Escritura à Margem:

A Criação Poética de Mário de Andrade

nas Páginas da Revista L´Esprit Noveau 

Por Lilian Escorel

Este texto, tradução que apresento de meu artigo “Écrire en marge d’une revue. La création poétique de Mário de Andrade sur les pages de L’Esprit Nouveau”, publicado na revista eletrônica Recto/Verso1 (Revue de jeunes chercheurs en critique génétique), nº 2, dezembro de 2007, trata dos frutos do diálogo de Mário de Andrade com Paul Dermée a partir de “Découverte du lyrisme”, artigo do poeta belga no número de estreia de L’Esprit Nouveau, em outubro de 1920. Em “Découverte du lyrisme”, o escritor brasileiro materializa em nota de rodapé uma instância na criação de versos do poema “Tu” em Pauliceia desvairada, fato que situa o poema na raiz de um surrealismo nascente na França em 1920. Antes de examinar este caso preciso de escritura, contextualizo o processo de criação dePauliceia desvairada e o período da marginália em que se inscreve a leitura pelo poeta modernista destapublicação estrangeira, reunida em sete volumes em sua biblioteca.

Publicada em Paris, projeto do pintor francês Amédée Ozenfant, do arquiteto suíço Le Corbusier e do poeta belga Paul Dermée, L’Esprit Nouveau (1920-1925) representa uma importante matriz na formação das ideias estéticas e da poética de Mário de Andrade. Lida e anotada por ele, esta publicação da vanguarda francesa encerra um alentado diálogo do poeta brasileiro com o modernismo europeu. Paralelamente, os apontamentos autógrafos, sobrepostos aos textos impressos, fazem com que os números na biblioteca do escritor gozem da dupla natureza de edição e de matriz e manuscrito.

Pauliceia desvairada:

manuscritos não conservados

O arquivo de Mário de Andrade (1893-1945) não guarda os manuscritos de Pauliceia desvairada (1922), primeiro livro de poemas modernos deste escritor e pedra angular na fundação do movimento modernista no Brasil. Não conhecemos o caderno (ou cadernos) que acolheu a eclosão dessa obra “em pouco mais de uma semana” no fim de 1920, segundo testemunho do poeta brasileiro em “O movimento modernista”, valioso balanço feito por ele em 1942 no Salão de Conferências da Biblioteca do Ministério das Relações Exteriores, a convite da Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro:

  • 2ANDRADE, Mário de. “O movimento modernista”. In: Aspectos da literatura brasileira. 6ª ed. São Paulo: Editora Martins, 1978, p. 234.

“Entre desgostos, trabalhos urgentes, dívidas, brigas, em pouco mais de uma semana estava jogado no papel um canto bárbaro, duas vezes maior talvez do que isso que o trabalho de arte deu num livro.”2[destaque meu]

 

O que se sabe, pela nota impressa na página de rosto da primeira edição em livro dessa obra, é que sua redação aconteceu entre dezembro de 1920 e dezembro de 1921, período em que o escritor também divulgou suas crônicas da série “De São Paulo” na Ilustração Brasileira, precisamente entre novembro de 1920 e maio de 1921. Essa publicação paralela à gênese dos primeiros poemas modernos de Mário de Andrade importa na medida em que alguns poemas denunciam um parentesco, nos temas, com as crônicas.

  • 3Cf. LOPEZ, Telê Ancona. “Mário de Andrade, cronista do modernismo: 1920-1921”.  In: ANDRADE, Mário de. De São Paulo. Cinco crônicas de Mário de Andrade, 1920-1921. Ed. preparada por Telê Ancona Lopez. São Paulo: Editora Senac, 2002, p. 65.
  • 4Sobre o assunto da capa de Pauliceia desvairada, ver LOPEZ, Telê Ancona, “Arlequim e Modernidade”. In:Mariodeandradiando. São Paulo: Hucitec, 1996.
  • 5Idem. “A biblioteca de Mário de Andrade: seara e celeiro da criação”. In: ZULAR, Roberto (org.)Criação em processo – Ensaios de crítica genética. São Paulo: Iluminuras/Fapesp, 2002, p. 50-51.
  • 6Em francês: “ils conjoignent sur le même support le domaine du texte public imprimé, exhibé, socialisé, et le champ privé de l’atelier du créateur, le lieu intime de la gestation.”, em FERRER, Daniel. “Une imperceptible gomme de tragacanthe”. In: D’IORIO, Paolo e FERRER, Daniel, orgs. Bibliothèques d’écrivains . Paris: CNRS, 2001, p. 11.
  • 7GREMBECKI, Maria Helena. Mário de Andrade eL’Esprit Nouveau (1968); FERES, Nites Therezinha.Leituras em francês de Mário de Andrade (1967) e LOPEZ, Telê Ancona. O se-sequestro da dona ausente(1967), dissertações de mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada – FFLCH-USP.

Em 1922, os poemas foram reunidos sob o título Pauliceia desvairada e ganharam uma primeira edição. O livro, copiado à mão3, foi impresso à custa do autor nas oficinas da Casa Mayença em São Paulo. Ilustrado por Antonio Moya, o volume in octavo estampava losangos coloridos sobre uma capa ousada, desenhada pelo poeta modernista Guilherme de Almeida, que se inspirou certamente na capa deArlecchino, de Soffici, livro integrando as edições do futurismo italiano na biblioteca de Mário de Andrade4.

Nessa realidade parca de documentos do processo, o estudo da criação de Pauliceia desvairada pode se valer da biblioteca de Mário de Andrade, espaço que, para além da ordem dos títulos classificados nas estantes, esconde outra ordem: a da criação do escritor. Segundo observa Telê Ancona Lopez em “A biblioteca de Mário de Andrade: seara e celeiro da criação”,

“[…] a marginália compensa, em maior ou menor grau, a perda de documentos do processo criativo; reveste-se, assim, de especial valor ao firmar insuspeitados paratextos ou calçar declarações do escritor sobre suas leituras. Temas, motivos, personagens alheios, recursos estilísticos etc. podem ser vistos nas cabeceiras da escritura mariodeandradina como ressonâncias fortuitas e paradoxalmente inaugurais, desencadeando a criação”5.

De fato, a biblioteca deste escritor brasileiro oferece rico material para a crítica genética. Uma importante parcela dos 17.624 volumes que a compõem – entre livros, jornais e revistas – traz em suas margens, generosas anotações de leitura saídas da pena ou do lápis desse leitor/escritor engajado na proposição de uma estética de cunho brasileiro. Nessa condição, os volumes anotados (locus genesis) ganham a dupla natureza de edição e de manuscrito, pois, lembrando Daniel Ferrer, “conjugam no mesmo suporte o domínio do texto público impresso, apresentado, socializado, e o campo privado do estúdio do criador, o lugar íntimo da gestação”6.

Antes da transferência da biblioteca de Mário de Andrade para o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP) no segundo semestre de 1968, um projeto de pesquisa pioneiro, coordenado por Antonio Candido de Mello e Souza da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, realizou de 1963 a 1968 uma primeira exploração da biblioteca de Mário de Andrade, na casa do escritor. A conclusão daquele trabalho apresentou o registro dos títulos nas estantes, uma primeira classificação de sua marginália, e três trabalhos de mestrado, os quais, sob o apoio teórico das fontes e das influências, vincularam leituras do poeta à sua criação7.

Desde 1988, quando as pesquisas orientadas por Telê Ancona Lopez no arquivo de Mário de Andrade abriram-se para a crítica genética, a biblioteca do escritor acolheu uma série de estudos sobre a gênese de sua obra. A simples presença de alguns títulos nas estantes, as influências declaradas, as leituras confirmadas e a fecunda marginália do escritor brasileiro, concretizando seu estudo e sua pesquisa em direção à modernidade, guardam a memória de certos poemas de Pauliceia desvairada. Podemos pensar na relação entre o traje do arlequim na capa da primeira edição desse livro e o processo de criação dos poemas, como Telê Ancona Lopez propõe em “Arlequim e modernidade”, ensaio em que analisa “o traje teórico de arlequim que veste” esta obra. Os losangos coloridos formando a veste arlequinal representam, de certo modo, as apropriações e recriações, pelo poeta, de determinados aspectos das vanguardas europeias em seu livro, para a construção do qual, cabe destacar, concorreu fortemente a leitura da revistaL’Esprit Nouveau. Anotada por Mário de Andrade, esta moderna publicação francesa ganha o estatuto de manuscrito na biblioteca deste poeta-arlequim, que faz do traje do outro um traje novo e brasileiro. “Arlequinal” é, aliás, uma expressão que o poeta dissemina nos poemas do livro,

  • 8LOPEZ, Telê Ancona. “A biblioteca de Mário de Andrade: seara e celeiro da criação”. In: Op. cit., p. 66.

“compondo o crivo da intertextualidade por onde passam posições estéticas e soluções técnicas das diferentes vanguardas europeias, além de subsídios populares e eruditos de origem vária. ‘Arlequinal’ serve para configurar a justaposição de fragmentos que alicerça a polifonia poética na obra, onde o eu lírico assume diferentes feições do arlequim.”8,

10§citando mais uma vez Telê A. Lopez, agora em “A biblioteca de Mário de Andrade: seara e celeiro da criação”.

L’Esprit Nouveau nas estantes de Mário de Andrade

11§Em um sobrado na Barra Funda, à rua Lopes Chaves, para onde se muda com a família em 1921, Mário de Andrade forma a sua biblioteca. Interessado, sobretudo, nos livros e nas revistas de arte, de música e de literatura, bibliófilo confesso que cuidava muito bem das obras que adquiria, organiza um modelo pessoal de classificação, respeitando a ordem dos livros, revistas e jornais nas estantes e nos cômodos da casa: sete salas. Na folha de guarda ou de rosto dos volumes que ingressam em suas prateleiras, o leitor/escritor cola uma etiqueta com o cabeçalho impresso “Mário de Andrade” e uma cruz abaixo, na qual preenche a tinta um número de registro combinando letras e números. Este método de organização indicava o cômodo da casa, a estante, a prateleira e o número do exemplar.

12§No hol do térreo, sala A, o leitor acomodou principalmente os livros e as revistas de 1920, a maioria correspondendo a publicações das vanguardas europeias. Sem enumerar exaustivamente essa produção vanguardista, cabe destacar a presença importante do expressionismo alemão e do futurismo italiano; a representação ampla da literatura francesa de vanguarda a partir de Guillaume Apollinaire; algumas publicações do dadaísmo e do surrealismo; e a coleção completa da revista internacional de estética L’Esprit Nouveau. Esta vai de 1920 a 1925, 7 volumes, em encadernação de couro marrom, providenciada pelo assinante, numerados de 43 a 49, segunda estante, prateleira E.

  • 9Ibidem, p. 58.

13§O diálogo de Mário de Andrade com L’Esprit Nouveau pode ser situado no segundo período de sua marginália, que parece ter começado em 1914 e terminado por volta de 1929, conforme classificação de Telê Ancona Lopez. Para a pesquisadora, “os títulos existentes falam do alargamento do gosto de conhecer, frequentar autores consagrados, permitidos ou não pelo Index, descobrir as vanguardas”9. Tempo de renovação, em que se observa na biblioteca do escritor a presença de edições do final do século XIX e das duas primeiras décadas do XX, correspondendo a títulos de autores estrangeiros, poetas na maioria, e dos principais poetas brasileiros românticos, parnasianos e simbolistas. As notas autógrafas, a grafite, principalmente, acusam uma leitura criativa e crítica, já de um escritor, evolução do primeiro período, 1910−1913, no qual o leitor, entre os seus 16 e 19 anos, está preocupado em fixar conceitos, a tinta preta, e fazer uma bagagem.

  • 10Ibidem, p. 57.

14§No que se refere à literatura internacional, esse segundo período marca o início da relação de Mário de Andrade com textos alemães e a expansão do conhecimento da prosa e da poesia em língua francesa até chegar às vanguardas. A desenvoltura do escritor com as línguas estrangeiras evidencia-se na importante parcela de títulos em francês, italiano, espanhol, inglês e alemão em suas prateleiras. O aprendizado da língua francesa remonta a 1905, data de ingresso no Colégio Nossa Senhora do Carmo da Congregação Mariana de origem francesa, onde, na época, ensinam professores franceses, belgas e brasileiros. Em 1910, frequenta o primeiro ano da Faculdade de Filosofia e Letras, ligada à Universidade de Louvain, no mosteiro de São Bento, em São Paulo. Embora não siga o curso de Filosofia nos anos seguintes, assiste a aulas e conferências de Monsenhor Sentroul, professor belga que lhe promove o contato com Émile Verhaeren, Francis Jammes, Paul Claudel, Maeterlinck, Jules Romains e os poetas da Abadia, descobrindo com eles caminhos para a adoção do verso livre10.

15§Mário de Andrade deve o conhecimento de L’Esprit Nouveau ao assinante Rubens Borba de Moraes. É este amigo de infância e aspirante a escritor, educado na Suíça até fins de 1919, quem apresenta a novidade francesa a um pequeno grupo de artistas e escritores em São Paulo – Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Anita Malfatti, Victor Brecheret –, então empenhados em renovar as letras e as artes brasileiras. O autor de Domingo dos séculos, aderindo ao grupo logo que chega ao Brasil, assim rememora o fato:

  • 11Entrevista com Rubens Borba de Moraes. In: FERES, Nites Therezinha.Aurora de arte século XX: a modernidade e seus veículos de comunicação − estudo comparativo. Tese de doutoramento.São Paulo: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade São Paulo, 1972, p. 164.
  • 12ANDRADE, Mário de e BANDEIRA, Manuel.Itinerários: cartas a Alphonsus de Guimaraens Filho, São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1974, p. 63.

“[…], eu me lembro que quando saiu a revista de Le Corbusier – eu vi um anúncio de que ia sair essa revista – nunca tinha ouvido falar em Le Corbusier, não sabia o que era, mas o anúncio da revista explicava mais ou menos o que era, mandei tomar assinatura. Chegou o primeiro número. Foi um estouro! Levei pro Mário de Andrade, foi um entusiasmo! […] O impacto da revista, no nosso grupo, foi enorme. Aí nós começamos a nos interessar não mais somente por literatura, mas por arquitetura, por arte, por escultura, essa coisa toda, através da influência, ou melhor, influência não, foi a revista de Le Corbusier que nos abriu esse campo” 11.

16§Com efeito, o entusiasmo de Mário de Andrade por esta nova revista pode estar ligado ao interesse do escritor desde jovem pela relação entre as artes. Em carta ao poeta brasileiro Alphonsus de Guimaraens Filho em 1944, o autor de Macunaímadestaca: “desde rapaz de 16 anos me acostumei a lidar com muitas artes, eu sei que a palavra (e eu sou essencialmente escritor) se difunde num mundo profuso e confuso de som musical, de cores e de formas escultóricas”12. À aluna Oneyda Alvarenga, que lhe pergunta da necessidade do conhecimento técnico para se compreender a obra de arte, o professor de estética e de história da música reforça a descoberta na adolescência:

  • 13ANDRADE, Mário de.Oneyda Alvarenga: cartas. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983, p. 270-271.

“Que mistério, que intuição, que anjo-da-guarda, Oneyda, quando aos 16 anos e muito resolvi me dedicar à música, me fez concluir instantaneamente que a música não existe, o que existia era a Arte?… E desde então, desde esse primeiro momento de estudo real (antes, por uns meses apenas, estudara piano sozinho, só pra gastar o tempo), desde então, assim como estudava piano, não perdia concerto e lia a vida dos músicos, também não perdia exposições plásticas, devorava histórias de arte, me atrapalhava em estéticas mal compreendidas, estudava os escritores e a língua, e, com que sacrifícios nem sei pois vivia de mesada miserável, comprava o meu primeiro quadro”13.

17§Aos vinte e sete anos, não mais dependendo de mesada, mas contando com a remuneração modesta de professor de piano no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, o poeta ainda encontra dificuldades para aumentar e atualizar a coleção de arte e a biblioteca que está formando. No final de 1920, Mário de Andrade endivida-se para comprar A Cabeça de Cristo, bronze do escultor Victor Brecheret, que, segundo testemunho do poeta, foi “o gatilho” para a redação dos poemas de Pauliceia desvairada. Consegue ainda os 75 francos necessários para tornar-se assinante de uma revista francesa, que, além de promover um fórum de discussões estéticas e científicas, prometia notáveis ilustrações de arte :

  • 14Em francês: “L’ESPRIT NOUVEAU formera chaque année quatre fort volumes format in-8 (25x17cm) illustrés de plus de 600 reproductions, dont 20 hors-textes en couleurs, sans compter des pochoirs, eaux-fortes, gravures sur bois, etc., qui auront une valeur de collection considérable”. In: L´Esprit Nouveau, nº 1, Paris, [out. 1920], páginas iniciais não numeradas.
  • 15Em francês: “Hélas, ce brave garçon s’était mis dans la tête d’en faire une revue Dada: nous l’éliminâmes; plus tard, car il avait de la générosité d’âme, il comprit le sens et la valeur de notre effort; L’Esprit Nouveau publia alors quelques-uns de ses écrits”. In: OZENFANT, Amédée.Ozenfant-Mémoires 1886-1962. Org. Raymond Cognita. Paris: Seghers, 1968, p. 110.
  • 16Em francês: “Nous voulons faire une revue constructive et non pas une revue de discussions académiques ou anarchiques, nous voulons de la clarté et non de la confusion, nous voulons de l’unité et non de la dispersion”. In: DUCROS, Françoise.Amédée Ozenfant. Paris: Editions Cercle d’Art, 2002, p. 64.

“L’Esprit Nouveau formará a cada ano quatro grandes volumes in-octavo(25 X 17 cm), ilustrados com mais de 600 reproduções, dentre as quais 20 extra-textos em cores, pochoirs, águas-fortes, gravuras sobre madeira, etc., adquirindo um valor de coleção considerável.”14

Uma revista construtiva

18§L’Esprit Nouveau (1920-1925) nasce do encontro de um poeta com um pintor e um arquiteto. Em 1919, Amédée Ozenfant e Charles-Edouard Jeanneret, que em 1918 fizeram sua primeira exposição de pinturas puristas e publicaram o manifesto Après le cubisme, conhecem Paul Dermée e seu projeto editorial. Interessados no programa do poeta belga, ligado aos círculos parisienses de vanguarda frequentados por Apollinaire e pelos cubistas, Ozenfant e Jeanneret associam-se a ele e adotam a sua sugestão de título: L’Esprit Nouveau − Revue internationale d’esthétique. Em outubro de 1920, os três artistas lançam o primeiro número do mensário, no qual Jeanneret inaugura o pseudônimo Le Corbusier para assinar artigos sobre arquitetura, urbanismo e o que ele denomina de estética do engenheiro. Na capa, o subtítulo Revue internationale d’esthétique, delimitando uma intenção e uma área, consta apenas nos três primeiros números, que refletem a orientação literária e estética do diretor, Paul Dermée. No nº 4, o título vem acompanhado de novo aposto, Revue internationale illustrée de l’activité contemporaine, e sem mencionar o nome do diretor. Conforme relata Amédée Ozenfant em suas Mémoires, a alteração ocorreu porque o poeta e jornalista Paul Dermée, encarregado de “fazer a cozinha” do periódico, resolvera criar uma revista Dadá15. Em carta endereçada a Paul Dermée, Ozenfant e Jeanneret repreendem-lhe a insuficiência do trabalho de redação e de direção, bem como a orientação estética: “Queremos fazer uma revista construtiva e não uma revista de discussões acadêmicas ou anarquistas; nós queremos clareza e não confusão, unidade e não dispersão!”16

19§Do quarto até o último número, nº 28, em janeiro de 1925, apesar do extenso material − textos, anúncios e reproduções de arte, com 100 ou mais páginas −, Ozenfant e Le Corbusier fazem da revista o veículo de seu movimento estético, o purismo, e de um ousado programa de análise e de orientação da atividade contemporânea do homem em todas as suas manifestações. Mário de Andrade anotou toda a coleção da revista francesa.

20§São notas em português e francês, a grafite, a maioria; a lápis azul (nº 18) e vermelho (nº 24), a tinta preta, apenas uma (nº 9). A cor azul e a vermelha, do lápis de duas pontas usado na época pelos professores, implica um código usado por este singular leitor. Para ele, o azul marca o que é menos importante e pode ser descartado. O vermelho, aquilo que interessa e deve ser aproveitado. Correspondem a traços simples ou duplos, grifando frases, que, por vezes, são completadas pelo leitor na condição de co-autor: “Ses efforts s’exaspéraient en un ordre exclusivement musculaire.” et sale. [Nota MA], no artigo “La doctrine de Lacerba”, de Giuseppe Ungaretti, nº2. Equivalem a riscos verticais às margens de trechos de modo a destacar pontos de interesse ou reter informações; colchetes ou fios no sentido vertical, à margem esquerda ou direita do texto, para selecionar parágrafos. Valem-se de números entre parênteses no final de alguns trechos, chamando para nota de rodapé. Abrangem palavras às margens de trechos à guisa de síntese. Correções a erros de composição tipográfica, como no nº 13, à p. 1.465, quando risca “doti” e escreve ao lado “ doit”, forma correta do verbo devoir no presente; números nas margens superiores esquerda e direita para suprir a falta de numeração em alguns exemplares; desenhos e grafismos que estudam formas apreciadas em pinturas reproduzidas ou ensaiam uma criação; grifos breves para marcar, na lista “Les livres reçus”, da seção “Bibliographie” de alguns números da revista, um livro que talvez encomende para a biblioteca particular que vai crescendo. Anthologie nègre, de Blaise Cendrars, por exemplo, é uma das obras assinaladas no nº 11/12 e que integra a biblioteca do escritor.

“Découverte du lyrisme: o poema “Tu”

na raiz do surrealismo avant la lettre

21§Muitos artigos em L’Esprit Nouveau receberam do lápis de Mário de Andrade notas identificando noções teóricas e ideias estéticas que ele já formulava no processo de criação de Pauliceia desvairada: lirismo e poesia, impressionismo, harmonismo, primitivismo, simultaneísmo são algumas delas.

22§Assim no nº11/12, no artigo “Le Phénomène Littéraire”, de Jean Epstein, p. 1.217, o colchete seguido do expoente (1) na margem direita para assinalar o trecho em que Epstein desenvolve a noção de simultaneísmo e proclamar a coincidência no rodapé: “Mon harmonismo!!!”. Palavra que o leitor/poeta brasileiro escreve e sublinha na própria língua, marcando um conceito seu, anunciado, aliás, no uso do possessivo “mon”. Coincidência e destaque do que é próprio, refletidos na linguagem, que mistura a língua francesa e a brasileira na mesma nota. A definição de harmonismo aparece no “Prefácio interessantíssimo”:

  • 17ANDRADE, Mário de.Pauliceia desvairada. São Paulo: Casa Mayença, 1922, p. 24.

“Ora, se em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais: […] fizermos que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras, pelo fato mesmo de se não seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras, para a nossa sensação, formando, não mais melodias, mas harmonias. Explico melhor: Harmonia: combinação de sons simultâneos”17.

  • 18“O lirismo é o canto de nossa vida profunda – instintiva, afetiva e passional.”
  • 19“Eu grito isso dentro de mim há muito tempo!”

23§No nº1, o texto “Découverte du lyrisme”, assinado pelo diretor da revista, Paul Dermée, promove um rico diálogo intertextual. O lirismo moderno teorizado pelo poeta belga ecoa na noção de lirismo concebida por Mário de Andrade. Escrevendo a grafite a palavra “définition”, p. 34, à margem esquerda da frase grifada Le lyrisme est le chant de notre vie profonde – instinctive, affective et passionnelle.18, o leitor/poeta acrescenta no fim o índice (1), remetendo à exclamação, em francês, na margem inferior: “(1) Je le cries enm [rasura] moi-même il y a longtemps!”19

  • 20“graças às abordagens dos psicólogos modernos e às intuições dos poetas novos.”

24§“Découverte du lyrisme” marca o início em 1920 de uma série de artigos de Paul Dermée em L’Esprit Nouveau a favor da renovação da poesia francesa e de um novo lirismo. No texto, no primeiro número da revista internacional de estética, Dermée lança um manifesto poético, nele destacando a palavra surrealismo recentemente criada, cujo uso se restringia então a um círculo pequeno da vanguarda parisiense. O manifesto acusa a tirania da inteligência sobre a sensibilidade e propõe uma expressão lírica pura, cuja natureza, conforme Dermée, pode ser descoberta, “grâce aux travaux d’approche des psychologues modernes et aux intuitions des poètes nouveaux”20. Trecho, cabe observar, grifado por Mário de Andrade, que à margem exclama “Très bien!”, certamente referendando, na condição de poeta novo, a afirmação do escritor belga “graças […] às intuições dos poetas novos”. Dermée marca em itálico a palavra nova “surrealismo’, termo para se referir às imagens que o poeta do lirismo puro deverá criar:

  • 21Em francês: “Quant aux images, il faut les prendre avec soin, en évitant qu’elles donnent aux objets une existence dans le monde extérieur. Rien, en effet, ne doit faire sortir le lecteur de son moi profond. Donc, pas d’images réalisables par la plastique: mais leur surréalisme!”. In: DERMÉE, Paul. Découverte du lyrisme. L’Esprit Nouveau, nº 1, Paris, [out. 1920], p. 37.
  • 22Em francês:“Tout bien examiné, je crois, en effet qu’il vaut mieux adopter surréalisme que surnaturalisme que j’avais employé. Surréalisme n’existe pas encore dans les dictionnaires, et il sera plus commode à manier que surnaturalisme déjà utilisé par MM. les Philosophes”. Carta reproduzida emL’Esprit Nouveau, nº 26, Paris, [out. 1924], p. 195.

“Quanto às imagens, é preciso tratá-las com cuidado, evitando que deem aos objetos uma existência no mundo exterior. Nada, de fato, deve fazer o leitor sair de seu eu profundo. Então, nada de imagens que a plástica possa realizar, mas o surrealismo delas!”21

25§No entanto, Dermée não era o autor do neologismo impresso em seu artigo. O criador da palavra fora Apollinaire. Em carta de apoio ao manifesto “Quand le symbolisme fut mort…”, escrito por Dermée para o primeiro número da revista literária Nord-Sud, publicada em março de 1917, o poeta de Alcools escrevera:

“Tudo bem examinado, penso seja melhor adotar surrealismo no lugar de sobrenaturalismo, como eu já havia empregado. Surrealismo ainda não existe nos dicionários e será mais cômodo usá-lo em vez de sobrenaturalismo, termo já utilizado pelos senhores filósofos.”22

26§O epíteto sugerido na carta ao jovem poeta fora publicado pela primeira vez em 1917, na apresentação redigida por Apollinaire para o programa do balé Parade “une sorte de sur-réalisme…, de Jean Cocteau, contando com a participação de Picasso na cenografia e Satie na música e, depois, no prefácio a Mamelles de Tirésias, classificado como “drame surréaliste”. Mas por não estar claramente estabelecido, nem atribuído a uma estética nova, o neologismo abriu-se a novas apropriações. Foi o caso certamente de Paul Dermée, que parece ter se interessado pela proposição de Apollinaire, servindo-se do termo sistematicamente a partir de 1920 em seus artigos na L’Esprit Nouveau. Em 1924, porém, ocorrerá uma disputa entre dois grupos em torno da propriedade intelectual da palavra “surrealismo”. De um lado, sobretudo Paul Dermée e Ivan Goll; de outro, André Breton, Louis Aragon e Philippe Soulpault. Embora divergissem quanto ao sentido da palavra, os dois grupos tinham um denominador comum: Apollinaire, poeta que situavam na origem dos respectivos movimentos.

  • 23Cf. o surrealismo de Paul Dermée por Jean-Marie Roulin, “Paul Dermée et L’Esprit Nouveauou le difficile héritage d’Apollinaire”, em L’Esprit Nouveau – Le Corbusier et l’industrie 1920-1925, Les Musées de la Ville de Strasbourg, 1987.
  • 24Em francês: “Paul Dermée avait vivement protesté entre autres dans une lettre au Journal Littéraire contre la volontéde M. Breton de prendre le terme Surréalisme comme nom d’une école aux contours fort étroits. Notre collaborateur rappelait qu’il avait ‘maintenu’ depuis 1920, dans nos colonnes, ce terme de surréalisme créé par Apollinaire. Nos lecteurs ont lu l’article ‘Découverte du lyrisme’ paru dans notre premier numéro de 1920 et des études de la série Poe, Baudelaire, Lautréamont, Apollinaire, etc, où ce mot avait été systématiquement employé”. In: VAUVRECY. La querelle du surréalisme. L’Esprit Nouveau, nº 28, [jan. 1925], p. 2.324.

27§A revista L’Esprit Nouveau, diretamente envolvida na contenda, espécie de veículo do surrealismo dermeano23, tomou partido do poeta belga e do alsaciano Ivan Goll. No nº 28, em janeiro de 1925, na notícia “La querelle du surréalisme”, a legenda “Deux manifestes des deux partis” apresenta a reprodução das capas deSurréalisme e do Manifeste du Surréalisme. A primeira corresponde à revista que Ivan Goll lançara em outubro de 1924, um mês antes do manifesto do opositor André Breton. Vauvrecy, pseudônimo de Amédée Ozenfant, autor da notícia, observou:

“Paul Dermée protestara vivamente, em uma carta ao Journal Littéraire, entre outras coisas, contra a vontade do senhor Breton de usar o termo surrealismo para nome de uma escola de contornos muito estreitos. Nosso colaborador lembrava que mantivera desde 1920, em nossas colunas, o termo surrealismo criado por Apollinaire. Nossos leitores leram certamente o artigo ‘Découverte du lyrisme’, no primeiro número de 1920, e estudos da série Poe, Baudelaire, Lautréamont, Apollinaire, etc., nos quais esta palavra fora sistematicamente empregada.”24

28§A disputa terminou com o abandono do termo por Dermée em favor de outro, “panlyrisme”, atitude justificada no artigo “Pour en finir avec le surréalisme”, publicado em seu novo periódico Le mouvement accéleré. “Panlyrisme”, aliás, serviu de título ao artigo com que o poeta belga encerrou o seu programa estético nas páginas de L’Esprit Nouveau. O abandono da palavra por Dermée e a publicação doManifeste du Surréalisme por Breton, texto ao qual se vincula o sentido atual da vanguarda, deixaram na sombra um surrealismo avant la lettre, concebido pelo poeta francês Jean Cocteau na criação de Parade e nomeado pela primeira vez por Guillaume Apollinaire em 1917, conforme se historiou.

29§Na raiz desse surrealismo nascendo na França no limiar de 1920, em especial o surrealismo proposto por Dermée, podem ser situados alguns versos de Pauliceia desvairada. Em “Découverte du lyrisme”, à p. 37, no trecho “Quant aux images, il faut les prendre avec grand soin, en évitant qu’elles donnent aux objets une existence dans le monde extérieur. Rien, en effet, ne doit faire sortir le lecteur de son moi profond. Donc, pas d’images réalisables par la plastique: mais leur surréalisme!”, Mário de Andrade grifa “pas d’images réalisables par la plastique”, marcando depois da palavra “plastique”, o expoente (1) para remeter à nota no rodapé:

  • 25Então eu posso muito bem dizer que uma mulher é mais alta do que as torres de São Bento!

“(1) Alors je peux bien dire qu’une femme/ est plus haute que les tours de São Bento!”25

30§A nota do leitor/escritor, que combina o exercício da crítica e o da criação, ao ensaiar uma imagem surrealista como se pode verificar (uma mulher mais alta do que as torres do mosteiro de São Bento, no centro de São Paulo), esboça, em francês, a possível primeira instância dos versos 6, 7, 8 do poema “Tu”, de Pauliceia desvairada:

  • 26ANDRADE, Mário de.Pauliceia desvairada. Ed. cit., p. 101.

“Mulher mais longa
que os pasmos alucinados
das torres de São Bento!”26

31§Provavelmente traçada em novembro ou dezembro de 1920, considerando a data de publicação do primeiro número de L’Esprit Nouveau, outubro de 1920, e sua chegada ao Brasil possivelmente um mês depois, o comentário de Mário de Andrade, no rodapé, materializa uma instância da gênese de “Tu”, poema sem manuscrito integral no arquivo de Mário de Andrade.

  • 27ANDRADE, Oswald de. O meu poeta futurista.Jornal do Comércio, São Paulo, 27 de maio de 1921. Apud BRITO, Mário da Silva. História do modernismo brasileiro – I – Antecedentes da Semana de Arte Moderna. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1964, p. 228-230.

32§A 27 de maio de 1921, uma primeira versão integral do poema “Tu” é publicada no interior do artigo “O meu poeta futurista”, de Oswald de Andrade, no Jornal do Comércio, em São Paulo27. Divulgado como inédito, o poema desencadeia repercussão negativa nos meios conservadores da sociedade paulistana. Tirado do anonimato, o poeta não gosta da classificação de futurista. A 6 de julho, Mário de Andrade responde ao amigo, publicando no mesmo jornal o artigo “Futurista?!”, no qual repudia o rótulo e reivindica a liberdade em sua pesquisa para a modernidade.

33§Em “Tu”, esta pesquisa se plasma no emprego do pronome pessoal e familiar para evocar a cidade de São Paulo, transfigurada na personificação de uma mulher, multiplicada em imagens bem pouco convencionais. Imagens estas que devem ter chocado o gosto do público leitor na época, habituado às formas clássicas, como bem comenta Mário de Andrade em “Mestres do Passado – IV: Alberto de Oliveira”, artigo da série de estudos críticos sobre poetas brasileiros parnasianos, no Jornal do Comércio, em 16 de agosto de 1921:

  • 28BRITO, Mário da Silva.Op. cit., p. 273.

“Os homens engoliram a pílula. Agora que se fale em ‘braços infinitos’, isso não! Que o talhe esbelto da pequena traga a um poeta maluco visões afrodisíacas de torres alucinadas, isso nunca! E por cúmulo dos cúmulos, que essas torres sejam do mosteiro de São Bento, pelo qual o lírico passava diariamente; que o poeta recorde São Bento, São Paulo, Estados Unidos do Brasil e não torres de São Marcos ou de Nossa Senhora de Paris, isso é demais!”28

34§Na frase por mim assinalada em itálico, o poeta retoma justamente aqueles versos do poema “Tu” que ele esboçara, pela primeira vez, em francês, em comentário no rodapé do artigo de Paul Dermée. Em 1922, “Tu” aparece no conjunto dos 21 poemas e um oratório profano na primeira edição de Pauliceia desvairada. Décimo-sétimo poema do livro, composto de 36 versos livres distribuídos em 8 estrofes, “Tu” é o retrato da dama a quem o poeta, que se define como um trovador, rende homenagem em seu livro. Deslocando-se dos tempos medievais e das terras europeias para os tempos modernos, os anos 1920, e para as terras tropicais, o Brasil, o trovador que se apresenta no poema “O Trovador”, no verso 10, “Sou um tupi tangendo um alaúde!”, canta o seu amor pela cidade, evocada em “Inspiração”, primeiro poema do livro: “São Paulo! comoção de minha vida…”.

35§No conjunto dos poemas em que o eu lírico se funde na cidade para lhe denunciar as contradições por meio da pintura de cenas, de personagens e de quatro paisagens urbanas, “Tu” corresponde ao desenho da musa do livro, Pauliceia, que eclode em uma espécie de fantasmagoria. Manifestando-se na figura de uma mulher, anunciada pelo poeta, pouco antes, na evocação “Pauliceia, minha noiva… Há matrimônios assim…”, verso 7 de “Tristura” (décimo poema), “Tu” desdobra-se em várias imagens, desde a prosaica “Costureirinha de São Paulo/ítalo-franco-luso-brasílico-saxónica” (versos 12-13) até muitas outras de contornos fantásticos, sinistros e verticais, que transcrevo abaixo:

“Morrente chama esgalga,” (verso 1)
“Espírito de fidalga,” (verso 3)
Mulher mais longa/que os pasmos alucinados/das torres de São Bento!”(versos 6-8)(grifei)
“Mulher feita de asfalto e de lamas de várzea,” (verso 9)
“Lady Macbeth feita de névoa fina,” (verso 17)
“Mulher que és minha madrasta e minha irmã!” (verso 19)
“Trituração ascencional dos meus sentidos!” (verso 20)
“Materialização da Canaan do meu Poe!/ Never more!” (verso 26-27)
“Oh! Incendiária dos meus aléns sonoros!” (verso 29)
“tu és o meu gato preto!” (verso 30)
“as alucinações crucificantes” (verso 35)

  • 29Na biblioteca de Mário de Andrade, em edições sem data, mas, provavelmente, lidas pelo poeta brasileiro antes da criação do poema “Tu”: William Shakespeare,Shakespeare’s works, London: Charles Taylor, The Brooke House, s.d; Edgar Allan Poe, Edgar Poe Contes et Poésies, introduction, traduction et notes par Emile Lauvrière, Paris: La Renaissance du Livre, s.d.
  • 30LAFETÁ, João Luiz.Figuração da intimidade. Imagens na poesia de Mário de Andrade. São Paulo: Martins Fontes, 1986, p. 84.
  • 31Sobre Paul Dermée ler SANOUILLET, Michel. Dada à Paris, Paris, CNRS Editions, 2005; ROULIN, Jean-Marie. Op. cit.

36§São imagens surreais, fazendo eco àquela esboçada no artigo de Dermée, como se pode comparar. Algumas delas evocam outras leituras do poeta modernista, em que ele não deixou traços. A imagem da cruel “Lady Macbeth”, a citação da expressão “Never more!” e a referência ao “gato preto” escondem a leitura da tragédia Macbeth de Shakespeare, do poema “The raven” e do conto “The black cat” do poeta norte-americano Edgar Allan Poe, obras, não anotadas, mas presentes na biblioteca de Mário de Andrade29.

37§Uma interpretação do intertexto de Edgar Allan Poe no poema “Tu” foi apresentada por João Luiz Lafetá em Figuração da intimidade em 1986. Segundo o crítico, que fez uma leitura psicanalítica, focalizando a pulsão reprimida do poeta, a invocação a Poe por Mário de Andrade serviu para criar a imagem de “desejos de crime turco”, de “pesadelos taciturnos”, nos versos 23 e 25. “A incendiária” (verso 29) é o “gato preto” (verso 30) do poeta brasileiro, amor e medo, “figura de um amor meio degradado que oscila –‘chama esgalga’– entre o entusiasmo da devoção […] e o aspecto terrível das ‘alucinações crucificantes’”30.

38§Desse modo, a leitura do artigo de Paul Dermée, escondida nos versos 6-8 de “Tu”, acrescenta novo dado à interpretação do poema. A nota à margem do texto emL’Esprit Nouveau, único manuscrito do poema até o momento, ao lançar a imagem sem nexo com a lógica do mundo real, (“(1) Alors je peux bien dire qu’une femme/ est plus haute que les tours de São Bento!), desvela a experimentação de imagens surrealistas na construção da figura feminina em “Tu”. Surrealismo ainda não oficial, preso à poética dermeana, de contornos flutuantes. No debate das vanguardas europeias, o poeta belga, transitou pelo cubismo literário francês, proposto por Apollinaire, aliou-se às ideias revolucionárias do dadaísmo, ao mesmo tempo em que dialogou com os ideais puristas de Ozenfant e Le Corbusier, fundando com eles a revista L’Esprit Nouveau31.

39§Em 1941, nova versão de “Tu” aparece em Poesias, coletânea de poemas organizada por Mário de Andrade, reunindo os títulos publicados no primeiro tempo modernista e os livros “A costela do Grã Cão” e “Livro azul” inéditos. Incluído em “O Estouro”, a primeira parte que reverencia o período da renovação poética de Mário de Andrade, “Tu” aparece com um verso a menos. O verso 19 é suprimido em uma espécie de censura do que parecia mais aludir à figura da mãe: “Mulher que és minha madrasta e minha irmã”.

Conclusão

40§Eis, em síntese, o trajeto que esta simples nota nas margens da revista L’Esprit Nouveau, único documento manuscrito de “Tu” até o presente, permite retraçar, trazendo à luz uma instância na criação de um poema surrealista avant la lettre de Mário de Andrade. O diálogo do autor de Pauliceia desvairada com o surrealismo não oficial na França, em 1920, é também confirmado pelo raro exemplar de Surréalismeem sua biblioteca. Na capa desta revista de um só número, que sai em outubro de 1924 sob a direção de Ivan Goll, o título é grifado a lápis vermelho, sinal para Mário de Andrade daquilo que poderia lhe servir.

Fonte:

http://www.ieb.usp.br/marioscriptor/escritos/escritura-a-margem-a-criacao-poetica-de-mario-de-andrade-nas-paginas-da-revista-lesprit-nouveau.html

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