudi foi absolvido no processo. O Estado tratou de abrir um novo processo contra os funcionários que testemunharam. 
Até agora, o condenado Papon, pelo seu papel como colaborador dos nazis, é o único responsável pelo massacre de 17 de outubro de 1961. Einaudi tinha dedicado o seu livro, “A Batalha de Paris”, a Jeannette Griff, de nove anos, deportada para Auschwitz em 1942, e Fatima Bedar, 15 anos, assassinada pela polícia no massacre de Paris. 
No início do seu livro “Théorie du Drone”, Grégoire Chamayou transcreve os diálogos de uma equipa de comando de um drone armado durante uma missão em que uma viatura vai ser destruída pelo veículo não tripulado armado. Estes militares, que atuam a milhares de quilómetros do campo de batalha, acordam de manhã, tomam as torradas com as suas famílias e depois vão trabalhar para um sítio onde comandam drones, e perante os dados que recolhem os sensores de sons, os intercetadores de comunicações e as câmaras, decidem se procedem ou não à destruição destes alvos. 
Neste caso, que inicia o livro de Chamayou, são civis inocentes os homens e mulheres e crianças que vão morrer, devido à decisão de os liquidar. Para evitar que as estatísticas sejam negativas para os mais de seis mil drones dos EUA, que atuam numa dúzia de países para muitos dos quais não há uma declaração formal de guerra do Congresso dos EUA, as autoridades vão caracterizar como “combatentes inimigos” todos os homens adultos que sejam alvo de um ataque, estejam armados ou não. O resto são inevitáveis danos colaterais. 

O planeta divide-se em duas zonas: uma civilizada, onde há um modo de vida do mundo livre a preservar, e outra selvagem, habitada por criaturas que podem ser abatidas para seu próprio bem. Esta estrutura replica-se, numa escala proporcional, nas nossas próprias zonas civilizadas: as cidades têm zonas de gente de bem e bairros suburbanos para imigrantes, pobres, negros e, portanto, criminosos. A guerra sem fim ao terrorismo justifica que vivamos numa espécie de estado de exceção permanente em que os direitos, liberdades e garantias podem ser suspensos para preservar a nossa segurança. Mas mesmo antes disso, nas nossas próprias cidades, as pessoas não têm todas os mesmos direitos. Se se é negro, imigrante, pobre ou se vive nos subúrbios espera-se, volto a repetir, que as forças da ordem se comportem de uma forma diferente do que fariam no meio da Avenida de Roma. Como me explicou, numa rede social, um polícia: “Essa escumalha também não se comporta connosco da mesma maneira.” 
A 4 de janeiro de 2009, um agente da polícia mata um rapaz negro de 14 anos. Dispara a arma a 15 centímetros da cabeça de Elson Sanchez, conhecido por Kuku. O relatório da PJ afasta a hipótese de ter havido legítima defesa. O jovem fugia de dentro de um carro roubado. Quando lá fui, dias depois, em reportagem pela TVI, um toxicodependente que estava na zona afirmou para a câmara que o polícia teria dito depois de disparar: “Acabei de dar um tiro nos cornos do preto.” Segundo uma norma interna para utilização de arma de fogo pelas for- ças de segurança, só é possível disparar se “existir um perigo iminente de morte ou ofensa grave à integridade física do elemento policial ou de terceiros (…) o que justifica o recurso efetivo a arma de fogo contra pessoas”. 
No dia 22 de novembro de 2017, a polícia disparou 40 balas contra o Renault Mégane de cor branca em que seguia Ivanice Carvalho da Costa, imigrante brasileira que estava em Portugal há 17 anos e trabalhava no aeroporto. A polícia confundiu a viatura com um Seat da mesma cor que tinha sido referenciado como levando os autores de um assalto a uma caixa multibanco, usando explosivos. Imigrante, brasileira, pobre, a família, sem meios, estava ainda ontem à espera que o seu corpo fosse transladado para o Brasil. 
Neste mundo podem ser assassinadas milhões de pessoas em países longínquos com a intenção de os democratizar à bomba. Ninguém coloca “Je Suis Cairo” quando são mortos 300 egípcios. Os pobres e os imigrantes podem ser revistados à bruta e mortos a tiro. Um dia, até os ricos dos condomínios protegidos e dos muros altos e eletrificados do Primeiro Mundo vão entender que a selvajaria multiplica a selvajaria e apenas a igualdade de direitos pode respeitar a vida.

http://www.buala.org/pt/cidade/corpos-de-excepcao

Teju Cole © Tim Knox / eyevine

Um corpo negro

Por Teju Cole

Em 1951, James Baldwin foi o primeiro negro a botar os pés em Leukerbad. No vilarejo suíço, que vivia alheio à luta pelos direitos civis, encontrou um espelho do racismo disseminado pelo mundo e, sobretudo, do combate contra o preconceito travado nos Estados Unidos. Sua passagem pelo balneário dos Alpes resultou em “O estranho no vilarejo”, ensaio hoje clássico que a serrote 26 publicou pela primeira vez no Brasil. O texto serviu de bússola a Teju Cole, que refez a viagem decisiva de Baldwin para escrever “Um corpo negro”, incluído na mesma edição. Seis décadas depois, o mundo, como constatara o autor de Notas de um filho desta terra, jamais voltaria a ser branco.

Então o ônibus começou a passar por dentro de nuvens, e entre uma nuvem e outra vislumbramos a cidadezinha lá embaixo. Estava na hora do jantar, e ela era uma constelação de pontos amarelos. Chegamos 30 minutos depois de sair da outra cidadezinha, que se chamava Leuk. O trem para Leuk viera de Visp, o trem de Visp viera de Berna, e o trem anterior era de Zurique, de onde eu havia saído à tarde. Três trens, um ônibus, uma breve caminhada, tudo isso atravessando uma bela região, e então chegamos a Leukerbad quando estava escuro. Afinal, Leukerbad, que não era longe em termos de distância abso­luta, não era tão acessível assim. Dois de agosto de 2014: era aniversário de James Baldwin. Se ele estivesse vivo, estaria completando 90 anos. Ele é uma daquelas pessoas que estão no limite do contemporâneo, deslizando para o histórico − John Coltrane estaria fazendo 88 neste ano; Martin Luther King Jr. faria 85 −, pessoas que ainda poderiam estar conosco, mas que, às vezes, pare­cem muito distantes, como se tivessem vivido há séculos.

James Baldwin saiu de Paris e veio a Leukerbad pela primeira vez em 1951. A família de seu namorado, Lucien Happersberger, tinha um chalé em um vilarejo no alto das montanhas. E então lá foi Baldwin, que na época estava deprimido e disperso, e o vilarejo (que também tem o nome de Loèche-les­-Bains) acabou sendo um refúgio para ele. Essa primeira viagem aconteceu no verão e durou duas semanas. Depois, para sua surpresa, ele voltou em outros dois invernos. Seu primeiro romance, Go Tell It on the Moun­tain, encontrou sua forma final aqui. Ele vinha lutando com o livro havia oito anos e, finalmente, o concluiu nesse retiro improvável. Também escreveu outra coisa, um ensaio cha­mado “O estranho no vilarejo”; foi esse ensaio, até mais do que o romance, que me trouxe a Leukerbad.

“O estranho no vilarejo” foi publicado pela primeira vez na Harper’s Magazine em 1953, e depois na coletânea Notes of a Native Son, em 1955. O texto relata a experiência de ser negro em um vilarejo só de brancos. Começa com a atmosfera de uma viagem radical, como a de Charles Darwin a Galápagos ou a de Tété-Michel Kpomassie à Groenlândia. Mas então se abre para outras preocupações e para uma voz diferente, passando a olhar a situação racial americana nos anos 195 0. A parte do ensaio que trata do vilarejo suíço é tão confusa quanto triste. Baldwin atenta para o absurdo de ser um escritor nova-iorquino que, de alguma maneira, é considerado inferior pelos suíços daquele vilarejo, muitos dos quais jamais saíram dali. Porém, adiante no ensaio, quando escreve sobre raça nos Estados Unidos, ele não é nem um pouco confuso. É iracundo e profético, escreve com clareza dura, conduzido por uma eloquência vertiginosa.

Hospedei-me no Hotel Mercure Bristol na noite em que cheguei. Abri as janelas para a escuridão, mas eu sabia que nela se escondia a montanha Daubenhorn. Abri a torneira da banheira e afundei até o pescoço na água quente, com meu velho exemplar barato de Notes of a Native Son. O som baixo do meu laptop era Bessie Smith cantando “I’m Wild about That Thing”, um blues picante e uma obra-prima da dissimulação: “Don’t hold it baby when I cry/ Give me every bit of it, else I’d die/ I’m wild about that thing”. A letra que ela canta poderia se referir a um trombone. E foi ali, na banheira, com as pala­vras dele e a voz dela, que tive meu momento dublê de corpo: ali estava eu em Leukerbad, com o canto de Bessie Smith vindo de 1929, atravessando os anos; e sou negro como ele; e sou magro; e também tenho os dentes da frente espaçados; e não sou especialmente alto (não, escreve: baixo); e sou frio no papel e caloroso pessoalmente, a não ser quando sou jus­tamente o contrário; e fui também um fervoroso pastor na adolescência (Baldwin: “Nada que já me aconteceu a partir de então iguala o poder e a glória que eu às vezes sentia quando, no meio de um sermão, sabia que era, de alguma maneira, por algum milagre, realmente o portador, como eles dizem, da ‘Palavra’ − quando a igreja e eu éramos um só”); e também eu abandonei a igreja; e considero Nova York meu lar, mesmo quando não estou morando lá; e me sinto em toda parte, da cidade de Nova York à Suíça rural, o guardião de um corpo negro, e preciso encontrar a linguagem para tudo o que isso signi­fica para mim e para as pessoas que olham para mim. O ancestral brevemente tomou posse do descendente. Foi um momento de identificação e, nos dias seguintes, esse momento foi um guia.

“A julgar por todas as evidências disponíveis, jamais um homem negro pôs os pés neste minúsculo vilarejo suíço antes de mim”, Baldwin escreveu. Mas o vila­rejo cresceu razoavelmente desde a sua visita, mais de 60 anos atrás. Agora eles já tinham visto negros; eu não era uma atração. Notei alguns olhares discretos no hotel, quando me registrei, e no restaurante elegante da mesma rua, mas as pessoas sempre olham. As pessoas olham em Zurique, onde estou passando o verão, assim como olham em Nova York, onde moro há 14 anos. Há olhares por toda a Europa e na Índia, e em qualquer outro lugar fora da África. O teste é ver quanto duram esses olhares, se eles se tornam olhares fixos, com que intenção ocorrem, se contêm algum grau de hostilidade ou zombaria, e até que ponto meus contatos, meu dinheiro ou modo de vestir me protegem nessas situações. Ser um estranho é ser olhado, mas ser negro é ser olhado de uma forma espe­cial. (“As crianças gritam Neger! Neger! quando passo na rua.”) Leukerbad mudou, mas de que maneira? Não havia, de fato, bandos de crianças na rua, havia poucas crianças em geral. Provavelmente as crianças de Leukerbad, como as crianças do mundo todo, estavam dentro de casa, vidradas em jogos de computador, che­cando o Facebook ou assistindo a vídeos de música. Talvez alguns dos velhos que vi na rua fossem as mesmas crianças que haviam ficado tão surpresas ao verem Baldwin, e sobre quem, no ensaio, ele se esforça para falar em um tom sensato: “Em tudo isso, ainda que seja preciso reconhecer o encanto de um genuíno des­lumbramento, sem qualquer crueldade intencional, nada sugeria que eu fosse humano: eu era apenas uma curiosidade ambulante”. Agora, porém, os filhos ou netos daquelas crianças estão conectados ao mundo de um modo diferente. Tal­vez certa xenofobia ou certo racismo façam parte da vida deles, como também o fazem Beyoncé, Drake e Meek Mill, a música que ouço pulsar nas boates suíças nas noites de sexta-feira.

Nos anos 1950, Baldwin teve que trazer seus discos, como se fossem remé­dios escondidos, e precisou subir com seu toca-discos até Leukerbad, para que o som do blues americano pudesse mantê-lo em contato com um Harlem espiritual. Ouvi algumas dessas músicas enquanto estive lá, como um modo de estar com ele: Bessie Smith cantando “I Need a Little Sugar in My Bowl” (“I need a little sugar in my bowl/ I need a little hot dog on my roll”), Fats Waller cantando “Your Feet’s Too Big”. Ouvi também minha própria seleção: Bettye Swann, Billie Holiday, Jean Wells, Coltrane Plays the Blues, The Physics, Childish Gambino. A música que ouvimos durante uma viagem nos ajuda a criar nosso clima interior. Mas o mundo também participa: quando almocei no restau­rante Römerhof certa tarde − naquele dia, todos os fregueses e funcionários eram brancos −, a música tocando acima de nossas cabeças era “I Wanna Dance with Somebody”, de Whitney Houston. A história é hoje, e a América é negra.

Na hora do jantar, em uma pizzaria, mais olhares. Uma mesa de turistas ingle­ses ficou me encarando. Mas a garçonete era de origem negra, e um dos funcioná­rios do spa do hotel era um senhor negro. “As pessoas estão presas na história, e a história está presa dentro delas”, Baldwin escreveu. Porém, também é verdade que pequenos pedaços de história se movem pelo mundo a uma velocidade tre­menda, validando uma lógica nem sempre clara, e raramente válida por muito tempo. E talvez mais interessante do que eu não ser a única pessoa negra no vila­rejo seja o simples fato de muitas outras pessoas que vi também serem estran­geiras. Essa foi a maior mudança de todas. Se, na época, o vilarejo tinha um ar piedoso e convalescente, uma espécie de “pequena Lourdes”, hoje é muito mais próspero, cheio de visitantes de outras partes da Suíça, Alemanha, França, Itália e de toda a Europa, da Ásia e das Américas. Tornou-se o maior balneário termal dos Alpes. Os banhos municipais estavam cheios. Há hotéis em todas as ruas, de todos os preços, e há restaurantes e lojas de luxo. Hoje, quem quiser pode com­prar um relógio pelos olhos da cara a 1.400 metros acima do nível do mar.

Os melhores hotéis possuem suas próprias piscinas termais. No Mercure Bristol, peguei um elevador, desci até o spa e entrei na sauna seca. Minutos depois, entrei na piscina e boiei sobre a água quente. Havia outros hóspedes, mas não muitos. Caía uma chuva fina. Estávamos cercados por montanhas e suspensos naquele azul imortal.

*

 

James Baldwin

Em seu brilhante romance Harlem Is Nowhere, Sharifa Rhodes-Pitts escreve:

Em quase todos os ensaios que James Baldwin escreveu sobre o Harlem, há um mo­mento em que ele faz um truque literário tão peculiar que, se ele fosse um atleta, os locutores acabariam codificando a manobra e diriam que ele “fez o Jimmy”. Penso nisso em termos cinematográficos, porque seu efeito me faz lembrar de uma técnica em que a câmera se afasta de um detalhe para uma panorâmica enquanto a lente permanece com o foco em um determinado ponto distante.

Esse movimento, essa súbita abertura do foco, está presente até mesmo em seus ensaios que não tratam do Harlem. No ensaio “O estranho no vilarejo”, há um trecho de umas sete páginas em que se pode sentir a retórica se avolumar, enquanto Baldwin se prepara para deixar para trás a atmosfera calma, fabular, da abertura. Sobre os moradores do vilarejo, ele escreve:

Essas pessoas não poderiam ser, do ponto de vista do poder, estranhos em nenhum lugar do mundo; na verdade, elas fizeram o mundo moderno, mesmo que não sai­bam disso. O mais iletrado deles é próximo, de uma maneira que eu não sou, de Dante, Shakespeare, Michelangelo, Ésquilo, Da Vinci, Rembrandt e Racine; a cate­dral de Chartres lhes diz alguma coisa que não diz a mim, como também diria o Empire State de Nova York, se alguém aqui um dia o visse. De seus hinos e danças, saíram Beethoven e Bach. Volte alguns séculos, e eles estão em plena glória − mas eu estou na África, assistindo à chegada dos conquistadores.

O que essa lista quer dizer? Será que Baldwin realmente se incomoda que as pessoas de Leukerbad estejam familiarizadas, ainda que difusamente, com Chartres? Que uma linhagem genética remota as associe aos quartetos de Beethoven? Afinal, como ele defende adiante no ensaio, ninguém pode negar o impacto da “presença do negro no caráter americano”. Ele entende a ver­dade e a arte no trabalho de Bessie Smith. Ele não considera, e não poderia considerar − quero crer −, o blues inferior a Bach. Mas havia certa limitação na recepção das ideias sobre a cultura negra nos anos 1950. A partir de então, houve uma quantidade suficiente de realizações culturais para se compilar uma seleção de astros negros: houve Coltrane e Monk e Miles, e Ella e Billie e Aretha. Toni Morrison, Wole Soyinka e Derek Walcott aconteceram, assim como Audre Lorde e Chinua Achebe e Bob Marley. O corpo não foi abandonado em detrimento do espírito: Alvin Ailey, Arthur Ashe e Michael Jordan aconte­ceram também. A fonte do jazz e do blues também deu ao mundo o hip-hop, o afrobeat, o dancehall e o house. E, sim, quando James Baldwin morreu, em 1987, ele também foi reconhecido como um astro.

Pensando ainda na catedral de Chartres, na grandeza daquela realização e em como, para ele, ela incluía negros apenas no negativo, como demônios, Baldwin escreve que “o negro americano chegou à sua identidade graças à absoluta alienação de seu passado”. Mas o remoto passado africano se tornou muito mais acessível do que era em 1953. A mim não teria ocorrido pensar que, séculos atrás, eu estaria “na África, assistindo à chegada dos conquistadores”. Mas desconfio de que, para Baldwin, isso seja, em parte, uma jogada retórica, uma cadência severa para terminar um parágrafo. Em “A Question of Identity” (outro ensaio incluído em Notes of a Native Son), ele escreve: “A verdade sobre o passado não é que ele seja recente demais, ou superficial demais, mas apenas que nós, tendo desviado os olhos tão decididamente para longe dele, jamais exigimos dele o que tem para dar”. Os artistas da corte de Ifé, no século 14, fizeram esculturas de bronze usando um complicado método de moldes per­dido na Europa desde a Antiguidade, só redescoberto no Renascimento. As esculturas de Ifé se igualam a obras de Ghiberti ou Donatello. Por sua precisão e suntuosidade formal, podemos extrapolar traços de uma grande monar­quia, uma rede de ateliês sofisticados e um mundo cosmopolita de comércio e conhecimento. E não era só em Ifé. Toda a África Ocidental era uma efervescên­cia cultural. Do governo igualitário dos Ibos à ourivesaria das cortes de Ashanti, das esculturas em latão do Benin às conquistas militares do império Mandinka e aos músicos que louvaram esses heróis guerreiros, essa foi uma região do mundo que investiu profundamente na arte e na vida para ser reduzida à cari­catura de “assistir à chegada dos conquistadores”. Hoje sabemos mais do que isso. Sabemos pelas pilhas de trabalhos acadêmicos que corroboram tal pen­samento e sabemos implicitamente, de modo que a própria ideia de fazer uma lista de realizações parece um tanto entediante, servindo apenas como forma de se contrapor ao eurocentrismo.

Eu jamais trocaria, sob nenhuma condição, a intimidante beleza da poesia iorubá por, digamos, sonetos de Shakespeare, ou as koras do Mali pelas orques­tras de câmara de Brandemburgo. Sou feliz por dispor de tudo isso. Essa con­fiança despreocupada é, em parte, uma dádiva do tempo. É um dividendo da luta de pessoas das gerações anteriores. Eu não me sinto excluído nos museus. Mas essa questão da filiação atormentava bastante Baldwin. Ele era sensível ao que havia de grande no mundo da arte e sensível à sua própria sensação de exclusão daquele mundo. Ele fez uma lista parecida em Notes of a Native Son (aqui começamos a achar que esse tipo de lista lhe ocorria em meio a discussões): “Em certo sentido sutil, de maneira realmente profunda, tratei Shakespeare, Bach, Rembrandt, as pedras de Paris, a catedral de Chartres e o edifício Empire State com uma atitude especial. Não são criações minhas na verdade, não contêm minha história; posso procurar para sempre e não encon­trarei nelas nenhum reflexo meu. Eu era um intruso; aquele não era meu patri­mônio.” As linhas latejam de tristeza. Aquilo que ele ama não o ama de volta.

É aí que me distancio de Baldwin. Não discordo da sua tristeza particular, mas da abnegação que o levou a ela. Bach, tão profundamente humano, é meu patrimônio. Não sou um intruso olhando um retrato de Rembrandt. Eu me importo com essas coisas mais do que algumas pessoas brancas, assim como algumas pessoas brancas se importam mais com alguns aspectos da arte afri­cana do que eu. Posso me opor à supremacia branca e, ainda assim, adorar arquitetura gótica. Nisso, estou com Ralph Ellison: “Os valores do meu povo não são ‘brancos’ nem ‘negros’, são americanos. Nem posso ver como poderiam ser outra coisa, uma vez que somos um povo envolvido na textura da experiên­cia americana.” E, no entanto, eu (nascido nos Estados Unidos mais de meio século depois de Baldwin) continuo a entendê-lo, porque experimentei no meu corpo a fúria incontida que ele sentia do racismo que lhe impunha limi­tes por todos os lados. Em seus escritos, há uma fome de viver, uma fome de tudo o que existe, e um forte desejo de não ser considerado um nada (um mero crioulo, um mero neger), logo ele, que sabia tão bem o próprio valor. E esse tão bem não tem a ver com egocentrismo no que escreve nem com algum tipo de ansiedade em relação à sua fama em Nova York ou Paris. São os princípios incontestáveis de uma pessoa: prazer, tristeza, amor, humor, luto e a complexi­dade da paisagem interior que sustenta esses sentimentos. Baldwin ficava per­plexo que alguém, em algum lugar, questionasse esses princípios, oprimindo-o assim com a suprema perda de tempo que é o racismo, e oprimindo em tantas outras pessoas em tantos outros lugares. Essa capacidade incansável de se cho­car exala como fumaça de suas páginas. “A fúria do menosprezado é pessoal­mente infrutífera”, ele escreve, “mas é absolutamente inevitável”.

Leukerbad deu a Baldwin um modo de pensar sobre a supremacia branca a partir de seus princípios originais. Era como se ali ele os encontrasse em sua forma mais simples. Os homens que sugeriram que ele aprendesse a esquiar para que pudessem zombar dele, os moradores que o acusaram pelas costas de ser ladrão de lenha, aqueles que quiseram tocar seu cabelo e sugeriram que o deixasse crescer para fazer um casaco pesado, e as crianças que, tendo aprendido “que o diabo é um homem negro, gritam com uma angústia genuína” quando ele se aproximava: Baldwin viu neles protótipos (preservados como celacantos) de atitudes que evoluiriam para as formas mais íntimas, intrincadas, familiares e obscenas de supremacia branca americana que ele conhecia tão bem.

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É um belo vilarejo. Gostei do ar da montanha. Mas quando voltei dos banhos termais para o meu quarto, depois de um passeio pelas ruas com a minha câ­mera, li as notícias na internet. Encontrei uma sequência infindável de crises: no Oriente Médio, na África, na Rússia e em toda parte, realmente. Era uma dor geral. Mas naquela aflição maior havia um conjunto de histórias interliga­das, e pensar sobre “O estranho no vilarejo”, pensar com sua ajuda, foi como injetar um contraste em meu encontro com o noticiário. A polícia americana continuava atirando em homens negros desarmados ou matando-os de outras maneiras. Os protestos que se seguiam, nas comunidades negras, eram enfren­tados com violência por uma força policial que vem se tornando praticamente a mesma coisa que um exército invasor. As pessoas começavam a ver a conexão entre os vários acontecimentos: os tiros, os estrangulamentos fatais, as histó­rias de quem não recebeu o remédio que salvaria uma vida. E as comunidades negras transbordavam de indignação e luto.

Em tudo isso, uma história menor, menos significativa (mas que ao mesmo tempo significa muito), chamou minha atenção. O prefeito de Nova York e seu chefe de polícia têm uma obsessão por políticas públicas de limpeza, por higie­nizar a cidade, e decidiram que prender integrantes de companhias de dança que se apresentam em vagões do metrô em movimento é uma maneira de lim­par a cidade. Li as desculpas para que isso se tornasse uma prioridade: algumas pessoas têm medo de se machucar com algum chute imprevisto (ainda não aconteceu, mas elas já estão com medo), algumas pessoas consideram aquilo um incômodo, alguns políticos acham que perseguir essas pequenas infra­ções é uma maneira de prevenir crimes mais graves. E assim, para combater a ameaça dos dançarinos, a polícia interveio. Ela começou a perseguir, a assediar, a algemar. O “problema” eram os dançarinos, e os dançarinos eram, em sua maioria, meninos negros. Os jornais adotaram o mesmo tom do governo: total desdém pelos dançarinos. E, no entanto, esses mesmos dançarinos são um raio de luz em pleno dia, um momento de beleza sem controle, artistas com talentos inimagináveis para aquele público. Que tipo de pensamento conside­raria que bani-los é uma melhoria para a vida da cidade? Ninguém considera o doces ou travessuras do Dia das Bruxas uma ameaça pública. A lei não interfere com as bandeirantes que vendem seus biscoitos ou com as testemunhas de Jeová. Mas o corpo negro vem prejulgado e, como resultado, é tratado com pre­conceitos desnecessários. Ser negro é enfrentar o peso seletivo dos agentes da lei e viver na instabilidade psíquica de não ter garantia nenhuma da segurança pessoal. Antes de mais nada, você é um corpo negro, antes de ser um menino andando na rua ou um professor de Harvard que não encontra as chaves.

William Hazlitt, em ensaio de 1821 intitulado “The Indian Jugglers”, escreveu palavras que me ocorrem quando vejo um grande atleta ou dançarino: “Homem, és um animal maravilhoso, e teus modos estão além do entendimento! Fazes coi­sas grandiosas, mas como se não fossem grandes coisas! – Conceber o esforço de tal extraordinária destreza distrai a imaginação e deixa sem fôlego a admiração.” Na presença do admirável, há quem fique sem fôlego não de admiração, mas de fúria. Fazem-se objeções à presença do corpo negro (um menino desarmado na rua, um homem comprando um brinquedo, um dançarino no metrô, um pas­sante) tanto quanto à presença do intelecto negro. E simultaneamente a esses apagamentos ocorre a infindável coleta dos lucros obtidos do trabalho negro. Em toda nossa cultura, existem imitações dos passos, do porte e dos trajes do corpo negro, uma cooptação vampiresca de “tudo menos o fardo” da vida negra.

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Leukerbad é rodeada de montanhas: a Daubenhorn, a Torrenthorn, a Rinderhorn. Um passo de montanha chamado Gemmi, 850 metros acima do vilarejo, conecta o cantão de Valais com o Oberland Bernês. Por essa paisagem − escarpada, nua em alguns lugares, verdejante em outros, um caso exemplar do sublime −, movemo-nos como por um sonho. O passo de Gemmi é famoso por bons motivos, e Goethe esteve lá, assim como Byron, Twain e Picasso. O passo é mencionado em uma aventura de Sherlock Holmes, quando ele o atravessa para o fatídico encontro com o professor Moriarty nas cataratas de Reichenbach. O tempo estava ruim no dia em que subi até lá, com chuva e neblina, mas foi uma sorte, porque assim pude ir sozinho pela trilha. Enquanto estava lá, lembrei­-me de uma história que Lucien Happersberger contou de quando Baldwin saiu para caminhar por essas montanhas. Na subida, ele se desequilibrou, e por um instante a situação ficou tensa. Mas Happersberger, que era um alpinista tarim­bado, estendeu a mão, e Baldwin se safou. Foi desse momento de pavor, desse mo­mento de apelo bíblico, que Baldwin tirou o título para o livro que vinha tentando escrever: Go Tell It on the Mountain.

Se Leukerbad foi seu púlpito na montanha, os Estados Unidos eram seu público. O vilarejo remoto lhe deu uma visão mais precisa de como as coisas estavam em casa. Ele era um estranho em Leukerbad, Baldwin escreveu, mas não era possível para os negros serem estranhos nos Estados Unidos, nem para os brancos realizarem a fantasia de um país totalmente branco, expurgado dos negros. Essa fantasia da vida negra como algo descartável é uma constante na história americana. As pessoas ainda custam a entender que essa descartabili­dade permanece. Os brancos custam a entender; pessoas não negras de cor cus­tam a entender; e alguns negros, seja porque sempre viveram nos Estados Uni­dos, seja porque são retardatários como eu, nutridos em outras fontes de outras lutas, custam a entender. O racismo americano possui muitas engrenagens e já teve séculos suficientes para desenvolver uma impressionante camuflagem. É capaz de acumular sua maldade por muito tempo quase sem se mover, o tempo todo fingindo olhar para o outro lado. Como a misoginia, é atmosférico. A prin­cípio, você não o vê. Mas depois você entende.

“As pessoas que fecham os olhos para a realidade simplesmente estão pedindo pela própria destruição, e qualquer um que insista em permanecer em estado de inocência tanto tempo depois da morte da inocência acaba sendo um monstro.” As notícias do dia (notícias velhas, mas sangrentas como uma ferida recente) dizem que a vida negra americana é descartável do ponto de vista da polícia, da Justiça, da política econômica e de inúmeras formas terríveis de desprezo. Há uma animada encenação de inocência, mas não sobrou mais nenhuma inocên­cia de fato. A conta moral continua tão no negativo que ainda nem conseguimos começar a tratar da questão das reparações. Baldwin escreveu “O estranho no vilarejo” há mais de 60 anos. E agora?

 

Romancista e fotógrafo, Teju Cole (1975) nasceu nos Estados Unidos e foi criado na Nigéria. É escritor residente do Bard College e crítico de fotografia da New York Times Magazine. É autor do celebrado ro­mance Cidade aberta(Companhia das Letras, 2012) e de Known and Strange Things, coletânea de ensaios de 2016 que inclui “Um corpo negro”, publicado originalmente na New Yorker.
Tradução de Alexandre Barbosa de Souza

https://www.revistaserrote.com.br/2017/08/um-corpo-negro-por-teju-cole/

 

Racismo não dá descanso e impacta a saúde e o trabalho dos negros

Por Beatriz Sans do El País

 

Eles têm salários menores, ainda que com o mesmo tempo de estudos de não negros.

 

“É coisa de preto”, teria dito o jornalista William Waack minutos antes de entrar no ar em uma transmissão ao vivo. A fala repercutiu como rastilho de pólvora acesa queimando o que houvesse pelo caminho. Foi afastado de sua função de apresentador no mesmo dia e incendiou a discussão sobre o racismo velado no Brasil. Enquanto jornalistas e até o ministro do Supremo Tribuna Federal (STF) Gilmar Mendes manifestaram apoio a Waack, nas redes sociais, os internautas resgatavam a memória e os feitos de grandes personalidades negras utilizando a hashtag #Écoisadepreto. Para a psicanalista Maria Lúcia da Silva, casos como esse são positivos pois descortinam o racismo e promovem o debate acerca do tema num país onde 54% da população se declara preta ou parda.

Frases como a de Waack são repetidas em diversos contextos cotidianamente e segundo pesquisas, o estresse de lidar com a discriminação terminar por afetar a saúde dos negros. Silva alerta que para lidar com situações de racismo e preconceito, as pessoas negras demandam mais energia. “Essa situação acontece desde o nascimento, o tempo todo. O racismo não dá descanso”, ressalta.

Uma das primeiras distorções que episódios de preconceitos acarretam no organismo humano é o aumento da pressão arterial. Posteriormente esse aumento de pressão causa o endurecimento da veias que pode resultar em um ataque cardíaco ou em um acidente vascular cerebral (AVC). Mas para além disso, o racismo também impacta a saúde mental. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade do Texas mostra que pessoas que sofreram com discriminação estavam sujeitas a desenvolver alcoolismo e depressão. Co-autora do estudo, a socióloga Trenette Clark diz que a discriminação tem efeitos semelhantes à perda do emprego ou à morte de um ente querido.

É para ajudar a reduzir os efeitos do racismo que existe o Instituto Amma Psique e Negritude, no qual trabalha Maria Lúcia. Uma das frentes do Instituto é preparar profissionais para que eles entendam melhor como os sofrimentos causados pelo racismo podem impactar nas relações sociais.

Para a psicanalista Noemi Kon, organizadora do livro O racismo e o negro no Brasil: questões para a psicanálise “obviamente que essa violência causa sofrimento psíquico”. Ela ainda acrescenta que o racismo “pode fazer com que as pessoas se sintam menos qualificadas a ocupar determinados espaços na sociedade e a estabelecer relações amorosas de qualidade, por exemplo”. A obra surgiu de um episódio de racismo vivenciado em sala de aula, apontado por Maria Lúcia Silva. Para resolver a questão, Noemi propôs um curso que tratasse do racismo nessa área e o passo seguinte foi a concepção do livro.

A psicanalista entende que os debates sobre o racismo estão ganhando mais visibilidade em um período recente. Segundo ela, esse movimento é importante para a desconstrução do mito da democracia racial. O conceito criado por Gilberto Freyre no século passado, segundo ela, prejudica ainda as pessoas que enfrentam situações de racismo e lidam com maiores dificuldades em diversos campos da vida, mas que não se manifestam sobre isso. “É um discurso ideológico que faz com que diferenças individuais sejam colocadas como responsáveis por fracassos individuais”, afirma Noemi.

O negro no mercado de trabalho

O racismo está engendrado de forma estrutural na nossa sociedade, e traz consequências práticas, uma vez que os negros possuem menos oportunidades em áreas essenciais. Um levantamento feita pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) com dados de 2016 mostra, por exemplo, que quanto mais escolarizados os negros, maior a diferença de salário em comparação com uma pessoa não negra que tenha o mesmo nível de instrução. Os profissionais negros que não completaram o ensino médio ganhavam 92% do que recebiam os não negros com esse mesmo nível de estudo. Essa diferença cai para 85% entre os que têm ensino médio completo. Quando se tratam de trabalhadores com ensino superior, os negros ganham somente 65% do que um trabalhador não negro com a mesma formação.

Os índices de desemprego também são mais altos entre pessoas negras do que no restante da população. Durante a recessão econômica, é este grupo o mais impactado. De 2015 para 2016, a taxa de desemprego total dos negros aumentou de 14,9% para 19,4%, enquanto a dos não negros passou de 12% para 15,2%.

Rodrigo Silva de 22 anos engordou essa estatística quando seu contrato de estágio acabou e ficou desempregado. A posição ocupada por Rodrigo na empresa, em um cargo auxiliar também é mais comum entre pessoas negras, segundo a pesquisa realizada na região metropolitana de São Paulo. Enquanto isso, nos cargos de chefia, a presença de pessoas negras é 13,6% menor. Para Maria Lúcia da Silva, isso se dá porque o racismo “dificulta a mobilidade e permanência social em caso de prestígio ou de construção de uma carreira”. Hoje ocorre maior inserção dos negros em segmentos onde tradicionalmente os rendimentos são mais baixos (construção, trabalho autônomo e doméstico) e menor incorporação em outros, que costumam pagar salários mais altos (Indústria, alguns ramos dos Serviços, setor público e o agregado que reúne empresários e profissionais universitários autônomos, entre outros). Na média, os negros receberam 67,8% do rendimento dos não negros, em 2016.

Menos acesso à educação

Há um fosso, ainda, na comparação de acesso aos estudos. Há um evidente atraso escolar dos negros, que se perpetuou desde a abolição da escravidão, no século 19. Desde então, a falta de suporte que admitisse a diferença deixou um déficit na formação deste grupo. Na década passada, houve algum ajuste pelas políticas de cotas afirmativas. Em 2005, somente 5,5% dos jovens pretos e pardos em idade universitária frequentavam a faculdade. Esse número saltou para 12,8% em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação à população branca, contudo, a distância ainda é enorme: 26,5% dos estudantes brancos entre 18 e 24 anos estavam na univerdade em 2015.

O analfabetismo também revela a desigualdade de condições de negros e brancos. Um levantamento feito pelo movimento Todos Pela Educação em 2016, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad/IBGE), mostra que a taxa de analfabetismo é 11,2% entre os pretos; 11,1% entre os pardos; e, 5% entre os brancos.

A relação entre escravidão e desigualdade

Por ter sido o último país do ocidente a extinguir a escravidão, a relação entre o Brasil e a “instituição”, eufemismo utilizado para nomear a escravatura, ainda é intensa. Segundo o sociólogo e especialista em políticas públicas Humberto Laudares cerca de 20% da desigualdade que acontece ainda hoje em municípios brasileiros tem como fonte a escravidão.

Laudares credita esse cenário a uma falha da sociedade e do Estado brasileiro em promover igualdade de oportunidades para os cidadãos. Para efeito de comparação, os municípios que abrigaram quilombos sofrem ainda mais. “Nós testamos o efeito dos quilombos na desigualdade e encontrarmos que locais que sediaram quilombos são hoje 3% mais desiguais, são mais pobres e ainda têm um nível educacional inferior a municípios com características semelhantes”, relata. Para ele, há um caminho para reduzir o problema: “igualar as oportunidades — saúde, educação, segurança — a partir da infância”.

Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/304550-10

 

Desemprego entre negros comprova racismo institucional

Por Adilson Araújo

A desigualdade também se aprofunda quando observamos os rendimentos dos segmentos estudados. Os trabalhadores negros e pardos recebem R$ 1.531, o que corresponde a 56% do rendimento médio dos brancos (R$ 2.757).

O estudo ainda indica que os pretos ou pardos representam 54,9% da população brasileira com 14 anos ou mais, alvo da pesquisa. Esse dados fazem parte de um detalhamento da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua).

O IBGE ainda apontou que no terceiro trimestre deste ano (Junho/Agosto) dos 13 milhões de brasileiros sem emprego, 8,3 milhões eram pretos ou pardos, um total de 63,7% do total.

Racismo institucional

“O estudo comprova que ainda temos um Brasil cheio de desigualdades e com um racismo institucional violento. Uma herança de desigualdade que carregamos desde a colonização do país”, problematizou o presidente da CTB, Adilson Araújo ao comentar a pesquisa.

Ele destacou que “tal herança tem como motor uma sociedade desigual que encarcera, ao invés de oferta escolas; que mata, ao invés de propiciar horizonte de futuro”. E completou: “O racismo e a desigualdade Brasil não é outra coisa senão uma questão de classe, que está aí desde os primórdios da sociedade e que se alimenta de um sistema perverso que exclui e condena grande parte da nossa sociedade”.

Adilson lembra que o cenário é ainda pior quando pensamos que agora vigora no Brasil uma reforma que precariza, mutila e mata. “A reforma trabalhista e sua emenda (MP 808/2017) se convertem em um estatuto da precarização, uma violência contra a classe trabalhadora, sobretudo os trabalhadores negros”, salientou.

Trabalho doméstico

O IBGE também mapeou o perfil dos trabalhadores e trabalhadores domésticos. 66% destes empregados são pretos ou pardos.

A participação dos trabalhadores pretos e pardos também é superior à dos brancos na agropecuária, na construção, nos setores dealojamento, alimentação e no comércio. 

Mercado informal

Com relação à formalidade e à informalidade, o mercado de trabalho para a população é desfavorável. A proporção de empregados pretos e pardos com carteira assinada é de 71,3%, inferior aos 75,3% registrados entre os brancos.

Na informalidade, muitos resolvem trabalhar por conta própria. Segundo o IBGE, um quarto (25,2%) de todos os trabalhadores pretos ou pardos atuava como vendedor ambulante no terceiro trimestre.

Um projeto que vença a desigualdade

“Os dados apresentados pelo IBGE nos chocam, mas mostram que há ainda muito para se fazer quando o assunto é superação das desigualdades. E entendemos que tal superação não tem outro caminho senão através de um projeto nacional que tenha por centro um crescimento com valorização do trabalho, geração de emprego e distribuição da renda”, afirmou o presidente da CTB.

Segundo ele, “a reforma trabalhista piorará ainda mais essa realidade, pois condenará milhões a uma realidade de subemprego e precarização. A luta seguirá não só contra as reformas, mas contra a cultura colonial que há séculos se entranha em nossa história”. 

Fonte: CTB

http://www.vermelho.org.br/noticia/304438-1

Jose Ismael Torres e Kayla Rae Norton

Racistas que invadiram festa nos

EUA são condenados à prisão

Eles vieram em caminhões e gritavam insultos racistas. Também portavam bandeiras dos Confederados, que foi usada na Guerra Civil nos Estados Unidos, quando os Estados rebelados lutaram para manter a escravidão no país. Desde então a bandeira é associada a movimentos de extrema direita no país.

Segundo o promotor do caso, Torres ainda apontou uma arma para os familiares que participavam da festa e disse que iria matá-los.

De acordo com a polícia, o casal era membro de um grupo chamado “Respect the Flag”, formado por racistas que defendem a “supremacia” branca. Na internet, foram localizadas mensagens dos integrantes do grupo discutindo participação em comícios da Ku Klux Klan e ataques aos negros.

Torres e Kayla são as últimas das 15 pessoas acusadas de participação no episódio a serem condenadas. Apenas quatro foram acusadas de delitos graves; outros dois se declararam culpados e estão cumprindo uma pena mais leve.

http://www.vermelho.org.br/noticia/293832-1

Jovens manifestantes em Montgomery, Alabama

Jovens manifestantes em Montgomery, Alabama, início dos anos 1960

Italo Calvino sobre a discriminação racial e a luta

pelos direitos civis nos EUA. Por Camila Nogueira

Os trechos abaixo foram retirados dos diários que Italo Calvino (1923 – 1985), escritor italiano nascido em Cuba, escreveu durante uma viagem que fez, no início dos anos 60, aos Estados Unidos.

Qual a importância do dia 6 de março de 1960 para o senhor?

É um dia que não esquecerei enquanto for vivo. Eu vi o racismo com meus próprios olhos, o racismo de massa, aceito como uma das regras fundamentais da sociedade. Presenciei um dos primeiros episódios de luta por parte dos negros sulistas – que terminou em uma derrota. Após décadas de completa imobilidade, os protestos por parte dos negros foram iniciados em um dos piores estados segregacionistas do país. Alguns obtiveram sucesso, sob a liderança de Martin Luther King, um ministro batista, adepto da não-violência.

De que episódio estamos falando?

A cena aconteceu no capitólio de Alabama. Os estudantes negros (da universidade negra) declararam que protestariam pacificamente naquela região contra a expulsão de nove de seus colegas, que tinham tentado se sentar na cafeteria dos brancos em Court Hall. Perto da uma hora e meia, eles se encontraram na igreja batista próxima ao capitólio. Mas este já estava repleto de policiais com cassetetes e da Polícia Rodoviária com seus chapéus de caubói, coletes azul-turquesa e calças-cáqui. As calçadas estavam cheias de brancos – em sua maioria brancos pobres, que são os maiores racistas, prontos para usar seus punhos, jovens delinquentes que atacam em grupo (sua organização, que é somente ligeiramente clandestina, chama-se Ku Klux Klan), mas também pessoas de classe média alta, famílias com crianças, todos lá para assistir e gritar obscenidades contra os negros.

Qual era a atitude da multidão?

Ela variava entre o escárnio, como se estivessem vendo macacos exigindo direitos civis – escárnio genuíno, sentido por pessoas que jamais imaginaram que os negros viriam, um dia, a reivindicar tais coisas –, e o ódio.

Nesse momento os negros ainda estavam dentro da igreja?

Sim. Quando estavam prestes a sair, a polícia bloqueou os degraus do capitólio, enquanto a multidão bloqueou todos os pavimentos. Agora furiosa, a multidão gritava “Saíam daí, negros!” Os negros desceram os degraus de sua igreja e começaram a cantar um hino; os brancos passaram a uivar e a insultá-los. A polícia e a milícia permaneceram a postos, se precisassem evitar incidentes.

Não havia nenhum branco favorável à população negra?

Havia um ministro metodista, o único homem em Montgomery corajoso o bastante para assumir uma posição. Como resultado, a Ku Klux Klan bombardeou sua casa e sua igreja um par de vezes.

Hmmm…

E então começou a pior parte. Os negros saíram da igreja pouco a pouco. Uma parte deles entrou em uma rua que não fora ocupada pelos brancos, mas outros desceram em grupos pequenos a Dexter Avenue, andando silenciosamente com as cabeças erguidas em meio a ofensas e a ameaças. A cada insulto ou dito espirituoso proferido por um branco, outros iguais a ele, homens ou mulheres, punham-se a rir, por vezes com uma insistência quase histérica, mas também por vezes de maneira afável, e essas pessoas, suponho, são as mais cruéis – esse racismo esmagador combinado com afabilidade.

Havia muitas mulheres negras?

Sim, e as jovens negras eram as mais admiráveis. Elas caminhavam em grupos contendo duas ou três, e os valentões cuspiam no chão diante de seus pés e bloqueavam o caminho seguido por elas, obrigando-as a desviar deles. Enquanto ouviam abusos e por vezes eram agredidas, as jovens negras continuavam a conversar entre si, como se nada de detestável estivesse acontecendo – ou como se estivessem acostumadas a essa cena desde o seu dia de nascimento.

O senhor chegou a conhecer Martin Luther King. O que pensou dele?

Ele é um político cuja única arma é o púlpito. A sua não-violência é a única forma de luta possível e ele a usa com a habilidade política controlada que a aspereza das condições em que ele e seus companheiros se desenvolveram ensinou-lhe. Os líderes negros – cheguei a conhecer muitos deles, de diferentes tendências – são pessoas lúcidas e determinadas, totalmente desprovidos de sentimentos de autopiedade.

Em sua viagem, o senhor conviveu tanto com militantes negros quanto com a famosa aristocracia sulista. Qual a sua opinião a respeito da última?

A aristocracia do sul dos Estados Unidos me dá a impressão de ser particularmente burra em seu esforço contínuo para resgatar as glórias da Confederação; esse patriotismo, que os leva a se dirigir a você como que convictos de que você compartilha de suas emoções, é algo mais insuportável do que ridículo. A questão racial é algo maldito: por um século, o sul dos Estados Unidos não falou nem pensou em nada além disso, só nesse problema, os progressistas e os reacionários igualmente.

Algo a acrescentar?

O que conta é o que somos, e o modo como aprofundamos a nossa relação com o mundo e com os outros, uma relação que pode envolver tanto o amor por tudo que existe quanto o desejo de que tais coisas passem por transformações.

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/italo-calvino-sobre-a-discriminacao-racial-e-a-luta-pelos-direitos-civis-por-camila-nogueira/