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Dirceu sabe o que faz

IoSonoUnaFotoCamera / Flickr

O preço de enfatizar gênero e raça

sem considerar as classes sociais

É um erro não perceber que tanto as raças quanto os gêneros têm classes sociais, que podem ter interesses distintos e em conflito.

Por Vicenç Navarro

O establishment político e midiático do Partido Democrata dos Estados Unidos continua sem entender o que aconteceu nas eleições na qual a vitória ficou com o candidato republicano Donald Trump. Diante da perplexidade, a única maneira que encontraram para explicar a sua derrota é a demonização do eleitor de Trump, definindo-o como ignorante, pouco educado, pouco sofisticado, cheio de racismo e machismo, preconceitos que seriam o resultado da sua inexistente educação, quando não de sua visão irracional.
 
As declarações da própria candidata democrata, a senhora Hillary Clinton, contribuem para esta demonização. Durante a campanha, numa reunião com a comunidade de lésbicas de Nova York, ela indicou que “poderia colocar a metade dos partidários de Trump na categoria de ‘gente desprezível’, são racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos e muitas outras coisas”. Segundo sua conclusão, muitos deles são “irrecuperáveis”. Para não ficar atrás, o próprio presidente Obama disse que o comportamento dos eleitores de Trump “havia sido a totalmente irracional, aferrado aos preconceitos ou à religião, ou a uma hostilidade para com os que não são como eles, apontando para o discurso contra os imigrantes ou contra o comércio internacional”.
 
Essa percepção, generalizada nos grandes meios de informação, tanto os estadunidenses quanto os europeus, não deixa de ser surpreendente, pois um grande número desses supostos “ignorantes”, “poco educados”, “racistas” e “xenófobos” votou pelo candidato (e depois presidente) Obama nas eleições de 2008, quando tal candidato despertou uma grande ilusão, devido ao seu compromisso de realizar uma grande “mudança”, a qual nunca chegou, ao menos na percepção de grandes setores das classes populares. Bairros operários brancos dos Estados de Pensilvânia, Wisconsin, Ohio e Michigan, que haviam dado a vitória ao candidato Obama em 2008, votaram desta vez pelo candidato Trump. Foi precisamente a mudança de tendência eleitora nestes quatro estados que permitiu a vitória do republicano no colégio eleitoral.
 
A demonização do eleitor de Trump

 
A única explicação que o establishment do Partido Democrata está dando ao ocorrido no dia das eleições é acusar aos eleitores republicanos de racistas, ou de sexistas, assumindo equivocadamente que não votaram por Hillary Clinton porque era mulher. Na verdade, Clinton havia orientado sua campanha a partir da premissa de que “era a hora das mulheres” chegarem ao poder (como as eleições anteriores foram a hora dos afro-americanos). Entretanto, a grande surpresa do Partido Democrata foi que a grande maioria das mulheres brancas votaram em Trump (maioria inclusive entre as mulheres da classe trabalhadora). Explicar este fato da forma como faz Clinton agora, afirmando ser consequência da falta de instrução (mostrando, como prova, que os setores com maior escolaridade votaram por ela, e que os menos educados optaram por Trump), é achar que a educação é a variável determinante do comportamento eleitoral, quando a variável determinante foi, na verdade, a indignação de classe – predominantemente a classe trabalhadora – diante do establishment democrata, representado por Clinton. A educação é um indicador da classe social do eleitor. Donald Trump foi o único candidato (junto com Bernie Sanders, nas primárias) que apelou ao sentido e à consciência de classe do eleitorado. A eliminação sectária de Bernie Sanders por parte del Partido Democrata canalizou o processo de mobilização da classe trabalhadora ao candidato Donald Trump, um personagem enormemente astuto, que utilizou essa consciência de classe e a rejeição ao establishment político e midiático, assim como o fato de que a candidata Hillary Clinton era evidentemente a representante do mesmo. Os “bem educados” sempre estiveram do lado do presidente Obama e da candidata Clinton, assim como dos presidentes Clinton e dos Bush pai e filho, e contribuíram com a criação da enorme crise que destruiu substancialmente o Estado de bem-estar e qualidade de vida das classes populares pouco educadas. O establishment político e midiático praticamente não deu outra alternativa a essas classes senão votar em Trump, para mostrar sua ira e sua rejeição contra o establishment do Partido Democrata, responsável, junto com o establishment do Partido Republicano, pela Grande Recessão, iniciada em 2008. Os establishments unidos eliminaram juntos a Bernie Sanders, que era a única possibilidade de mudança profunda nas políticas que causaram a Grande Recessão. Aliás, a maioria das pesquisas apontavam uma vitória de Sanders por margem bem maior que a de Clinton, se fosse ele o adversário de Trump em novembro.
 
O fracasso das políticas identitárias diante do elemento de classe
 
Nos Estados Unidos, as maiores diferenças entre a direita (o Partido Republicano) e o partido que, com excessiva generosidade, poderia ser chamado de esquerda (o Democrata) se encontram na estratégia de integração dos setores discriminados – como as minorias negras, os latinos, e também as mulheres – dentro das estruturas de poder. O Partido Democrata liderou as campanhas antidiscriminação contra as minorias e as mulheres. Essas campanhas tiveram certo sucesso, incrementando notavelmente o número de mulheres e de pessoas pertencentes às minorias discriminadas nas estruturas de poder, tanto públicas quanto privadas. Contudo, foram as mulheres ou representantes das minorias provenientes da classe média com renda alta, os que se beneficiaram desse sucesso, sem que isso significasse uma melhora na qualidade de vida das minorias e das mulheres pertencentes às classes populares. O principal valor desse avanço é simbólico, mostrando (ou tentando mostrar) que todos os cidadãos, independentemente de sua raça ou gênero, podem alcançar os principais espaços de poder. Esta imagem reciclada do sonho americano não corresponde à realidade, pois ainda é muito difícil chegar ao poder quando se é filho ou filha da classe trabalhadora, e essa situação é inclusive mais acentuada hoje em dia, quando a evidência mostra que os filhos não viverão melhor que seus pais neste futuro desenhado pela elite financeira.
 
Logo, a variável de classe ainda é enorme importância para entender como a população pensa, vive e vota. A classe trabalhadora (pessoas que obtêm sua renda do trabalho, de um trabalho repetitivo, supervisado e assalariado) continua existindo, e representa a maioria entre os setores que conformam as classes populares. Quando a esquerda se esquece disso, permite que essas classes votem pela ultradireita. Foi o que ocorreu nos Estados Unidos, e também no Reino Unido. É o que pode acontece na França e em outros países da União Europeia.
 
A experiência das eleições estadunidenses mostra claramente que existem classes sociais entre as minorias e entre as mulheres. A maioria de associações de defesa das minorias, assim como as das mulheres (todas elas apoiaram a candidata Clinton), são lideradas por mulheres de classe média alta, pertencentes às classes profissionais, e se consideram representantes de todas as mulheres, ou de todos os diferentes grupos de minorias. Porém, na hora do voto, a maioria das mulheres e boa parte das minorias escolheram o que percebiam ser seus interesses de classe – rechaçando o establishment político e midiático – e não o que os seus dirigentes definiram como seus interesses identitários, de raça ou de gênero. Seria um erro enfrentar os interesses de raça e gênero com os de classe, e vice-versa, mas é claramente um erro maior ainda não perceber que tanto as raças quanto os gêneros têm classes sociais, que podem ter interesses distintos e em conflito. O recente caso dos Estados Unidos é um exemplo disso.
 
Vale lembrar também que o governo Trump, composto por figurões da classe empresarial, impulsionará políticas que causarão ainda mais danos ao bem-estar das classes populares, e por isso a sua vitória mostra o grau de insatisfação das classes populares, sobretudo da classe trabalhadora branca (que é a maioria da classe trabalhadora no país), para com o que foi definido historicamente como o “partido do povo”, o Partido Democrata. A perda de credibilidade dos instrumentos que historicamente defendiam os interesses das classes populares levou à vitória da ultradireita nos Estados Unidos, e esse fenômeno pode se repetir em muitos países da Europa.
 
* Professor de Ciências Políticas da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona.
 
Tradução: Victor Farinelli

Créditos da foto: IoSonoUnaFotoCamera / Flickr

Extríido de http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-preco-de-enfatizar-genero-e-raca-sem-considerar-as-classes-sociais/6/37636

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A sociedade capitalista manipula as pessoas e os seus padrões de vida, de beleza e até de consumo, não permitindo, a maioria das vezes, o indivíduo ser quem realmente é.

Por Clara Moutinho Belbut.

O consumismo refere-se a um modo de vida orientado por uma compulsão que leva o indivíduo a comprar de forma ilimitada e sem necessidade, bens, mercadorias e/ou serviços, em geral, supérfluos, em razão do seu significado simbólico (prazer, sucesso, felicidade, etc.), frequentemente atribuído pelos meios de comunicação, o que é comum num sistema dominado pelas preocupações de ordem material. O termo é muitas vezes associado à cultura e produção em massa e à indústria cultural. Não é por acaso que a sociedade de hoje em dia é conhecida como “sociedade de consumo”.

Antes de mais, é importante fixar que um consumidor não age como um consumista, e que existe uma diferença entre o primeiro, que compra as mercadorias e os serviços de que necessita para a sua existência, e o segundo. Um consumista caracteriza-se pelos gastos excessivos em produtos supérfluos, movidos pela propaganda. A necessidade de consumo pode vir a tornar-se uma compulsão, uma patologia comportamental. Muitas pessoas compram compulsivamente coisas de que não precisam. Muitas vezes, furtam ou roubam, não movidas por uma necessidade objetiva mas, sim, pelo desejo de possuir algo cujo significado é essencialmente simbólico.

A sociedade capitalista atual é marcada por uma necessidade intensa de consumo, o que resulta numa maior necessidade de produção, que para atender a esta procura gera cada vez mais empregos, que aumentam o dinheiro disponível na economia e que acaba por ser revertido para o próprio consumo. O excesso de todo este processo leva a uma intensificação da produção e, consequentemente, a um aumento da extração de matérias-primas e do consumo de energia, muitas vezes, de fontes não-renováveis. Para além disso, o amontoo cada vez maior de bens supérfluos leva a nossa sociedade a uma deterioração dos hábitos e dos valores, uma vez que as pessoas se tornam gradualmente escravas do consumo, em detrimento da reflexão crítica, de uma sociedade que privilegie a pessoa e a sua intelectualidade.

O consumismo tem vindo a tornar-se, também, um grande inimigo do meio ambiente. O lixo e outros resíduos gerados pelas embalagens e produtos descartados têm causado grandes problemas ambientais, principalmente nos grandes centros urbanos.

Dentro deste processo (consumista) de ver, desejar, comprar e voltar ao início, forma-se um ciclo vicioso. Se não houver uma consciencialização deste problema, não haverá alteração no descontrolo que se criou e tem vindo a aumentar com o passar dos anos.

Em suma, as relações sociais desvalorizam, assim como a pessoa na sua essência, perante o valor crescente das mercadorias. A sociedade capitalista manipula as pessoas e os seus padrões de vida, de beleza e até de consumo, não permitindo, a maioria das vezes, o indivíduo ser quem realmente é. Desta forma, o ser humano convive diariamente com o fantasma da insatisfação, do consumismo e da alienação.

http://www.esquerda.net/artigo/o-consumismo/46340

Toni Puig - Fotografia de Joan Horrit

A Lição de Toni Puig em Torres Vedras, uma utopia?

Por Rui Matoso 
No que respeita ao binómio cultura-cidade, diz Toni Puig que há uma cultura que já não é cultura: é somente entretenimento.

Toni Puig esteve em Torres Vedras, no passado dia 14 de outubro, para participar no III Fórum Social Intermunicipal – uma escolha muito acertada da organização, que felicito. No entanto, a vinda do catalão só resultará plenamente se o executivo municipal, e respetivos serviços públicos, estiverem genuinamente focados em construir “novas respostas para velhos problemas” (mote do Fórum).

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Toni Puig e de o entrevistar na Direção de Cultura de Barcelona, em 2008, e de ter organizado com ele – em parceria com a EGEAC, a Academia de Produtores Culturais, e a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas -, dois seminários em Lisboa. Desde então considero-o uma referência na teoria e na prática da “terapia” sociocultural, ou seja, na procura incessante de novos métodos e processos de indução de vitalidade e viabilidade urbanas. Toni Puig conhece na prática, como poucos, o mal-estar civilizacional provocado por múltiplos fatores, que podem ser aglutinados sob esse grande chapéu da globalização neoliberal e do capitalismo tardio, e cujos efeitos se repercutem no bem-estar das populações e na qualidade de vida nas cidades, tais como: descrença na legitimidade política, afastamento da participação cívica, despolitização, homogeneização cultural (perda de diversidade), inércia social, etc.

A proposta de Toni Puig é muito simples e conhecida desde há muito, e nem sequer é original do ponto de vista autoral, pois existem muitos outros “urbanautas” portugueses e estrangeiros que já (quase) tudo disseram sobre o assunto. Assim, é incompreensível que, salvo raras excepções, muitos autarcas portugueses continuem a ignorar, a fingir ignorar, ou simplesmente a recusar aquilo que são as boas práticas de gestão colaborativa e participativa no domínio da cultura e da criatividade urbana.

Em Torres Vedras, bem como noutros municípios, não será certamente por falta de sugestões e reivindicações que os sucessivos executivos municipais podem justificar a sua inoperacionalidade neste âmbito. As causas são também sobejamente conhecidas e, em suma, prendem-se com o enfoque na manutenção e captura do poder pelos aparelhos partidários. Contudo, paradoxalmente, como bem sabemos, não há dimensão política com maior potencial de participação e transformação social do que a dimensão cultural, em sentido lato.

No que respeita ao binómio cultura-cidade, e voltando a Toni Puig, diz ele que há uma cultura que já não é cultura: é somente entretenimento. É aquela que foi proposta insistentemente pela maioria das políticas culturais fossilizadas há mais de trinta anos de adoração absoluta de artistas ávidos de pasta [no original], de políticos carismáticos e mediáticos de ideias curtas, de gestores culturais de gabinete que inundam com os seus estereótipos de beleza morta/desactivada os teatros, os museus e as cidades. Mas, a cultura do século XXI, pelo contrário, inscreve-se aqui: no cuidado atento e bem intencionado ao valor de uma atmosfera transbordante de sentido cívico e de humanidade. Esta cultura do Séc. XXI, é a cultura partilhada entre os cidadãos nos seus territórios, e que confere vitalidade cultural e sentido individual, colectivo e cívico às pessoas que procuram a utopia de ver na cidade (como defendeu Artistóteles) a possibilidade de um bem-comum e da realização plena dos indivíduos e das comunidades políticas (polis).

Fazer com que esta “utopia” aconteça é tarefa de todos, mas, a cada um as suas responsabilidades. Desde logo a principal responsabilidade tem obrigatoriamente de ser assumida pelos responsáveis autárquicos (executivo, assembleia e serviços municipais), umas vez que é nestes que se acumulam poder e recursos, bem como os deveres inerentes ao cargo de “funcionário público” que ocupam, e pelo qual são remunerados. Uma gestão pública colaborativa e participativa, constantemente atenta aos desejos e aspirações culturais da pluralidade dos cidadãos, mobilizadora da democracia e da cidadania, e, principalmente do direito à cidade e à criatividade.

Realizar isto é o desígnio de todos aqueles que procuram concretizar a ideia de cidade como construção humana destinada ao bem-comum e à liberdade. Uma cidade inquieta, aberta às propostas dos cidadãos, nomeadamente dos mais jovens, dotada de um serviço público proativo e dialogante com as exigências, as propostas e as críticas dos habitantes: “o governo municipal democrático lidera, convoca, inspira, coordena, apoia, propõem, motiva, assinala, assume, dialoga e empenha-se sempre em em construir um horizonte amplo de confiança no espaço comum (…) começando por escutar atenta, global e pluralmente todos os cidadãos, as associações cívicas e os movimentos sociais em especial”. Estas e outras ideias de Toni Puig podem ser consultadas no seu website, onde o autor disponibiliza todos os seus escritos:http://www.tonipuig.com/(link is external).

Todavia, não sendo nada disto inédito nas atuais conceções de governância municipal, a mudança efetiva de paradigma não acontece, por que razão?

http://www.esquerda.net/artigo/licao-de-toni-puig-em-torres-vedras-uma-utopia/45037

Barry Adamson (11 June 1958) é um cineasta, cantor e compositor inglês, ex-integrante de bandas como Magazine, Visage, The Birthday Party, Nick Cave & the Bad Seeds.

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Para saber mais vá ao site do músico:

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http://www.barryadamson.com/

Brasil:

Primeiro-damismo e sororidade

Coletivo Ana Montenegro

O governo saído do golpe no Brasil todos os dias promove um novo ataque aos direitos dos trabalhadores e do povo brasileiro. Esse retrocesso geral é acompanhado do ressurgimento de um discurso reaccionário, como sucedeu recentemente com Marcela Temer que, na inexistente qualidade de “primeira-dama”, fez o rol das concepções mais retrógradas da natureza e do lugar da mulher na sociedade.

Marcela Temer e o seu papel no avanço da política neoliberal

Desde que assumiu, o novo governo, alinhado com setores mais conservadores e o projeto neoliberal para o Brasil, com Michel Temer como sua principal liderança, vem de forma truculenta atacando direitos da classe trabalhadora e provocando grandes retrocessos na Educação, na Política de Assistência e na Saúde Pública.

Quase que diariamente, um Projeto de Lei é aprovado definitivamente ou avança pelas instâncias necessárias para isso. Essa semana, tivemos PL 12.351, que muda as regras de exploração da camada do pré-sal, e PEC 241 que limita os gastos públicos, aprovadas e alterações na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) foram feitas retirando a obrigatoriedade de diversas disciplinas, principalmente no Ensino Médio.

Alterações na previdência são engatilhadas e programas sociais vêm sofrendo cortes, como o Bolsa Família. Recentemente, o Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro (CFCAM) publicou uma Nota sobre como estes ataques fazem sangrar, ainda mais, as mulheres da classe trabalhadora. 

Primeiro-damismo: caridade e responsabilidade do Estado

Governo e grande mídia investem na figura de Marcela Temer e escancaram a visão burguesa do papel da mulher na sociedade: servidão e docilidade para atender ao trabalho reprodutivo gratuitamente. Ao “amadrinhar” o programa federal “Criança Feliz”, Marcela Temer, que não é nenhuma estudiosa ou profissional do ramo, discursa em favor da romantização da caridade em detrimento a responsabilidade estatal de combater as desigualdades sociais. Afirma seu trabalho voluntário, na contramão da profissionalização do atendimento às demandas sociais decorrentes das desigualdades econômicas, de gênero, racial e do cuidado com crianças e jovens. Ainda, faz afirmações infames sobre “instinto feminino” e “instinto materno”, expressões da ideologia burguesa para naturalizar a exploração do trabalho feminino e o abandono do Estado burguês em relação às demandas sociais. Assistimos a volta das “damas caridosas” da alta sociedade e o primeiro-damismo.

Primeiro-damismo é o nome dado ao papel que as esposas dos presidentes da república são colocadas no Brasil, desde os anos 1940. A primeira-dama Darcy Vargas, esposa de Getúlio, foi a primeira a comandar a política de assistência e ajudou na criação da Legião Brasileira de Assistência, obedecendo um modelo centralizado de ações. A Legião Brasileira de Assistência – LBA era focada na figura das primeiras damas e assume todas as ações de assistência social até os anos de 1980. Todas as primeiras damas brasileiras até a década de 1980 foram responsáveis pela caridade do Estado junto aos pobres, tendo como principais características a benesse, a caridade e o clientelismo.

Seu retorno, na demonstração de mulher bela, recatada e do lar de Marcela Temer, além de ser uma construção ideológica do papel da mulher na sociedade, como afirmamos antes, também representa um retrocesso de 40 anos na construção de uma política nacional séria de assistência social, que foi instituída a partir da Constituição de 1988.

Vale lembrar que a primeira-dama não é considerada integrante da administração federal e nem recebe salário. E também não há nada na legislação brasileira que demonstre um papel específico para a esposa do presidente, sendo fundamentalmente protocolar e ligado aos rituais diplomáticos, além de ser amarrado ao modelo de casamento homem-mulher com homens na posição de ocupante de função pública, e não outros arranjos. E nesse caso, além de reforçar o papel de submissão marital, Marcela Temer, não estará à frente do programa como gestora, mas como promotora e visibilizadora.

O Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro repudia, novamente, os ataques do governo golpista às trabalhadoras e trabalhadores. Não a retirada de programas sociais e não ao primeiro-damismo. Problemas sociais não se resolvem com caridade. Para o Coletivo, ainda que não passem de reformas, problemas sociais devem ser tratados como responsabilidade do Estado e com profissionais capacitados para o atendimento das demandas da população.

Em tempo: sobre sororidade

O Feminismo Classista, vertente feminista que dá a linha do CFCAM, repudia o conceito de sororidade, ou seja, de que todas as mulheres devem se unir e se apoiar. “Não entendemos a luta contra a opressão como “sexo contra sexo”, mas sim como “classe contra classe””. O exemplo de Marcela Temer é didático para mostrar que ela está do lado da classe inimiga e se beneficia com nossa opressão, afinal, quantas empregadas são exploradas para que ela e algumas outras possam ser consideradas “belas, recatadas e do lar”.

Fonte: CFCAM

http://www.odiario.info/brasil-primeiro-damismo-e-sororidade/

Foto: Reprodução/Facebook da pesquisadora Patricia Gouvêa

As marcas e suas derrapadas: por quê?

Por Priscila Portugal

No último final de semana só se falou (no meio fashion) em uma coisa: a estampa Pindorama, da marca carioca Maria Filó. Por quê? Porque ela reproduzia uma tela (que segundo a marca era de Debret, mas segundo especialistas era mesmo de Rugendas) com uma cena da época do Brasil escravocrata, uma negra com o bebê no colo servindo uma senhora branca. Segundo a pesquisadora Patricia Gouvêa explicou em seu perfil no Facebook, aliás, a imagem original, inclusive, traria duas mulheres negras, o que altera completamente o significado da cena. A Maria Filó se retratou, dizendo que não teve a intensão de ofender ninguém e que já retirou as roupas das lojas. Tem quem ache mimimi (eu, definitivamente, não acho) e tem quem esteja escrachando a marca publicamente. O fato é que, mesmo sem a intenção, houve a falha, muito grave atualmente.

Foto: Reprodução/Twitter

Eu lembrei da Zara, que dois anos atrás lançou uma camisa de pijama infantil bem parecida com os uniformes dos campos de concentração nazistas: com listras azuis e brancas e uma estrela dourada de seis pontas no peito. Oi? Em outra seara – a do atendimento – a Farm foi acusada ano passado de gordofobia, quando as vendedoras de uma loja foram aos risos para os fundos da loja enquanto uma cliente gordinha esperava para ser atendida. A americana Abercrombie patinou para se livrar de uma besteira dita por um de seus diretores: de que suas roupas não eram feitas para gente “feia e gorda”. Affff, gente. Sem contar as marcas de cerveja, que cometem um “deslize” atrás do outro. Quem não lembra do “deixei o não em casa”, da Skol, que sofreu intervenções em seus outdoors em São Paulo?

Pois é. Por mais que o consumidor veja apenas como um “deslize”, a verdade é que nos tempos de hoje nenhuma marca pode se permitir este tipo grave – e ofensivo e opressor e cruel – de erro. A gente que trabalha com comunicação sempre fica pensando: como é que uma equipe inteira deixou passar isso? É claro que todo mundo pode errar, e minha intenção aqui não é linchar publicamente nenhuma marca. É mesmo entender como podemos trabalhar para que isso seja evitado e também mostrar a amplitude que um erro aparentemente simples pode assumir nos dias de hoje.

Para isso, eu fui conversar com a Lorena Borja. Eu fiz com ela um curso livre de coolhunting na Faap em que falávamos sobre questões assim. A Lorena também entende muito de semiótica, uma teoria que fala sobre a importância das simbologias e suas manifestações no nosso dia a dia. Resumindo de um jeito bem simples: tudo o que fazemos é uma linguagem que comunica quem somos, quem queremos ser ou quem queremos parecer, e com as marcas não é diferente. Por isso, elas precisam ficar atentas aos mínimos detalhes. “Tudo que uma marca escolhe para representá-la é uma linguagem: a estamparia, o anúncio, a trilha sonora do desfile, o cheiro que ela coloca na loja, o endereço do ponto de venda dela… tudo isso representa o conjunto de ideias que ela quer transmitir para o mercado e para a cliente dela”.

Só que não adianta essa mensagem ser falsa ou superficial: cedo ou tarde isso vai aparecer. Além disso, de nada vale ter uma mensagem clara se você não entende o que está acontecendo à sua volta. “Tem um termo alemão que é o zeitgeist, palavra que significa o ‘espírito do nosso tempo’. Talvez se fosse na década de 80, essa estampa da Maria Filó, por exemplo, não teria tido os desdobramentos que teve hoje. Mas o espírito do nosso tempo exige uma responsabilidade das marcas em relação ao que elas apresentam ao mercado. Os consumidores estão muito ligados. A população negra, por exemplo, está reivindicando seus direitos. A pauta racial é uma pauta do momento, e não só no Brasil. As marcas precisam ficar atentas a isso e saber o que querem dizer ao mercado. É um posicionamento”, resume. E como disse a atriz Thaís Araújo em seu Facebook, “A escravidão não pode virar ‘pop’, não pode ser vendida como uma peça de moda. A moda nos representa, nos posiciona, nos empodera, comunica quem somos”. Assino embaixo.

Extraído de: http://priscillaportugal.tumblr.com/post/151941686312/as-marcas-e-suas-derrapadas-por-quê