A revanche do sagrado:

entrevista com Edimilson de Almeida Pereira*

USINA: No título do livro “Águas de contendas” você já indica que o rio é turbulento, especialmente quando se trata de identidades. Em que termos falar de tradição afro-brasileira em um universo sincrético, antropofágico e conflituoso?

Edimilson: Quando considero o universo das tradições afro-brasileiras e suas relações com a cartografia das culturas brasileiras, penso em tais relações a partir de uma série de contendas que, ora se resolvem através de negociações, ora se revelam como aporias. Se as negociações, por um lado, nos permitem delinear as tradições afro-brasileiras é oportuno pensarmos a tradição conforme Honorat Aguessy, ou seja, não a partir de uma “ideia fixista” que se tem dela, já que ela “não poderia ser a repetição das mesmas sequências; não poderia traduzir um estado imóvel da cultura que se transmite de uma geração para outra. A atividade e a mudança estão na base do conceito de tradição.” As negociações que consideram a lógica da permanência e da mudança, que ressaltam o caráter dialético da tradição, nos permitem apreender as perdas e os ganhos, os logros e as parcerias que fazem da tensão o modus operandi das heranças de matriz africana na sociedade brasileira. Por conta disso, muitas de nossas práticas culturais são tão mais brasileiras quanto mais afrodescendentes e vice-versa. Um exemplo, a língua portuguesa tal como a falamos, assinalam, dentre outros estudiosos, Renato Mendonça e Yeda Pessoa de Castro, só é assim conformada em função dos intercâmbios entre o português e as línguas africanas, particularmente do grupo banto.

Por outro lado, as contendas que envolvem as demais instâncias político-culturais da sociedade brasileira com as tradições afro-brasileiras não têm sido resolvidas, ou melhor, têm se revelado como de difícil solução. Não podemos perder de vista um fato determinante de nossa história, qual seja, o fato de que o sistema sócio-político-econômico que considerou os negros africanos imprescindíveis foi o mesmo que os reificou, traficou e violentou. Foi esse sistema que os trouxe ao Brasil e ainda é, em grande medida, o sistema que não considera os descendentes dos africanos negros escravizados como integrantes do país. A aporia aí se desenha: nós, negros brasileiros, ainda somos sujeitos sem casa, homeless, em nossa própria terra. Prova de sermos considerados assim, apesar das conquistas alcançadas individual e coletivamente, ao longo das últimas décadas, sobretudo, é a escalada de violência perpetrada contra as populações afrodescendentes no país. Por isso, nossas águas ainda são de contendas, e sua pacificação não é tarefa exclusiva dos afrodescendentes. Enfatizo, fazendo coro a outras vozes, que não há como pensar um Brasil socialmente equilibrado enquanto insistirmos em práticas de exclusão imaginadas como mecanismos de defesa de determinados grupos sociais. Nas tramas sociais brasileiras é urgente realçar os fios que podem nos unir, ao contrário do que temos feito, a ponto de vermos, há tanto tempo, agarrados, para não sucumbirmos, aos fios do medo e da intolerância.

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